‘Patrick Melrose’: o último gole do patriarca

Benedict Cumberbatch encarna dor tortuosa em ‘Patrick Melrose’ (Divulgação/Showtime)

Tem uma lagartixa na parede e é nela em que está concentrado o olhar de Patrick Melrose. De alguma maneira, ele consegue escapar do próprio corpo para ocupar o do bicho, ou pelo menos imagina fazer isso. Tentar não estar presente é o que está ao seu alcance toda vez que é estuprado pelo próprio pai.

No entanto, o menino é traumatizado independente disso. As feridas lhe são infligidas profundamente, não cicatrizam e infeccionam. E a febre é excruciante.

O protagonista, interpretado na juventude e na vida adulta por Benedict Cumberbatch, torna-se dependente químico. Não há agulha que ele deixe de espetar no braço; não há comprimido que deixe de tomar; não há gole que deixe sobrar no copo; não há dia em que atirar-se da janela mais alta é uma possibilidade que não lhe ocorra. A lagartixa parece sempre estar lá na parede.

Baseada nos romances autobiográficos de Edward St. Aubyn (lançados no Brasil pela Companhia das Letras), escritor indicado ao Man Booker Prize, a minissérie do Showtime aborda em cinco episódios — cada um adapta um dos cinco livros — o personagem-título em fases distintas de sua vida e como ele lida com o trauma e a depressão que vem em seguida.

Durante a infância, Patrick (nesta fase vivido por Sebastian Maltz), um playboy inglês, está sob o poder de seu pai David (Hugo Weaving), sujeito esnobe e truculento que sabe projetar sua sombra sobre outras pessoas como poucos sabem. Eleanor (Jennifer Jason Leigh) é a mãe, uma americana ricaça que sustenta a família, passa o dia enchendo a cara e consumindo pílulas. O filho é abusado debaixo do nariz dela, mas Eleanor não percebe e continua na maratona química diária.

Não tem o que fazer. É impossível voltar no tempo para desfazer o estrago; os pais de Patrick também precisam de ajuda. As fraturas estão expostas, os relacionamentos estão destruídos e pelo que o filho demonstra, ele também está a caminho da destruição.

A dor do protagonista é tortuosa e não cessa. No primeiro episódio, ambientado nos anos 1980, quando Patrick tem 20 e poucos anos, ele vai a Nova York buscar o cadáver do pai recém-morto. Ao encontrar David no caixão, Patrick — já bastante drogado — descobre o rosto do pai como um embrulho de presente e diz para o funcionário do serviço funerário: “É exatamente o que eu queria, não precisava!”. Além das drogas, este é outro método que Patrick tem para lidar com o trauma: humor negro.

Após deixar o local com as cinzas do pai dentro de uma caixa, Patrick se isola no quarto do luxuoso hotel em que está hospedado e manda ver na bebedeira e na heroína. Ele perde o controle — quase destrói o quarto, não consegue abrir a janela para se jogar e por pouco não dá um jeito de mergulhar a TV ligada na banheira transbordante.

Cumberbatch, que também é um dos produtores executivos de Patrick Melrose, é magnífico na tarefa de encarnar os escombros emocionais e físicos do personagem. O desempenho do inglês chega a ser espantoso — mais um que entra para sua admirável coleção, junto de Sherlock (BBC), O Jogo da Imitação (2014) e Além da Escuridão — Star Trek (2013) — e vai bem acompanhado de consistentes atuações dos coadjuvantes Leigh, Jessica Raine (que vive Julia, amiga de longa data de Patrick) e Pip Torrens (Nicholas Pratt, um insuportável reacionário ligado à família Melrose).

Performance de Cumberbatch é desoladora e hilária — mais um para a já extensa galeria de grandes momentos do ator (Divulgação/Showtime)

Todos os episódios de Patrick Melrose são dirigidos pelo alemão Edward Berger de The Terror (AMC), outra elogiada série que estreou neste ano — e pelo roteirista e escritor David Nicholls, responsável pelo texto do ótimo Longe Deste Insensato Mundo (2015) e pelo aclamado romance Nós (2014), finalista do Man Booker Prize.

Um time de pedigree realizou Patrick Melrose, o que torna particularmente frustrante perceber o quão mal aproveitado foi o personagem de Hugo Weaving. O patriarca é a personificação de uma elite decadente — neste caso, a britânica, que além do poderio econômico tem laços com a família real —, que está embriagada de impunidade, privilégios e abstração da desigualdade social ao seu redor.

O que o fez tornar-se o predador do próprio filho? Por que ele é um sádico que coloca Patrick em um caminho do qual talvez ele não saia vivo? Também há outro aspecto no personagem que, se desenvolvido, poderia tornar o comentário social da minissérie ainda mais atual e ressonante: o mundo de hoje já não tolera homens como David. Estamos, afinal, na tal da “era Trump”, pós-declínio de Harvey Weinstein, pós-The Handmaid’s Tale (Hulu) como a série que materializa com eficiência nossas ansiedades políticas mais agudas.

St. Aubyn, à sua maneira, viveu as consequências dessa tradição. Ele consumiu tanta heroína para anestesiar o trauma que chegou ao ponto de se injetar a cada 20 minutos e conseguir se graduar em inglês em Oxford só por ter sensibilizado a universidade com sua situação lastimável.

Hoje, St. Aubyn está sóbrio. Enquanto isso, homens como David Melrose resistem aqui e ali e ainda marcam lugar na paisagem social. No entanto, como Patrick repete no decorrer da série, o que seu pai lhe fez é o tipo de coisa que nenhuma pessoa deve fazer com outra. Aquela lagartixa, para início de conversa, nem devia estar na parede.

Os episódios de Patrick Melrose têm uma hora cada e foram exibidos nos Estados Unidos no decorrer de maio e junho pelo Showtime. Não há previsão de estreia no Brasil.

(Dica: caso queira conhecer mais a respeito de Edward St. Aubyn, um excelente perfil dele feito por Ian Parker e publicado pela New Yorker em 2014 pode te ajudar nisso. Só o humor corrosivo e esnobe de St. Aubyn já vale a leitura.)