Os melhores filmes que vi em 2017

Salma Hayek em cena de ‘Beatriz at Dinner’: Atriz tem atuação complexa e sensível na comédia (Divulgação/Roadside)

A primeira coisa que pensei quando me peguei planejando a lista deste ano foi: “por que eu não faço uma só para séries?”.

Eu não me surpreenderia se você me dissesse que tem preferido ver mais séries a filmes, porque eu também tenho feito isso e conheço muitos cinéfilos por aí que nunca viram tanta televisão quanto hoje em dia.

As séries estão incríveis e dando um banho de criatividade e coragem no cinema, principalmente no produzido por Hollywood. Acho que nunca vi tanta série quanto em 2017: me apaixonei por estreias como The Handmaid’s Tale (Hulu), The Marvelous Mrs. Maisel (Amazon) e Legion (FX); e também pelas novas temporadas de Top of the Lake (Sundance Channel/BBC), Twin Peaks (Showtime) e One Mississippi (Amazon). Adorei a minissérie Alias Grace (CBC/Netflix) e acredito que Big Little Lies (HBO) abriu ainda mais o caminho para mulheres no protagonismo e como personagens maravilhosas. Nicole Kidman está excelente em Big Little Lies — como é bom ver atores que gostamos mandando ver.

Em 2018 virão coisas que prometem bastante. Alguns exemplos são as novas temporadas de Arquivo X (Fox) e The Handmaid’s Tale, e a mini Sharp Objects (HBO), baseada no livro homônimo de Gillian Flynn, uma de minhas escritoras (e roteiristas) prediletas.

Mas, bem, esta lista é sobre filmes, então vamos falar sobre eles. É a sexta que faço. Caramba, como passou rápido.

Neste ano, defini que as futuras listas, a partir desta, serão publicadas apenas de 1º de janeiro em diante, para eu não ter que editar o post depois para adicionar mais um título. O único critério que uso é o de escolher filmes que vi pela primeira vez — não importa o gênero ou se foi lançado neste ano ou não. Abro mão de rankings, pois eles não fazem sentido algum para mim.

Como de praxe, a seleção meio que resume meu gosto por cinema: não tenho muitas restrições e geralmente recebo de braços abertos (quase) todo tipo de filme.

Metas para 2018: ver longas que prometem bastante, como Novos Mutantes e X-Men: Dark Phoenix (quem me conhece sabe que eu amo X-Men!), o novo Vingadores e Pantera Negra (quem me conhece sabe que eu sou praticamente uma líder de torcida para a Marvel). As estreias desta temporada de Oscar que virão neste ano novo também estão na minha mira, principalmente Lady Bird, Eu, Tonya, A Forma da Água, The Post e Três Anúncios para um Crime.

Mais metas para 2018: além de anotar os filmes, anotar as séries que vejo e os livros que leio. Vão render listas interessantes também.

Aqui estão as listas anteriores, caso você esteja curioso: 2016, 2015, 2014 e 2013. A de 2012 era um post de Facebook e sumiu. É a vida. (Mas lembro que coloquei Prometheus nela, o que fez muita gente me olhar esquisito. Sim, eu gosto de verdade deste filme.)

Sem mais delongas, vamos lá:

Animais Noturnos (Nocturnal Animals, 2016), de Tom Ford
Jackie (2016), de Pablo Larraín
Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight, 2016), de Barry Jenkins
As Delícias da Tarde (Afternoon Delight, 2013), de Jill Soloway
Manchester À Beira-Mar (Manchester by the Sea, 2016), de Kenneth Lonnergan
Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake, 2016), de Ken Loach
Toda Forma de Amor (Beginners, 2010), de Mike Mills
Kubo e as Cordas Mágicas (Kubo and the Two Strings, 2016), de Travis Knight
Encarcerado (Starred Up, 2013), de David Mackenzie
Um Homem Sério (A Serious Man, 2009), de Ethan Cohen & Joel Cohen
O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (Whatever Happened to Baby Jane?, 1962), de Robert Aldrich
Zootopia (2016), de Byron Howard, Rich Moore e Jared Bush
Mulheres do Século 20 (20th Century Women, 2016), de Mike Mills
Twin Peaks — Os Últimos Dias de Laura Palmer (Twin Peaks: Fire Walk with Me, 1992), de David Lynch
Eu Não Sou Seu Negro (I’m Not Your Negro, 2016), de Raoul Peck
O Apartamento (Forushande, 2016), de Asghar Farhadi
Adoráveis Mulheres (Little Women, 1994), de Gillian Armstrong
Amor & Amizade (Love & Friendship, 2016), de Whit Stillman
Toni Erdmann (2016), de Maren Ade
A Espinha do Diabo (El espinazo del diablo, 2001), de Guillermo del Toro
Muito Além do Jardim (Being There, 1979), de Hal Ashby
Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência (En duva satt på en gren och funderade på tillvaron, 2014), de Roy Andersson
O Agente da U.N.C.L.E. (The Man from U.N.C.L.E., 2015), de Guy Ritchie
O Fim da Turnê (The End of the Tour, 2015), de James Ponsoldt
O Médico e o Monstro (Dr. Jekyll and Mr. Hyde, 1931), de Rouben Mamoulian
Sete Minutos Depois da Meia-Noite (A Monster Calls, 2016), J.A. Bayona
T2 Trainspotting (2017), de Danny Boyle
Una (2016), de Benedict Andrews
Indignação (Indignation, 2016), de James Schamus
Dentro da Casa (Dans la maison, 2012), de François Ozon
O Expresso do Amanhã (Snowpiercer, 2013), de Joon-ho Bong
Mulher-Maravilha (Wonder Woman, 2017), de Patty Jenkins
Hedwig — Rock, Amor e Traição (Hedwig and the Angry Inch, 2001), de John Cameron Mitchell
Encontro de Irmãs (Lovely & Amazing, 2001), de Nicole Holofcener
Sexo, Mentiras e Videotape (Sex, Lies, and Videotape, 1989), de Steven Soderbergh
Corra! (Get Out, 2017), de Jordan Peele
Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming, 2017), de Jon Watts
Eu, Você e Todos Nós (Me and You and Everyone We Know, 2005), de Miranda July
Em Ritmo de Fuga (Baby Driver, 2017), de Edgar Wright
O Milagre de Anne Sullivan (The Miracle Worker, 1962), de Arthur Penn
Dunkirk (2017), de Christopher Nolan
O Estranho Que Nós Amamos (2017), de Sofia Coppola
Crimes e Pecados (Crimes and Misdemeanors, 1989), de Woody Allen
Maridos e Esposas (Husbands and Wives, 1992), de Woody Allen
Como Nossos Pais (2017), de Laís Bodanzky
Bingo: O Rei das Manhãs (2017), de Daniel Rezende
Reencarnação (Birth, 2004), de Jonathan Glazer
A Oitava Página (Page Eight, 2011), de David Hare
Mãe! (Mother!, 2017), de Darren Aronofsky
Logan Lucky: Roubo em Família (Logan Lucky, 2017), de Steven Soderbergh
Blade Runner 2049 (2017), de Denis Villeneuve
Infâmia (The Children’s Hour, 1961), de William Wyler
Todos os Homens do Presidente (All the President’s Men, 1976), de Alan J. Pakula
Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe (The Meyerowitz Stories (New and Selected), 2017), de Noah Baumbach
Trabalhar Cansa (2011), de Juliana Rojas e Marco Dutra
O Estado das Coisas (Brad’s Status, 2017), de Mike White
No Intenso Agora (2017), de João Moreira Salles
Thor: Ragnarok (2017), de Taika Waititi
Planeta dos Macacos: A Guerra (War for the Planet of the Apes, 2017), de Matt Reeves
Sinfonia da Necrópole (2014), de Juliana Rojas
Patti Cake$ (2017), de Geremy Jasper
Viva: A Vida É uma Festa (Coco, 2017), de Lee Unkrich e Adrian Molina
Star Wars: Os Últimos Jedi (Star Wars: The Last Jedi, 2017), de Rian Johnson
Beatriz at Dinner (2017), de Miguel Arteta
O Sonho de Greta (Girl Asleep, 2015), de Rosemary Myers
The Square: A Arte da Discórdia (The Square, 2017), de Ruben Östlund

Destaques:

Beatriz (Salma Hayek, brilhante), uma imigrante mexicana, e Doug (John Lithgow), um poderoso executivo norte-americano, se conhecem em um jantar de negócios para celebrar um novo empreendimento dele. A latina é a terapeuta holística e massagista de Kathy (Connie Britton), a esposa do anfitrião, Grant (David Warshofsky); Doug é a peça-chave no negócio que Grant está perto de emplacar. A protagonista vai parar no jantar meio que por acaso: seu carro quebra e ela não tem como ir embora depois de uma sessão com Kathy.

Beatriz e Doug têm personalidades essencialmente distintas. Ela é comedida, tem uma leve presença, é vegetariana e tem espiritualidade. Ele é um executivo voraz por lucro, sem receios de fazer o necessário para cumprir suas metas, tem uma presença expansiva e densa — e come carne e caça animais. No decorrer do jantar, a conversa entre os dois se transforma em confronto. A tensão segue aumentando a partir daí e a história segue caminhos inacreditáveis. Donald Trump odiaria este longa.

A excelente comédia dramática Beatriz at Dinner pode até parecer maniqueísta, mas tenha certeza de que não é: o diretor Miguel Arteta e o roteirista Mike White — um de meus prediletos — conseguem lidar com o conflito entre Beatriz e Doug com a devida profundidade para que nada aqui soe panfletário. Há bastante comentário social, mas nada que impeça este filme de ser, acima de tudo, um filme.

Poucos anos atrás, White e Laura Dern lançaram pela HBO a estupenda série Enlightened, uma de minhas prediletas, que infelizmente durou apenas duas curtas temporadas. Assim como em Beatriz at Dinner, destacam-se em Enlightened a atuação da protagonista — Dern, no caso; ela já havia trabalhado com ele em Amor pra Cachorro (2007) — e o texto sempre coesivo, afiado e superinteligente de White, que também brilha quando atua e dirige.

Acho importante mencionar a série neste texto porque ela é bastante parecida com Beatriz — até uma música da trilha sonora de Enlightened está no filme. Também há semelhanças em estética, locação, temas e personagens femininas ricas em conteúdo e nuances. Arteta também dirigiu episódios do seriado e outros dois filmes de White, Por um Sentido na Vida (2002) e Chuck & Buck (2000).

Beatriz, que infelizmente nem teve estreia comercial no Brasil, é meu filme predileto de 2017. É executado com beleza e concisão, traz uma performance elétrica de Hayek e é imprevisível sem perder o domínio sobre o tema.

É uma baita coincidência este filme ser lançado pouco antes de sua atriz principal denunciar Harvey Weinstein de assédio sexual, moral e ameaça de morte. Na vida real, ver que ele saiu perdendo dessa me trouxe alguma satisfação, pois o mundo do entretenimento não será mais o mesmo após a onda de denúncias que as mulheres têm feito sobre os Weinstein do meio. (Como bem escreveu Richard Brody na New Yorker, é desolador pensar em como essa cultura de assédio e desigualdade há décadas tira de pessoas a oportunidade de desenvolver uma carreira e, de nós, a de ver filmes.)

Depois de Corra!, de Jordan Peele, foi o único longa que vi ano passado em que não foi possível piscar e respirar durante a sessão.

Caso você se interesse, aí vão dicas de outras obras de Mike White, além de Beatriz at Dinner e Enlightened: O Estado das Coisas (2017), Amor pra Cachorro, Por um Sentido na Vida e Chuck & Buck.

O Estado das Coisas, protagonizado por Ben Stiller, é dirigido e escrito por White e também foi lançado em 2017. É uma comédia bastante amarga e lúcida na maneira de abordar seus personagens e temas, sobre um pai (Stiller) que inveja o próprio filho em via de entrar na universidade. O protagonista remói o passado enquanto vê o filho sair do ninho e iniciar uma nova jornada em sua vida.

White repete aqui seu estilo, em que o engraçado e o incômodo são partes de um só elemento em medidas certeiras. O Estado das Coisas é uma boa oportunidade para conferir Stiller em atuação centrada e eficiente, dando continuidade à sua tradição de viver homens neuróticos na ficção. E, é claro, de testemunhar o resultado final da labuta de um ótimo cineasta.

Não gostei de O Estado das Coisas tanto quanto de Beatriz, mas como ambos são de Mike White e saíram no mesmo ano, preferi mencionar.

Outros filmes que me marcaram bastante em 2017 também são lançamentos recentes: Manchester À Beira-Mar, Mulheres do Século 20, Corra!, Em Ritmo de Fuga e Dunkirk.

Como não quero deixar este post mais longo do que já está, prefiro não ir a fundo nessas obras — e caso você não tenha visto alguma delas, você pode a descobrir inteirinha por si só, o que sempre é uma experiência maravilhosa.

Que 2018 seja um ótimo ano para todos nós, com montes e montes de filmes, séries e livros.