Os melhores filmes que vi em 2018

A estupenda Margot Robbie em imagem de ‘Eu, Tonya’ (Divulgação/Neon)

A primeira coisa em que reparei ao escrever esta lista foi no (relativo) pequeno número de filmes que vi neste ano — e isso é bom. Eu me comprometi a ver mais séries de TV e tenho a impressão de que, dado o fato de que um dia tem apenas 24 horas, o investimento de tempo foi mais certeiro.

Entretanto, isso não muda o fato de que assisti a filmes ótimos, incríveis. Muitos deles para acompanhar a temporada de premiações — Oscar, Globo de Ouro — e outros para me aprofundar em suspenses clássicos filmados em preto e branco, um nicho ainda a ser mais explorado por mim.

Ser um cinéfilo (ainda usam este termo?) em São Paulo te dá privilégios tais como ver no cinema cópias restauradas de Intriga Internacional (obrigado, Clássicos Cinemark!) e 2001: Uma Odisseia no Espaço (obrigado, Projeto Replicante, editora Aleph e CineSesc!). Ambas as sessões foram deliciosas. Na primeira, eu fui sozinho e dei bronca em uma mulher que não largava o celular durante o filme (!!!) e, na segunda, fui com minha amiga Mariana (mais uma vez: seja bem-vinda a São Paulo, Mari!), que também é jornalista e escreve (muito bem) para o CinemAqui.

Estes foram dois pontos altos de meu 2018 diante das telas — e, abaixo, outros títulos notáveis aos quais — como sempre — assisti pela primeira vez e na ordem em que os vi, pois não acredito em rankings. Em seguida, os destaques que fiz questão de comentar.

Eu disse a mim mesmo em dezembro de 2017 que só publicaria esta lista em 1º de janeiro de 2019 para caso assistisse a mais alguma coisa antes da virada, mas como tenho visto mais séries que filmes, a seleção está madura o suficiente para ser compartilhada com você. Sem mais delongas, vamos lá:

Me Chame pelo Seu Nome (Call Me by Your Name, 2017), de Luca Guadagnino
O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street, 2013), de Martin Scorsese
Eu, Tonya (I, Tonya, 2017), de Craig Gillespie
Três Anúncios para um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, 2017)
Mudbound: Lágrimas sobre o Mississippi (Mudbound, 2017)
Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird, 2017)
O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Esposa e o Amante (The Cook, the Thief, His Wife & Her Lover, 1989), de Peter Greenaway
O Destino de uma Nação (Darkest Hour, 2017), de Joe Wright
Gosto de Sangue (Blood Simple, 1984), de Joel & Ethan Cohen
Felicidade (Happiness, 1998), de Todd Solondz
Aos Teus Olhos (2017), de Carolina Jabor
Trama Fantasma (Phantom Thread, 2017), de Paul Thomas Anderson
Violento e Profano (Nil by Mouth, 1997), de Gary Oldman
Aniquilação (Annihilation, 2018), de Alex Garland
Isto É Spinal Tap (This Is Spinal Tap, 1984), de Rob Reiner
A Grande Jogada (Molly’s Game, 2017), de Aaron Sorkin
Ratos de Praia (Beach Rats, 2017), de Eliza Hittman
Sabrina (1954), de Billy Wilder
O Sacrifício do Cervo Sagrado (The Killing of a Sacred Deer, 2017), de Yorgos Lanthimos
Testemunha de Acusação (Witness for the Prosecution, 1957), de Billy Wilder
Tully (2018), de Jason Reitman
As Boas Maneiras (2017), de Juliana Rojas & Marco Dutra
A Morte de Stalin (The Death of Stalin, 2017), de Armando Iannucci
O Reino de Deus (God’s Own Country, 2017), de Francis Lee
Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive, 2013), de Jim Jarmusch
A Ceia dos Acusados (The Thin Man, 1934), de W.S. Van Dyke
Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944), de Billy Wilder
Anatomia de um Crime (Anatomy of a Murder, 1959), de Otto Preminger
Ilha dos Cachorros (Isle of Dogs, 2018), de Wes Anderson
Corrente do Mal (It Follows, 2014), de David Robert Mitchell
A Vida de Brian (The Life of Brian, 1979), de Terry Jones
Os Imorais (The Grifters, 1990), de Stephen Frears
Três Estranhos Idênticos (Three Identical Strangers, 2018), de Tim Wardle
Mais uma Chance (Private Life, 2018), de Tamara Jenkins
Você Nunca Esteve Realmente Aqui (You Were Never Really Here, 2017), de Lynne Ramsay
O Exorcista (The Exorcist, 1973), de William Friedkin
O Outro Lado de Beverly Hills (Slums of Beverly Hills, 1998), de Tamara Jenkins
As Viúvas (Widows, 2018), de Steve McQueen
A Primeira Noite de um Homem (The Graduate, 1967), de Mike Nichols
Benzinho (2018), de Gustavo Pizzi
Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman, 2018), de Spike Lee
O Animal Cordial (2017), de Gabriela Amaral Almeida
Faça a Coisa Certa (Do the Right Thing, 1989), de Spike Lee
Roma (2018), de Alfonso Cuarón
Fé Corrompida (First Reformed, 2017), de Paul Schrader

Menções honrosas

Eu, Tonya

Drama, humor negro, linguagem de mockumentary (falso documentário em tom satírico) e quebra de quarta parede são mesclados e conduzidos com maestria pelo diretor Craig Gillespie e pelo roteirista Steven Rogers neste longa-metragem inspirado em uma história real — e no mínimo insana.

Nos anos 1990, a patinadora Tonya Harding (Margot Robbie) é talentosa, competitiva e ambiciosa, apesar de as coisas em casa serem só desgosto com a falta de grana e os abusos físicos e psicológicos infligidos pelo esposo, Jeff (Sebastian Stan), e pela mãe LaVona (Allison Janney, merecida vencedora do Oscar de coadjuvante pelo desempenho). A carreira promissora da atleta vai para o beleléu quando Tonya é ligada a um ataque criminoso sofrido por sua principal rival nas pistas de gelo, Nancy Kerrigan (Caitlin Carver): um episódio rocambolesco que culmina na expulsão da protagonista do esporte que ela tanto ama e, apesar de não ser aceita internamente pelo seu jeito grosseirão, boca-suja e caipira, é tudo para ela.

Robbie, que também é produtora do filme, está excelente no papel; a atriz australiana emprega à performance seu já tradicional apetite voraz pelos personagens que escolhe, muito bem acompanhada por (e sintonizada com) atuações hilárias e sensíveis de Stan, Janney, Paul Walter Hauser (Shawn, o braço-direito atrapalhado de Jeff) e Bobby Cannavale (Martin Maddox, um “jornalista-urubu” que acompanha o caso).

Gillespie — que dirigiu o remake de 2011 de A Hora do Espanto, a comédia A Garota Ideal e vários capítulos da finada série United States of Tara, todos na minha prateleira de favoritos — e Rogers armam um corpo narrativo vigoroso e ágil, com pontos certeiros nos quais vêm à tona o comentário da obra a respeito de desigualdade social e de gênero nos Estados Unidos — e uma tentativa sincera de olhar de perto sua população chamada pejorativamente de “white trash” (“lixo branco”). Com baixos índices de renda e escolarização, o voto desta parcela do povo americano tem sido considerado um dos fatores pelos quais Donald Trump chegou à presidência, dado o lugar de marginalização social em que pessoas brancas e pobres foram parar após décadas de políticas econômicas neoliberais. Não por acaso, Eu, Tonya faz um sutil paralelo entre as gestões de Trump e Ronald Reagan, cujo governo serve como parte do contexto sociopolítico em que a história se desenrola. O debate sobre o que é fato ou não, o que é verdade ou não, hoje tão presente por causa do uso de redes sociais para se espalhar mentiras e sustentar diferentes pontos de vista, também está presente em Eu, Tonya.

O filme poderia ter se enriquecido caso explorasse mais os coadjuvantes Nancy e Shawn, mas uma vez que a história é baseada em fatos e os personagens venderam seus respectivos “direitos de vida” para a adaptação, como Tonya e Jeff fizeram, dá para entender a situação do roteirista. Shawn já morreu e Nancy deixou claro que não quer saber de revisitar o trauma do ataque que sofreu. (Vale ressaltar que o texto foi construído a partir de entrevistas que Rogers fez com Tonya e Jeff.)

Infelizmente, a produção não foi reconhecida pelo Oscar nas categorias de melhor filme e melhor roteiro original, como bem merecia — mas o fato de Janney ter vencido e Robbie e a montadora Tatiana S. Riegel serem indicadas faz justiça, mesmo que só em parte.

(Pense na minha alegria quando minha cópia em blu-ray deste filme brilhante chegou em casa. Quase dormi abraçado à caixinha azul.)

Três Estranhos Idênticos

Três irmãos gêmeos separados no nascimento se reencontram por causa de coincidências estupidamente banais. A história deste documentário enxuto e vibrante começa como uma comédia espevitada dos anos 1980, no melhor estilo Procura-se Susan Desesperadamente, e se torna um sombrio e inquietante registro sobre doenças mentais, ética em pesquisas científicas e relacionamentos familiares complicados. Em Três Estranhos Idênticos, contornos de ficção científica e distopia se impõem para ser feito um retrato de como a realidade é tão ou mais estranha que a ficção. (Prepare-se para um delicioso momento ao som de “Walking on Sunshine”, de Katrina & the Waves.)

As Viúvas

Eu não perderia As Viúvas por nada neste mundo — afinal, o roteiro foi escrito por Gillian Flynn (Garota Exemplar, Sharp Objects), de quem sou fã devoto.

Portanto, com este viés foi impossível não colocar minhas expectativas lá no alto, ainda mais levando em conta que o diretor é Steve McQueen (de 12 Anos de Escravidão e Shame), com quem Flynn escreveu o roteiro. Pois levei uma rasteira: saí da sessão para a imprensa arrebatado por este thriller inteligente e duríssimo, que não apenas superou minhas expectativas como foi além: as driblou e por fim marcou um golaço.

Viola Davis encabeça um trio de mulheres cujos esposos, todos ladrões do mesmo grupo, são mortos durante um roubo milionário. Desesperadas por dinheiro e cobradas pelos bandidos donos da quantia roubada, elas se unem para realizar um perigoso assalto que pode tirá-las da situação, acompanhadas de uma cabeleireira sempre em busca de um bico para sustentar os filhos na periferia de Chicago.

Adaptado da muito boa e interessante série homônima criada pela “dama do crime” Lynda LaPlante (Prime Suspect) e exibida pelo canal ITV nos anos 1980, o longa-metragem mal te dá oportunidade de respirar e vem acompanhado de reviravoltas impensáveis e observações argutas sobre raça, gênero, classe e maquinações políticas nos EUA. Um trabalho afiado de Flynn e McQueen — uma dupla bastante inusitada e funcional — e de um elenco vigoroso.

As Viúvas não tem recebido a ampla atenção que merece dos círculos de premiações desta temporada. Torço que isso mude com as vindouras indicações ao Oscar e ao Bafta, a serem anunciadas no início do ano que vem. Torço muito para a produção ser reconhecida nas categorias de melhores filme, direção, roteiro adaptado, montagem, atriz (Davis) e atriz coadjuvante (Elizabeth Debicki).

As Boas Maneiras

Ao contrário do Brasil, o cinema feito por aqui está em excelente fase. E a prova disso é a leva de filmes oferecida por 2018: As Boas Maneiras, Aos Teus Olhos, Benzinho e O Animal Cordial são alguns que tive o prazer de conferir (ainda estou em falta com Ferrugem). Foi até difícil escolher sobre qual falar aqui, mas vou de As Boas Maneiras, o mais recente trabalho da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra, a mesma responsável por pérolas como Sinfonia da Necrópole (2014) — este dirigido apenas por Rojas — e Trabalhar Cansa (2011). (Assista aqui a O Duplo, maravilhoso curta-metragem da diretora.)

Marjorie Estiano e Isabél Zuaa interpretam, respectivamente, uma caipira ricaça que está grávida e uma comedida enfermeira negra que, dada a necessidade, torna-se sua empregada doméstica. O bebê que está por vir dá sinais de que não é uma criança comum — a gravidez da protagonista é esquisita, repleta de episódios sobrenaturais e sangrentos.

Não dá outra: nascem um menino, um segredo e uma reviravolta que transforma As Boas Maneiras em uma narrativa fabulesca, em que não há barreiras entre terror, drama social, musical, fantasia e comédia. Atenção às paisagens de São Paulo retratadas com ares de expressionismo alemão. Só o gênero do terror para explicar o Brasil dos dias atuais e seus monstros do passado.

Mal posso esperar por

A Esposa, Homem-Aranha no Aranhaverso, Assunto de Família, Se a Rua Beale Falasse, Maus Momentos no Hotel Royale, O Peso do Passado (que título melodramático Destroyer ganhou no Brasil. Sério mesmo, Diamond?!), A Favorita, Vice, Capitã MarvelNós, Dumbo, Poderia Me Perdoar?, X-Men: Fênix Negra, Novos Mutantes, A Sombra do Pai, Vingadores: Ultimato, Homem-Aranha: Longe de Casa, Toy Story 4, Ad Astra, Little Women, Where’d You Go Bernadette, Queen & Slim, A Beautiful Day in the Neighborhood, Jojo Rabbit, The Woman in the Window, O Menino que Queria Ser Rei, Once Upon a Time in Hollywood, Pale Blue Dot, The Last Thing He Wanted, The Irishman e Star Wars: Episódio IX me dão comichão só de pensar que chegam aos cinemas no decorrer dos próximos meses.

Um apelo para 2019

Que a conversa sobre cinema vá além dos vereditos taxativos de tomates podres ou frescos no Rotten Tomatoes e pontuação no IMDb. Cinema vai muito além disso — e, felizmente, pouca coisa cabe em um tuíte.

Leia também

Ao som do disco Boys for Pele da Tori Amos no Spotify, eu me despeço de você. Feliz ano-novo! Que 2019 pegue mais leve com a gente e nos traga experiências cinematográficas inesquecíveis também.