Para o bem ou para o mal, ‘De Canção em Canção’ é o típico filme de Terrence Malick

Caio Delcolli
Jul 20, 2017 · 4 min read
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Rooney Mara, Michael Fassbender e Ryan Gosling não conseguem fazer o longa levantar voo (Van Redin/Broad Green)

O cineasta Terrence Malick, 73, tem uma carreira respeitável. Nos anos 1970, ele fez dois filmes importantes, Cinzas no Paraíso (1978) e Terra de Ninguém (1973). Ambos ajudaram a redefinir o cinema dos Estados Unidos naquela década em que se descobria ouro em meio à lama mais profunda de personagens e histórias. Quase quatro décadas depois — e com o aclamado Além da Linha Vermelha lançado em 1998 — de participar desse movimento ao lado de Francis Ford Coppola e Martin Scorsese, Malick lançou A Árvore da Vida (2011). Belíssima, a obra é uma espécie de ensaio sobre perda, família e amor, construída com ousado experimentalismo cinematográfico. Neste filme, a câmera do diretor flutua como uma pena pelos sets e locações; é uma solução poética para ele mostrar o quanto se importa com as experiências de transcendência filosófica de seus personagens. Técnicas narrativas usuais foram descartadas e, com isso, A Árvore da Vida pode ser para muitos um filme chato e ilógico. A ousadia rendeu ao diretor a Palma de Ouro no Festival de Cannes e uma indicação ao Oscar — aparentemente, tudo ou quase tudo deu certo para o longa.

Malick decidiu repetir o estilo em seus filmes seguintes — Cavaleiro de Copas (2015) e Amor Pleno (2012) — , mas sem sucesso. Depois de A Árvore da Vida, crítica e público não os receberam com o mesmo entusiasmo de antes. Meu palpite: o estilo do diretor ficou cansativo. Por mais que sua ousadia seja louvável, parece que Malick tem feito filmes apenas para si mesmo. É o que fica evidente em De Canção em Canção (Song to Song, 2017).

Não acredito que cineastas sejam obrigados a filmar tendo em mente o que espectadores podem querer ver. É impossível saber isso precisamente e, além do mais, as mentes por trás da obra sempre devem ter liberdade criativa. No entanto, isso não muda o fato de que o resultado pode ser um filme pouco comunicativo e muito autorreferente. Uma história ilhada em si mesma, digamos assim.

De Canção em Canção sofre desse mal. O longa conta a história — se é que faz sentido dizer assim— de Faye (Rooney Mara), BV (Ryan Gosling) e Cook (Michael Fassbender). Eles são, respectivamente, uma aspirante a musicista, um músico em busca de se despontar e um influente produtor musical. Tudo acontece em Austin, Texas.

Natalie Portman é Rhonda —atriz de mais para papel de menos (Van Redin/Broad Green)

Quando a garçonete Rhonda (Natalie Portman) se envolve com Cook e BV começa a namorar com Amanda (Cate Blanchett), estão formados os triângulos amorosos — alimentados pelos personagens com imaturidade, carência e narcisismo.

BV e Faye se amam, mas ela tem uma história a ser resolvida com o desequilibrado Cook. Cook quer ficar com Faye e briga com BV por causa disso, de modo que a parceria profissional de ambos vai para as cucuias. BV e Faye ficam juntos, Cook se afasta de ambos e fica com Rhonda. BV e Faye se desentendem e BV engata um namoro com Amanda. Faye volta a se encontrar com Cook. Não, não estou falando sobre o enredo de uma novela caricata e antiga.

Embora o elenco, de forma geral, esteja em boas atuações — à exceção de Gosling, que mais uma vez é apenas… Ryan Gosling — , as narrações em voice over dos personagens tem várias redundâncias. Ajuda menos ainda o fato de eles terem arcos tão pouco definidos e aprofundados; chega a ser frustrante ver atrizes do porte de Blanchett e Portman em papéis tão rasos. O já mencionado estilo de Malick somado a isso rende um filme chato, que anda em círculos por mais de duas horas.

Há boas participações de Holly Hunter e Bérénice Marlohe, enquanto Val Kilmer faz uma ponta sem nexo algum. Os músicos Patti Smith, Iggy Pop e Lykke Li também dão as caras e a fotografia é do ótimo Emmanuel Lubezki (Birdman, Gravidade) — mas nada que ajude a arrumar a bagunça.

PONTO POSITIVO Boas atuações
PONTO NEGATIVO O único convidado para a festa é o próprio anfitrião
AVALIAÇÃO Fraco

Estreia nesta quinta-feira (20). Classificação indicativa: 16 anos. Duração: 129 minutos. País: Estados Unidos. Distribuição: Supo Mungam.

(Esta resenha também foi publicada no HuffPost Brasil.)

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