‘The Handmaid’s Tale’: as contradições de Gilead na 2ª temporada

Elisabeth Moss como June: filha da protagonista finalmente nasce — e com uma pergunta que desestabiliza ainda mais a nação de Gilead (George Kraychyk/Hulu)

(Esta resenha contém spoilers.)

June (Elisabeth Moss, sempre ótima) é a protagonista de The Handmaid’s Tale, série do Hulu baseada no romance homônimo — e excelente — de Margaret Atwood. Entretanto, as personagens cujos arcos parecem sintetizar com mais precisão os objetivos da segunda temporada são a esposa do comandante Fred Waterford, Serena Joy (Yvonne Strahovski), e Emily (Alexis Bledel). O resultado disso é uma nova leva de episódios que se aprofundam na ditadura teocrática-militar que é Gilead, país um dia chamado de Estados Unidos. No processo, são expostas suas fissuras — e oportunidades para quem quer derrubar o sistema.

Serena está acima de aias como June e Emily na hierarquia social de Gilead; ela é uma das criadoras e fundadoras da nação e também é esposa de um comandante de alto escalão. No entanto, isso não a impede de se cortar com a faca de dois gumes que Gilead tem se tornado com o passar do tempo. Serena ainda é uma mulher controlada por algo maior que ela.

Após June finalmente dar à luz a bebê que teve com Nick (Max Minghella), motorista e braço-direito de Waterford (Joseph Fiennes) — para o comandante tornar-se pai mesmo que sob condição de uma mentira — , a aia coloca Serena diante de uma questão: como a menina pode crescer em um lugar tão violento, autoritário e bitolado? O mesmo governo que assassina Eden (Sydney Sweeney), uma garota de 15 anos que traiu o esposo, Nick, ao seguir o ímpeto de uma paixonite adolescente? Eden já havia sido literalmente dada ao motorista pelos comandantes, o que por si só já é bastante perturbador. June descobre que a garota mantinha uma Bíblia repleta de anotações de estudo, mas mulheres não leem em Gilead. Então como a bebê Nichole — chamada por June de Holly — poderá entender a “palavra de Deus” se ela sequer será ensinada a ler?

Isso atinge Serena como uma facada. Antes de os Estados Unidos sofrerem o golpe de estado pelos Filhos de Jacó, a organização que deu origem a Gilead, a personagem era uma excelente comunicadora: uma porta-voz de fala incisiva e cativante, com boa escrita e forte presença em quaisquer ambientes em que estivesse. Ser isso tudo foi tirado dela uma vez no título de “esposa de comandante”. Serena mente quando diz adorar fazer tricô, comanda o casarão dos Waterford como uma governanta frígida vinda de um romance gótico e o marido parece não se importar se ela está ou não por perto.

Yvonne Strahovski como Serena Joy é um dos pontos altos do segundo ano de ‘The Handmaid’s Tale’ (Divulgação/Hulu)

Serena se reúne com outras esposas para discutir a questão e muitas aceitam se posicionar diante da cúpula masculina e branca que rege Gilead para pedir a alfabetização das mulheres. Eles se surpreendem. Serena vai longe demais: saca do bolso a Bíblia de Eden e lê um trecho para embasar sua demanda. As esposas abandonam o local. Waterford se constrange com a atitude da esposa; nas horas seguintes ela é punida com mutilação. Serena volta para casa sem um dedo mindinho — e sem o que lhe restava de estabilidade emocional também. Poucos episódios antes, em uma viagem diplomática ao Canadá para servir de companhia ao marido, um representante do resquício que há dos EUA no Havaí lhe oferece a chance de abandonar Gilead. Serena recusa a proposta; ela parece querer, mas o medo fala mais alto.

A nação faz isso com as mulheres: invade seus corpos, invade suas mentes. Serena, com o reforço de uma estupenda performance de Strahovski — merecidamente indicada ao Emmy — , escolhe deixar June fugir com a bebê para um lugar em que seja possível imaginar um futuro decente. É um dos momentos mais comoventes da série até aqui.

Emily, antes chamada Ofglen, vive algo semelhante. Na primeira temporada, o clitóris dela é decepado a mando de Tia Lydia (Ann Dowd, ainda uma ótima escolha para o papel) após ser pega em um romance com uma Martha. Ao voltar ao cotidiano de aia em Gilead, ela se rebela ao atropelar um guarda, estraçalhando-lhe a cabeça; em seguida, é enviada às colônias, uma área inóspita em que mulheres devem arar o solo repleto de substâncias tóxicas que corroem a saúde e o corpo de todas elas.

Tudo muda após uma explosão. A nova Ofglen manda pelos ares um novo centro de treinamento de aias, matando dezenas de homens do alto escalão político de Gilead e algumas outras aias. Emily retorna mais indignada do que nunca, dando claros sinais de que desenvolveu transtorno de estresse pós-traumático.

Ao ser entregue a um novo comandante, o excêntrico economista Joseph Lawrence (Bradley Whitford), Emily parece estar à beira de se matar ou matar outra pessoa. Ela faz este último, esfaqueando Tia Lydia na escadaria da casa de Lawrence, em uma virada vertiginosa, de tão inesperada. Alguns anos dentro de uma ditadura militar faz sua esposa, Sylvia (Clea DuVall), e o filho de ambas tornarem-se lembranças de uma distante vida passada. Alexis Bledel não precisa dizer uma palavra para mostrar o quão arrasada a personagem está por dentro.

O comandante imediatamente lhe enfia num carro e sai em disparada pelas ruas de Gilead; ele apavora Emily ao tocar “Walking on Broken Glass”, de Annie Lennox, no volume máximo do rádio — só The Handmaid’s Tale para fazer esta linda música soar assustadora e enervante — , enquanto ela chora.

De repente, uma surpresa: Lawrence a leva ao encontro de June, em um iluminado fim de túnel, para ambas escaparem por uma rota de fuga traçada pela resistência. June entrega o bebê a Emily — ela decide botar fogo na casa de dentro para fora, como sugere o uso de “Burning Down the House”, dos Talking Heads, nos créditos finais.

Sem mulheres, não há Gilead. Para a casa pegar fogo, basta cada uma ter um fósforo aceso em mão. As faíscas estão no olhar de June e encerram este ótimo segundo ano do seriado.

A segunda temporada de The Handmaid’s Tale foi disponibilizada pelo Hulu entre abril e julho deste ano, em 13 episódios de aproximadamente uma hora. Não há previsão de estreia no Brasil.

Indicações ao Emmy:

Série de drama
Direção em série de drama (Kari Skogland, por “After”)
Roteiro em série de drama (Bruce Miller, por “June”)
Atriz em série de drama (Moss)
Atriz coadjuvante em série de drama (Strahovski)
Atriz coadjuvante em série de drama (Dowd)
Atriz coadjuvante em série de drama (Bledel)
Ator coadjuvante em série de drama (Fiennes)
Atriz convidada em série de drama (Samira Wiley)
Atriz convidada em série de drama (Cherry Jones)
Atriz convidada em série de drama (Kelly Jenrette)
Casting em série de drama
Fotografia em série single-camera (uma hora)
Figurino em série de fantasia/ficção científica
Maquiagem em série single-camera (não protético)
Design de produção em programa narrativo (uma hora ou mais)
Montagem em série de drama single-camera
Mixagem de som em série de comédia ou drama
Efeitos visuais em papel coadjuvante