Cegueira seletiva

Caio De Paula Silva
Jul 8 · 4 min read
visionEkaterina Belinskaya (CC)

Imagine um mundo onde existam seres como nós, entretanto incapazes de enxergar individualmente. Seres que somente ao terem contato com outro alguém, ao darem as mãos, possam passar a ver. Através dos olhos um do outro. Assim mesmo, nunca capaz de enxergar só. Imagine ser um deles.


Eu tenho de dizer, sendo um deles neste outro mundo, com certeza eu iria gostar de poder ter com quem andar de mãos dadas por ai. Sério, pense…

Estar acompanhado ou podemos dizer, estar numa relação, talvez significasse muito mais o que entendemos por confiança, sabe? Quero dizer, talvez confiança fosse para ser aprendida assim mesmo, através de algo capaz de ser entendido somente a dois, codependente, onde ambos estão submetidos às exatas mesmas condições e sem poder contar com o outro: você a perde completamente. E afinal, você não tapeia aquele que te oferece o que você não pode conseguir sozinho, certo?

Mas vejamos, de certa forma, não é exatamente isso o que aprendemos no nosso mundo? Ora, suponha uma relação aqui. O que você esperaria de seu companheiro não é que ele(a) enxergasse as coisas como você? Digo, que vocês concordassem igualmente sobre os termos que devem ser seguidos para que você estejam juntos e que entendessem que um oferece ao outro a possibilidade de algo único, que não se faz só. Sabendo que a quebra disto resultaria em um mal comum a ambos. O término. O desamor. A “cegueira”. Não é exatamente isso o que aprendemos?

Agora procure pensar consigo, quantos conceitos significados em nosso mundo poderiam ser afetados por essa não tão diferente realidade? O quanto nossa compreensão das coisas independem aos nossos sentidos? O próprio ato de cruzar as mãos com outra pessoa por exemplo, não é pra nós daqui um ato reservado somente à aqueles com quem queremos nos relacionar? Não é engraçado que, diante de pequenas mudanças de natureza, os nossos signos e princípios se tornem ainda mais claros ou disformes? Pense.


Ainda nesta discussão, voltemos para , onde a escuridão faz amizade aos solitários. E pensemos neles mesmos. Estar só talvez também tivesse todo um outro maior sentido. Talvez fosse um grande ato de resistência ou então quem sabe duas vezes o significado do que compreendemos por dor e solidão. Por um lado, se desfazer de outra pessoa, um companheiro, parece algo menos doloroso, uma vez que você não se lembrará da sua imagem, mas por outro, deixar de enxergar repentinamente parece bastante assustador.


Uma vez que você tenha me compreendido, levanto então uma grande questão: sendo essa a realidade, como decidir de quem ter os olhos emprestados? Pois se o que você vê existe a partir dos olhos do outro, então não seria tarefa muito fácil ficar olhando para ele(a) e reconhece-lo(a). Você veria a si mesmo na maior parte do tempo em que pudesse enxergar. Entende? Então…

Cegueira: visão

Se você prestou alguma atenção nos sinais, então você entendeu o que existe entrelinhas para o que descrevemos como enxergar. E por isso, talvez agora possa me responder, como então nós construímos as nossas relações?

Se você tiver boas respostas, aqui vão algumas outras boas perguntas: o que acontece com essa tão trabalhosa construção de confiança quando um de nós desvencilhamos nossas mãos e nos afastamos? Nós necessariamente nos tornamos incapazes de reconhecer o outro assim tão de repente? O que nos faz especiais para outras pessoas é o quê podemos fazer elas enxergarem? É o processo de descobrir isso com o outro? Enxergar vai mesmo se tornando menos interessante cada vez que o experienciamos e voltamos a escuridão? Do que seriamos capazes? seriamos capazes de transar observando somente a imagem de nossos próprios corpos? O quão louco seria ter um irmão gêmeo? E se as pessoas quisessem escravizar umas as outras para ter sempre um par de olhos a sua disposição? Isso aconteceria? Afinal de contas, o amor é cego? E se você encontrasse alguém que é realmente cego? Quem de vocês enxergaria algo quando estivessem juntos? E por ultimo,

Se pudêssemos livrar todos os seres de algum dos seus sentidos, como por exemplo a visão, isso seria uma dádiva ou uma maldição?

Thanks to Rodrigo Goldacker

Caio De Paula Silva

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Fui tudo o que poderia e nunca serei mais.

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