O banho de sangue do novo ano

Quando muitos já não aguentavam mais 2016 por ser um ano marcado pela morte de inúmeros famosos, eis que surge o 2017 brasileiro, o ano das chacinas. Talvez já esteja na hora de mudar as cores da nossa bandeira.

2017 mal começou e as nossas mazelas continuam as mesmas. Pouco mais de uma dezena de dias e já temos a íncrível média de, aproximadamente, um episódio de mortes em massa a cada três dias. (1)

Simplificando o absurdo de uma forma que o povo tupiniquim entende melhor, podemos dizer que, em 10 dias do novo ano, o brasileiro viu mais chacinas do que gols do Neymar em partidas disputadas desde novembro até hoje (13/01).

Será que o atacante do Barcelona perdeu o seu talento ou tem gente demais morrendo no Brasil? Nem me darei ao trabalho de responder.

Isso tudo sem considerar a nossa Polícia Militar na equação. Não podemos nos esquecer que essa distinta organização já se mostrou muito capaz de aumentar a média de massacres com uma simples passadinha num morro qualquer. Algo que acontece, me arrisco a dizer, diariamente nesse país tão territorialmente extenso. Para melhorar ainda mais a situação, os homens da lei também morrem rotineiramente no processo e ajudam a engordar as estatísticas.

Falando em números, aliás, pesquisas recentes indicam que a cada hora 5 pessoas morrem por disparo de arma de fogo no Brasil. (2)

Expondo de uma forma mais palpável, como sou lento para escrever, diría que enquanto eu fazia este texto, mais quatro lugares foram ocupados em cemitérios Brasil afora.

Dado extremamente preocupante e categoricamente ignorado por muitos.

Não é novidade pra ninguém que existe até candidato à presidência aparentemente achando pouco e querendo revogar o estatuto do desarmamento. Realmente, colocar mais armas na mão dessa população que quase não mata parece uma ideia genial.

Se tudo der certo, acredito que em 2019 deve virar direito básico do cidadão:

"Todos têm direito à vida, à liberdade, à propriedade privada e ao 38."

Aguardem, logo nas constituições mais próximas.

Perdemos o controle de tal forma, que agora é comum comemorar públicamente morte de "vagabundo" na web.

Pois é. Parece que a #MaisAmorPorFavor não tem funcionado muito bem. Que surpresa.

Mas, que fique claro, nada contra a tag (até tenho amigos que usam). A ideia aqui não é implicar com esse tipo de coisa. Até porque, não é como se os textões estivessem resolvendo muita coisa...

Deixando as ironias um pouco de lado, devemos lembrar que enquanto alguns poucos, patrocinados pelo dinheiro público, tomam banho de Nutella e Haagen Dazs em jatinhos particulares, a grande maioria vive as chacinas diárias da nação verde e amarela. Cores estas, que já não nos representam muito bem.

Nossa bandeira, na realidade, deveria ser vermelha.

Não, eu não sou petista. A mudança de cor da bandeira nacional é apenas uma simples reflexão. Se o verde representa as florestas e o amarelo representa as nossas riquezas, não é exagero dizer que não temos mais nem árvores e nem ouro o suficiente pra sustentar essa simbologia antiga. Por outro lado, sangue derramado nós temos de sobra para justificar um lábaro majoritariamente rubro.

A verdade é que quase tudo por aqui, há algum tempo, se resolve na bala, no grito ou por meio de uma votação de madrugada na câmara dos deputados.

E eu sinceramente não vejo nenhuma perspectiva de melhora para o nosso país enquanto essa trinca de "soluções" não mudar. Até lá, todos os dias serão como uma sangrenta sexta-feira 13 no melhor estilo hollywoodiano.

Links:

(1.1) http://brasil.elpais.com/brasil/2017/01/02/politica/1483358892_477027.amp.html

(1.2) m.folha.uol.com.br/amp/cotidiano/2017/01/1847511-33-presos-sao-mortos-em-penitenciaria-de-roraima-diz-secretaria.shtml

(1.3) http://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2017/01/familia-e-morta-em-chacina-durante-festa-de-reveillon-em-campinas.html

(2) http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2016/08/cada-hora-cinco-pessoas-sao-mortas-por-armas-de-fogo-no-brasil.html