Nunca comemorei tão pouco um título do meu time

O Corinthians foi campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2017 com todos os méritos. Venceu os nove jogos que disputou. Marcou 30 gols, o melhor ataque. Sofreu sete, nada mal, embora atrás, por exemplo, das defesas de Ponte Preta, Cruzeiro e Ituano (eliminados nas oitavas), independente de eles terem jogado menos — o timão chegou aquela fase já com mais gols sofridos — e do próprio Paulista, o seu adversário na final não fosse o rolo com o atleta irregular, cuja meta havia sido balançada apenas duas vezes. A despeito do equilíbrio entre os setores, o fiel pendeu mesmo para o ataque. É o décimo título do clube, o maior campeão do torneio.

Melhor que isso foi revelar Fabrício Oya, Pedrinho, Carlinhos e Mantuan, talentos que precisam ser aproveitados no time principal, não só por necessidade, mas por vontade da torcida. Para quem desmanchou dois elencos a fim de honrar suas dívidas — a principal delas com o contribuinte — não cabe sonhar com jogadores superestimados. Não agora. É hora de ter pé no chão. A solução está em casa, pelo menos foi esta a impressão que a garotada deixou no decorrer da competição, assim como já havia deixado no ano passado. Tudo isso deveria ser motivo de festa para um maloqueiro sofredor, não fosse a intromissão de um simpático fantasma de 97 anos sobre o qual pouco se ouvira falar.

Quando três ônibus de Ribeirão Preto estacionaram na semana passada em frente a um dos portões do estádio José Liberatti, em Osasco, onde Batatais e Botafogo se enfrentariam pelas quartas de final, e deles desceram seis dúzias de entusiastas, em grande parte parentes dos atletas, mas também dirigentes, puxa-sacos e peregrinos que não tinham nada melhor para fazer numa tarde chuvosa de quarta-feira do que viajar 351 Km e assistir a uma partida de graça do segundo time do coração, bem, todos ali sabiam quem era o azarão.

Naquela altura do campeonato, o Batatais já havia feito história. Nas duas participações anteriores na Copinha fora eliminado na fase de grupos. Desta vez, porém, não apenas se classificara invicto, como deixara para trás equipes tradicionais no mata-mata: Sport, na terceira fase, e Ponte Petra, nas oitavas. O feito, é claro, mexeu com a cidade homônima, cuja prefeitura, alguns já espalhavam, havia mandado reservar um caminhão de bombeiros para o desfile dos heróis anônimos, independente do que ainda estava por vir. Eles, todavia, por alguma razão acreditavam que ainda iriam aprontar.

E naquele jogo o Fogão foi melhor, é bom que se diga, mas não é que o alvirrubro conseguiu segurar a pressão e levar o duelo para os pênaltis! Deve ter sido a maldição atrás do gol de Gérson, justamente onde circulavam os fantasmas, porque a bola não entrava de jeito algum. Pois é. Aí, nas cobranças, depois de ficar dois gols em desvantagem, brilhou a estrela do arquerio. Ele salvou duas eliminações e espalmou a batida derradeira de Íon para colocar o Batatais entre os quatro melhores times juniores do país. Virou herói para a imprensa, porque para quem o acompanha, ele já era há um bom tempo. O curioso é que o goleiro Diego do Botafogo, que também segurou três pênaltis, não pôde ser glorificado, já que a sua equipe não venceu.

Gérson perdeu a irmã Emanuelle em função de um acidente de carro, fato bastante explorado pela imprensa. Por causa dela, a irmã, parou e voltou a jogar. A narrativa do trauma à superação todo mundo já conhece. O carisma do garoto não aparece só na frente das câmeras. O abraço nos torcedores, um a um, demonstra um pouco do reconhecimento a quem não poupou esforços para estar ali. Agora que a Copinha acabou, o seu futuro é incerto. Daqui a pouco muitos o esquecerão, até porque ele não foi campeão. Mas não os oitenta e poucos fãs que naquele dia o viram fazer o impossível. Esses o recordarão. E é sobre um deles que eu quero falar.

Walmiro Pedroza, 46, é um baiano louco pelo Corinthians. Ele não sabe explicar de onde vem a paixão, porque ninguém da sua família o influenciou. O seu pai nunca gostou de futebol e a mãe morreu de cólera quando tinha 13 anos. Foi criado pelos avós, que consideravam o jogo distração barata. Quando se mudou para São Paulo no final dos anos 80, já torcia para o clube mesmo sem saber o nome dos jogadores ou qual havia sido o último grande título conquistado. Era a torcida que o encantava. Decorou os cantos das organizadas já na primeira visita ao Pacaembu. Aproximou-se delas jurando ser o Corinthians o seu amor. Não convenceu. Para provar que não mentia, tatuou na batata da perna esquerda o segundo distintivo do clube — decisão que hoje ele classifica como “intempestiva”. Seria aceito sob uma condição: matar um porco. Desistiu.

Desde que assumira o vegetarianismo por pena — do gosto sempre desfrutou — compensou o sacrifício na cachaça. Bebia três vezes por semana, fora aos domingos, quando começava cedo e só interrompia para se preparar para a empreitada. Sempre de camisa desbotada, bermuda de malha e boné falsificado, saía de casa com duas latas nas mãos, escapulário no pescoço e identidade, maço de cigarro de palha, apito, cartão telefônico e trinta prata no bolso. Não levava nada além disso. Pegava um ônibus até a estação de metrô mais próxima, Artur Alvim, e descia quinze estações depois, em Marechal Deodoro, de onde seguia a pé até o estádio. No caminho se enturmava com outros torcedores e ao lado deles torcia com fervor naquele jogo, mas raramente mantinha contato depois.

A simpatia pelo Batatais começou quando o tio, o seu Brito, que trabalhava na colheita de cana no nordeste do estado, o convidou para assistir a uma partida épica no Doutor Oswaldo Scacena, a “Ghost Arena”, válida por algum torneio regional. Isso foi há pelo menos 25 anos. Naquele dia, o alvirrubro reagiu de forma inesperada e conseguiu empatar o jogo contra o Comercial após estar quatro gols em desvantagem. “Nunca vi nada igual. O time não era bom, o meu tio cansava de repetir, mas os caras começaram a jogar de uma hora para outra. Tenho certeza que foi obra do além”, relembra Walmiro.

Aos 47, porém, o Comercial marcou o quinto e sacramentou a vitória. Os jogadores do Batatais deixaram o campo aplaudidos de pé, algo tão raro que nem os próprios podiam acreditar no que fizeram. Alguns deles foram dispensados de honrar o aluguel por dois meses. A economia foi devidamente convertida num afazer prático — a pinga, o que sem dúvida agradou aos principais comerciantes da cidade, os donos de botequim, mas também aos frequentadores, entre eles o seu Brito, contemplados pela súbita dose de generosidade que ele jamais poderia imaginar que viria de uma dupla de atacantes.

Nas outras sete vezes em que esteve na Ghost Arena, Walmiro só viu o Batatais levar porrada. Parece que a menos humilhante foi um 1 x 4. Foram anos bem distintos aos da década de 30, quando o futebol acabara de se profissionalizar no país e o alvirrubro amedrontava os rivais da região com uma sequência espantosa que deixou até os padres incrédulos. Dos 100 confrontos entre 1934 e 1937, só perdeu três. Assustados, os adversários evitavam encará-lo porque, ao que parece, uma assombração o impedia de perder. Nascia, assim, a mística do Fantasma da Mogiana, em alusão à Estrada de Ferro da Mogiana, que nos séculos XIX e XX ligava Campinas ao Triângulo Mineiro, cortando o nordeste paulista.

Ninguém conseguia dissuadir Walmiro de que ser pé-frio não tinha ligação com os malogros da equipe. Desta forma, culpava-se pelas derrotas por não ter feito algo que julgava impactar na sorte do Batatais. Embora sua religião não aprovasse, nunca abandonou a superstição. Aliás, nunca conseguiu dissociá-las. A convicção de que ações aparentemente não correlatas tinham tudo a ver uma com a outra era tão forte que ele não se importava de ser tachado de louco. Certa vez, atribuiu um revés ao fato de ter olhado debaixo da cama quatro, e não cinco vezes, durante o segundo tempo. No jogo seguinte, olhou cinco, e mesmo assim o time perdeu. Em outra ocasião, dividiu o ritual — três na primeira etapa e três na segunda — e acrescentou uma pequena prece a cada descida, mas nem assim a equipe engrenava. Convenceu-se, portanto, de que para afastar o azar teria de fazer uma promessa impagável. Ele jurou rifar os prazeres do mundo em nome da vida eclesiástica, o que com o tempo se viu incapaz de cumprir. Com receio das retaliações divinas, ratificou-a com metáforas sutis até o dia em que se deu conta de que elas não passariam despercebidas pelo chefe. Implorou de joelhos, então, por um novo trato: estava disposto a assumir a carestia eterna, como todo bom fiel, em troca de se livrar do celibato. Ele nunca foi punido, o que, na sua visão, era um indício de que o acordo havia sido aceito, embora o Batatais tenha continuado por muito tempo sem vencer.

Às vezes, Walmiro se lembrava da primeira experiência no estádio com o tio, quando mesmo sem saber havia iniciado a relação que condenaria o seu coração ao sofrimento, mas da qual ele também não se arrependeria, afinal, esta coisa de torcer, ele conta, diz tanto respeito à euforia quanto à dor, até porque condicionar apoio à vitória é chantagem, e não difere muito da extorsão. “A partir do momento que se escolhe um time, todo mundo sabe que ele perderá, porque ninguém vence tudo. A diferença é que alguns vencem muito; outros, pouco. É uma questão de proporção. Assim como o megacampeão precisa ganhar tudo sempre, o que é impossível, e é vilipendiado por não fazê-lo; o pequeno se destaca mesmo sem conquista e é eternizado por isso. Nesta perspectiva, eu prefiro ser pequeno”.

Na capital, Walmiro acompanhava o Batatais através das conversas telefônicas com o tio, mas essas por obra do destino se tornaram cada vez menos recorrentes até serem cessadas no início dos anos 2000. Ele nunca retornou ao interior e jamais escondeu do velho que aquele apego inicial não era mais o mesmo. É duro torcer para um desconhecido em terra de gigante. O time precisa fazer algo excepcional para merecer onze linhas nos jornais. Todo dirigente sabe que o jogador usa o clube de pouca expressão para chegar ao grande. Se pudessem, iriam direto para o Corinthians, Palmeiras e São Paulo, mas antes precisam provar que são bons o bastante para valerem a aposta. E são tão poucos os que conseguem — a maioria começa e termina a carreira sem dar um único autógrafo. A instituição, por sua vez, aceita o seu tamanho. Ela sabe que não pode competir de igual para igual. O seu jogo é outro: contenta-se com uma boa venda. Por isso, geralmente o time de pouca expressão é mencionado quando alguma das suas revelações não decepciona num grande. Foi o caso de Marcelo Batatais, campeão brasileiro com o Cruzeiro em 2003, quase quatro décadas depois que a maior prata da casa da Mogiana, José Guilherme Baldocchi, integrou a primeira academia do Palestra Itália, tricampeã brasileira. Apesar de tudo isso, o pequeno, em condições anormais, pode triunfar. Acontece com mais frequência que o imaginado, e é sempre muito especial.

Após a queda do Corinthians para a segunda divisão em 2007, Walmiro deixou um pouco a loucura de lado para se concentrar no lado prático do dia a dia. No canteiro de obras da 25, onde assentava azulejos das 09 às 18, ouvia calado as provocações dos operários. Valia-se do fato de o Batatais ter sido vice-campeão da quarta divisão do Paulistão 2008 para atenuar o fracasso do seu primeiro time, mas ninguém acreditava que ele pudesse se contentar com tão pouco. Desde então a camisa alvirrubra herdada do tio ficou pendurada na extremidade direita da arara e, embora soubesse que já não lhe servia, preferiu esquecê-la lá até o dia em que aparecesse uma serventia.

Depois da vitória nos pênaltis sobre a Ponte Petra nas oitavas de final, Walmiro teve a certeza de que estava na hora de ressuscitar o fantasma. Ele tirou a camisa da arara e buscou o sobrinho Davi na escola. Mandaram dois cachorros-quentes cada nos arredores do José Liberatti, experiência que ele não vivenciava há vinte anos, e se misturaram a meia-dúzia de torcedores organizados que havia acabado de desembarcar de um ônibus. Um deles o presenteou com um boné da TUP — torcida unida do fantasma. Ele agradeceu e se sentiu na obrigação de retribuir, mas não foi preciso. “É nóis, irmão. Tamo junto”, disse o torcedor empolgado antes de tirar um maço do bolso. “É de palha?”, perguntou Walmiro. “Não. É cigarrilha. Aceita?”. Ele olhou para o sobrinho, pensou e aceitou. “Não sabia que fumava, tio”, disse Davi. “Não fumo. Hoje é exceção”, respondeu.

A torcida do Botafogo preenchia a maior parte da arquibancada. Com bandeira e cartazes, aguardava sentada a entrada do time no gramado. Enquanto isso, oitenta fantasmas faziam a festa atrás da meta onde o Batatais atacaria no primeiro tempo. No meio deles estavam Walmiro e Davi, ainda muito tímidos, ensaiando um ou outro canto no intuito de entrar no ritmo dos demais. Quando a bola rolou, porém, a animação parou na primeira jogada de perigo do rival e um silêncio tomou conta do setor, interrompido só nas poucas subidas do alvirrubro ao ataque. A apreensão acabou no apito final. A sorte sorriu no cara e coroa. Os pênaltis seriam batidos no gol assombrado.

Walmiro fechou os olhos no chute de Kanu. Se convertesse, um abraço. Dez segundos de agonia se passaram até a bola resvalar no travessão e sair. Ele não viu o desvio de Gérson. Só ouvia a reação da torcida e respirou aliviado. Cerrou os punhos quando Guilherme cobrou no cantinho e pôs o Batatais na frente. E na sexta e decisiva cobrança, desta vez com os olhos bem abertos e os dedos cruzados, testemunhou o milagre do arqueiro. A volta ao passado terminava ali. O presente foi bem melhor.

Davi correu junto à grade e faturou um autógrafo do herói na camisa desbotada. Ele se virou para o tio e disse que daquele momento em diante seria um fantasma. Na manhã seguinte, com a cabeça no lugar, chamou o menino para um bate-papo. Argumentou que alegria como aquela poderia nunca mais se repetir, no que Davi rebateu dizendo não ver problema em torcer para dois times. Mal sabiam eles que oito dias depois o dilema estaria armado.

Obs: É óbvio que a história de Walmiro não me convenceu a deixar de torcer para o meu time. Até porque, esta relação já passou por tantos altos e baixos que não se desfará com dramas alheios Quando Douglas Pote descontou no final, torci para a partida terminar logo, porque se fosse para os pênaltis, tenho certeza, apesar de não poder provar, de que o Batatais venceria. Estava predestinado. Não foi assim, ainda bem. Após a partida, entretanto, pensei no quanto aquela conquista significaria para os poucos desconhecidos no alambrado e na alegria contida de uma cidade que talvez nunca mais tenha esta oportunidade, e confesso que por um instante desejei profundamente que o Corinthians tivesse perdido.

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