O destemperado
Estou cansado de ouvir que Ciro é intempestivo. Virou clichê. Sei que teve aquela declaração machista sobre a Patrícia Pillar. Foi a 16 anos. E ele se desculpou. Várias vezes. Várias. Pedir desculpas faz muita diferença.
Teve a história de receber a turma do Sérgio Moro “na bala”. Retratou-se. Ou melhor: justificou-se com um juridiquês difícil de engolir. Embora não seja crível que a ameaça condicional se concretizasse, a declaração foi infeliz.
Recordo-me também de um vídeo no qual o pedetista destrata uma senhora que reclamava da falta de investimento em saúde no Ceará. Este pegou muito mal, foi o pior de todos.
Esses episódios aconteceram, é verdade. Mas eles deveriam desabonar a carreira política do candidato?
Eu assisti a umas trinta entrevistas do cara. Seu temperamento sempre é objeto de confrontação. Não o vi perder a cabeça uma vez sequer, pelo menos não nas últimas sabatinas. O que vi foi a hipersensibilidade de alguns entrevistadores que julgaram tê-lo tirado do sério.
Nunca o vi insultar um repórter. Vi, sim, várias vezes, o cabra elevar o tom. Não são berros. É um tom mais alto dentro de uma linha de raciocínio. Um modo de se expressar mais eloquente. Qual o problema? Nem todo mundo consegue ser um poço de serenidade o tempo inteiro, mas daí a afirmar que o sujeito é desequilibrado por conta de uma ou outra resposta atravessada é exagero.
Entrevistadores o interrompem e ele rebate, sem ofensas, de uma forma que pode soar impositiva ou convicta — é uma interpretação subjetiva. A democracia abarca discussões acaloradas, dentro de um limite respeitoso, é óbvio. Ao meu juízo, não tenho ouvido dele desrespeitos.
Existem graduações de volume vocal. A agressividade pode estar mais na entonação do que nos decibéis. Respostas irônicas, lacônicas, enérgicas, provocantes ou ríspidas não se confundem com ameaças, injúrias ou ofensas gratuitas. Cobram-no o linguajar fino e a frieza emocional porque é mais difícil refutar seus argumentos.
Não faço campanha para Ciro, mas é deplorável como tentam desaboná-lo pela estética e não pelo conteúdo. Que critiquem seu pensamento econômico: o nacional-desenvolvimentismo, a reindustrialização, a revogação do teto de gastos, redução de isenções fiscais; suas idéias sobre previdência, carga tributária e direitos trabalhistas; sua visão de mundo e sociedade. Tudo bem, política é isso mesmo. É legítimo descrer no Estado. Mas é muito raso reduzir biografias a frases soltas no passado e a estereótipos forçados pela imprensa que imagina ser a delicadeza um imperativo para presidir o país.
Três horas de interrogatório. Basta um retruque porreta e já o pintam como um cachorro louco. Empolga-se, recompõe-se e continua o raciocínio. Existe um raciocínio. Bom ou mau, nele há início, meio e fim. Quem se ofende? Jornalistas podem ser contrariados. Não pertencem a um clã especial de pessoas imune a críticas. Respeito não é docilidade. Há respeito no antagonismo.
Não precisa ser gentil para refutar. Mas é sempre preferível que o faça com idéias, porque apelar para gênio forte parece coisa de quem se preocupa mais com fofoca do que com propostas. Onde estão as falhas no programa de Ciro? Com certeza elas existem. Vamos apontá-las. É o que importa. Ninguém precisa condecorar a elegância. Da minha parte, sempre preferi os desbocados aos bajuladores.
