Transição dos Macs para Apple Silicon. Porque? E porque agora?

Ainda vale a pena comprar Macs com processadores Intel?

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A Apple anunciou na WWDC 2020 que vai fazer mais uma grande transição no Mac: Saem os processadores Intel e entram processadores Apple Silicon. Ou seja, sai x86_64 e entra ARM64. Como sou um usuário efusivo dos produtos da maçã, alguns amigos e colegas me fizeram algumas perguntas sobre o assunto:

O que você acha dessa mudança? É para melhor? Quais os impactos nos Macs do futuro?

Ainda vale a pena comprar Macs com processadores Intel? O preço vai abaixar? Quanto tempo de suporte os Macs com Intel vão ter?

As respostas curtas (TL;DR)

Estou muito entusiasmado, essa mudança será muito positiva para toda a linha de Macs. Os principais impactos nos próximos Macs serão provavelmente: performance muito superior, tempo de bateria muito melhor e a inclusão do FaceID pela primeira vez nos Macs.

Sim, ainda vale muito a pena comprar Macs com Intel, pois o preço não deve abaixar, e o suporte oficial à x86_64 deve ir no mínimo até 2025, talvez até 2030.

As respostas longas

Do ponto de vista do software, vai ser muito interessante. Todo movimento de depreciação de plataforma representa uma oportunidade de repensar as dependências que toda aplicação tem. As bibliotecas que adicionarem suporte multiplataforma mais cedo, vão ganhar mais usuários, e as mais antigas e com pior manutenção vão acabar morrendo. Suportar duas plataformas em um aplicativo não deve ser algo muito complexo com as ferramentas que temos hoje.

Como a arquitetura é a mesma, os aplicativos devem compartilhar muito código. A Apple já está mostrando que a anatomia de organização dos projetos no Xcode vai funcionar assim: você não vai mais pensar em um aplicativo para iPhone. Você vai pensar em um aplicativo para “Plataformas Apple”, e ele vai ter uma cara no iPhone, outra cara no iPad e uma outra cara no Mac. A interface e a interação vão mudar, mas muita lógica de negócio vai continuar a mesma. Todo o código em um único projeto no Xcode, em um único repositório.

Isso vai fazer com que a quantidade de aplicativos para Mac aumente pois converter um aplicativo de iPad ou iPhone para suportar Mac será uma questão de adaptar somente a interação, com muito código compartilhado.

Para entender as mudanças do ponto de vista do hardware, precisamos dar um passeio na cultura e história da Apple.

A Apple tem uma cultura muito forte de lançar tecnologias assim que estão prontas. Não muito antes, porque a qualidade não estaria boa. Não muito depois, porque a competição já estaria muito próxima. E uma vez a tecnologia pronta, o lançamento acontece o mais rápido possível em toda a linha de produtos. Isso é facilmente comprovado por alguns lançamentos recentes:

Em 2015 a Apple lançou a Taptic Engine, que é uma tecnologia que faz com que alguns controles do iOS vibrem gentilmente de uma forma muito precisa e você possa identificar qual aplicativo está notificando, apenas pelo tipo da vibração. No mesmo ano a Apple lançou o MacBook de 12" com um novo Trackpad que usava a mesma tecnologia Taptic Engine para enganar o seu cérebro quando você clica no trackpad: não havia botão nenhum mas você sente no dedo como se houvesse um clique. Essa mesma tecnologia também foi integrada, no mesmo ano, no Apple Watch, que então pode ter vibrações muito sutis no pulso: um tipo de vibração para notificações de email, outro para mensagens, outro para alarmes, outro para aplicativos de fitness, etc.

Em 2016 a tecnologia True Tone foi lançada no iPad Pro: ela faz com que a calibragem de cores da tela do dispositivo mude em tons de amarelo, azul e branco, de acordo com a cor da luz do ambiente, o que faz com que a leitura de textos na tela seja muito mais natural ao olho humano, que espera que os reflexos nas superfícies sejam da mesma cor da iluminação ambiente. Já no mesmo ano foi lançada também no MacBook Pro. No ano seguinte, 2017, chegou aos iPhones.

Em 2013 a Apple lançou o iPhone 5S e com ele o TouchID. Logo em 2014 chegou ao iPad Air 2 e em todos os outros modelos de iPad após ele. Mas no Mac ele só apareceu em 2016… Porque demorou tanto?

Para o TouchID funcionar de forma segura, foram necessárias mudanças no hardware para acomodar um Secure Enclave embutido no System-on-a-Chip (SoC) do iPhone. Esses chips não estão presentes nos Macs, que usam processadores Intel. Então a Apple teve que desenvolver um outro chip separado, T1 (e depois o T2), para guardar o Secure Enclave direto na placa-mãe, pois não podiam alterar os chips da Intel.

Isso fez com que a tecnologia de autenticação por impressão digital, que estava pronta em 2013, e madura em 2014, fosse incorporada no Mac somente em 2016. A Intel vem atrasando a inovação no Mac desde pelo menos essa época.

Em 2017, continuando o avanço das tecnologias, a Apple lançou o FaceID e esse reconhecimento facial utiliza vários sensores especiais e uma câmera frontal muito boa. Além disso ele depende da Neural Engine, que é uma parte do novo SoC desenvolvido pela Apple, otimizada para operações de Machine Learning.

Logo em 2018 os iPads ganharam FaceID. Mas para os Macs, até hoje (2020), nem sombra da tecnologia, pois o chip da Intel novamente não suporta algo como a Neural Engine. E por isso os Macs de 2020 ainda usam a mesma câmera FaceTime 720p da era jurássica.

Se a Apple já deveria ter abandonado a Intel há muito tempo, porque agora? Vários motivos devem estar envolvidos, claro, mas um dos principais penso que seja a licença da tecnologia Thunderbolt.

A tecnologia Thunderbolt é um grande diferencial competitivo para quem é profissional que trabalha com grandes arquivos, como produtores de áudio, vídeo e modelagem 3D. Foi criado um mercado de nicho de produtos de armazenamento e periféricos que suportam essa tecnologia. Por exemplo, a Thunderbolt 3 permite transmitir 40Gbps em uma única conexão, ou então conectar dois monitores de resolução 4K com o mesmo cabo, o que é incrível. Mas ainda é uma tecnologia proprietária da Intel.

Nenhum iPad e nenhum iPhone tem suporte à Thunderbolt, porque os SoC da Apple não suportam essa tecnologia. Para iniciar a migração dos Macs para ARM, sem prejudicar os usuários Pro que já haviam adquirido periféricos compatíveis com Thunderbolt e estão acostumados à alta taxa de transmissão de dados, a Apple teria que implementar a tecnologia Thunderbolt nos próprios chips, o que não vale a pena porque além de ter de pagar royalties, a tecnologia não se consolidou como padrão de mercado.

Isso faz tanto sentido que em 2018 a Intel parou de cobrar royalties do Thunderbolt, em uma tentativa desesperada de aumentar a adoção da tecnologia, e em 2019 ao ver que não tinha mais como continuar com a situação, permitiu que o protocolo fosse incorporado no padrão aberto USB-4.

Olha que coincidência! Logo agora em 2020 a Apple anuncia a transição para Apple Silicon, pois pode aproveitar as vantagens de performance da tecnologia Thunderbolt incorporando em seus chips, sem pagar royalties pois o padrão USB-4 é aberto e garantindo que todos os próximos periféricos profissionais tenham todo o incentivo para suportar esse novo padrão.

Com os próprios chips, a Apple pode avançar muito o nível de computação nos Macs. Se recentemente o iPad Pro ultrapassou o MacBook Pro em termos de benchmark de performance, e o iPad não tem nenhum ventilador, fica fácil projetar que a Apple consiga no mínimo ganhos de 30% acima da performance do iPad Pro em um MacBook com uma arquitetura térmica mais favorável.

Além da performance, controlar o SoC permite incluir cores de alta eficiência, que consomem muito menos bateria, para tarefas mais básicas, como já existem nos iPhones e iPads. Assim os novos Macs teriam muita duração de bateria nos momentos de baixo uso, mas assim que uma aplicação mais pesada pedisse performance, conseguem entregar.

Na mesma linha podemos projetar o impacto na GPU integrada, que no iPad já é incrível. Arrisco dizer que placas de vídeo dedicadas nos Macs serão somente para os modelos mais high-end, como iMac Pro e Mac Pro. Além disso eles podem incluir a Neural Engine no SoC do Mac para deixar tarefas super complexas, como edição de imagem e vídeo usando Machine Learning, serem efetuadas de forma quase instantânea no Mac, talvez até em tempo real, como já rodam no iPad.

Finalmente, será possível e viável trazer o FaceID ao Mac, além de abrir caminho para que novas tecnologias, que ainda não foram lançadas, possam ser incluídas no Mac ao mesmo tempo que nos outros produtos.

Em relação aos preços, pela minha análise não vão ficar mais baratos. Pelo contrário, os preços dos Macs devem aumentar. Os novos Macs vão vir com muito mais recursos: mais performance, maior tempo de bateria, inclusão do FaceID, etc.

O apelo para fazer upgrade não será porque o Mac antigo não funciona direito e está obsoleto, mas sim porque os novos Macs estão muito melhores. E upgrades assim significam produtos mais caros. É um movimento parecido com o movimento do iPhone X: eles lançaram o iPhone 8 na mesma faixa de preço do 7, e criaram uma nova faixa de preço, mais cara, para o iPhone X.

A Apple anunciou que ainda tem no pipeline novos Macs com processadores Intel, e aposto que vão continuar na faixa de preço atual, sendo que os Macs com Apple Silicon e novos recursos de hardware e software integrados vão criar uma nova faixa de preço premium. Conforme passa o tempo os preços podem abaixar, mas no primeiro momento, aposto que não.

Vamos analisar as transições de arquitetura que a Apple já fez até agora:

Na transição de PowerPC para Intel, que começou em 2005 e foi até 2009, a Apple deu 4 anos de suporte no macOS ao PowerPC depois do lançamento de novos Macs com Intel. Nesta época a quantidade de Macs no mercado era bem menor que hoje em dia.

A Apple lançou o suporte a 64 bits no iOS em 2013 com o iPhone 5S e parou de suportar 32 bits em 2017. Novamente 4 anos de suporte, no iOS, que é uma plataforma muito bem controlada com poucos dispositivos disponíveis.

No Mac, a migração de 32 bits para 64 bits foi bem diferente, levou 10 anos. Essa situação é muito mais parecida com a que vamos viver agora, pois os desenvolvedores podem suportar as duas arquiteturas sem muitos efeitos colaterais.

O tempo exato de suporte de software dos Macs Intel vai depender muito da velocidade que os upgrades forem acontecendo, pois enquanto existirem mais Macs Intel no mercado do que Macs com Apple Silicon, a Apple vai ser praticamente obrigada a dar suporte. O histórico demonstra que o mínimo de tempo de suporte será 4 anos, ou seja, até 2025. Mas o Mac Pro lançado ano passado vem com chip Intel e parece ter sido projetado para durar uma década. Por isso acho que é mais provável que o suporte se estenda até aproximadamente 2030, sendo 10 anos, similar à transição de x86 para x86_64.

Estou muito entusiasmado, essa mudança será muito positiva para toda a linha de Macs. Os principais impactos nos próximos Macs serão provavelmente: performance muito superior, tempo de bateria muito melhor e a inclusão do FaceID pela primeira vez nos Macs.

Sim, ainda vale muito a pena comprar Macs com Intel, pois o preço não deve abaixar, e o suporte oficial à x86_64 deve ir no mínimo até 2025, talvez até 2030.

Written by

Software Craftsman — Engineering Lead @ Mercos

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