Transição dos Macs para Apple Silicon. Porque? E porque agora?

Caio Andrade
Jul 28 · 8 min read

Ainda vale a pena comprar Macs com processadores Intel?

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A Apple anunciou na WWDC 2020 que vai fazer mais uma grande transição no Mac: Saem os processadores Intel e entram processadores Apple Silicon. Ou seja, sai x86_64 e entra ARM64. Como sou um usuário efusivo dos produtos da maçã, alguns amigos e colegas me fizeram algumas perguntas sobre o assunto:

O que você acha dessa mudança? É para melhor? Quais os impactos nos Macs do futuro?

Ainda vale a pena comprar Macs com processadores Intel? O preço vai abaixar? Quanto tempo de suporte os Macs com Intel vão ter?

As respostas curtas (TL;DR)

Sim, ainda vale muito a pena comprar Macs com Intel, pois o preço não deve abaixar, e o suporte oficial à x86_64 deve ir no mínimo até 2025, talvez até 2030.

As respostas longas

O que muda para quem desenvolve aplicativos?

Como a arquitetura é a mesma, os aplicativos devem compartilhar muito código. A Apple já está mostrando que a anatomia de organização dos projetos no Xcode vai funcionar assim: você não vai mais pensar em um aplicativo para iPhone. Você vai pensar em um aplicativo para “Plataformas Apple”, e ele vai ter uma cara no iPhone, outra cara no iPad e uma outra cara no Mac. A interface e a interação vão mudar, mas muita lógica de negócio vai continuar a mesma. Todo o código em um único projeto no Xcode, em um único repositório.

Isso vai fazer com que a quantidade de aplicativos para Mac aumente pois converter um aplicativo de iPad ou iPhone para suportar Mac será uma questão de adaptar somente a interação, com muito código compartilhado.

A mudança do ponto de vista do hardware

A Apple tem uma cultura muito forte de lançar tecnologias assim que estão prontas. Não muito antes, porque a qualidade não estaria boa. Não muito depois, porque a competição já estaria muito próxima. E uma vez a tecnologia pronta, o lançamento acontece o mais rápido possível em toda a linha de produtos. Isso é facilmente comprovado por alguns lançamentos recentes:

Taptic Engine

True Tone

Mas com o TouchID foi diferente

Para o TouchID funcionar de forma segura, foram necessárias mudanças no hardware para acomodar um Secure Enclave embutido no System-on-a-Chip (SoC) do iPhone. Esses chips não estão presentes nos Macs, que usam processadores Intel. Então a Apple teve que desenvolver um outro chip separado, T1 (e depois o T2), para guardar o Secure Enclave direto na placa-mãe, pois não podiam alterar os chips da Intel.

Isso fez com que a tecnologia de autenticação por impressão digital, que estava pronta em 2013, e madura em 2014, fosse incorporada no Mac somente em 2016. A Intel vem atrasando a inovação no Mac desde pelo menos essa época.

Com o FaceID é a mesma novela

Logo em 2018 os iPads ganharam FaceID. Mas para os Macs, até hoje (2020), nem sombra da tecnologia, pois o chip da Intel novamente não suporta algo como a Neural Engine. E por isso os Macs de 2020 ainda usam a mesma câmera FaceTime 720p da era jurássica.

Intel já vai tarde… Mas porque agora?

A tecnologia Thunderbolt é um grande diferencial competitivo para quem é profissional que trabalha com grandes arquivos, como produtores de áudio, vídeo e modelagem 3D. Foi criado um mercado de nicho de produtos de armazenamento e periféricos que suportam essa tecnologia. Por exemplo, a Thunderbolt 3 permite transmitir 40Gbps em uma única conexão, ou então conectar dois monitores de resolução 4K com o mesmo cabo, o que é incrível. Mas ainda é uma tecnologia proprietária da Intel.

Nenhum iPad e nenhum iPhone tem suporte à Thunderbolt, porque os SoC da Apple não suportam essa tecnologia. Para iniciar a migração dos Macs para ARM, sem prejudicar os usuários Pro que já haviam adquirido periféricos compatíveis com Thunderbolt e estão acostumados à alta taxa de transmissão de dados, a Apple teria que implementar a tecnologia Thunderbolt nos próprios chips, o que não vale a pena porque além de ter de pagar royalties, a tecnologia não se consolidou como padrão de mercado.

Isso faz tanto sentido que em 2018 a Intel parou de cobrar royalties do Thunderbolt, em uma tentativa desesperada de aumentar a adoção da tecnologia, e em 2019 ao ver que não tinha mais como continuar com a situação, permitiu que o protocolo fosse incorporado no padrão aberto USB-4.

Olha que coincidência! Logo agora em 2020 a Apple anuncia a transição para Apple Silicon, pois pode aproveitar as vantagens de performance da tecnologia Thunderbolt incorporando em seus chips, sem pagar royalties pois o padrão USB-4 é aberto e garantindo que todos os próximos periféricos profissionais tenham todo o incentivo para suportar esse novo padrão.

As possibilidades abertas

Além da performance, controlar o SoC permite incluir cores de alta eficiência, que consomem muito menos bateria, para tarefas mais básicas, como já existem nos iPhones e iPads. Assim os novos Macs teriam muita duração de bateria nos momentos de baixo uso, mas assim que uma aplicação mais pesada pedisse performance, conseguem entregar.

Na mesma linha podemos projetar o impacto na GPU integrada, que no iPad já é incrível. Arrisco dizer que placas de vídeo dedicadas nos Macs serão somente para os modelos mais high-end, como iMac Pro e Mac Pro. Além disso eles podem incluir a Neural Engine no SoC do Mac para deixar tarefas super complexas, como edição de imagem e vídeo usando Machine Learning, serem efetuadas de forma quase instantânea no Mac, talvez até em tempo real, como já rodam no iPad.

Finalmente, será possível e viável trazer o FaceID ao Mac, além de abrir caminho para que novas tecnologias, que ainda não foram lançadas, possam ser incluídas no Mac ao mesmo tempo que nos outros produtos.

Os preços dos Macs não devem abaixar

O apelo para fazer upgrade não será porque o Mac antigo não funciona direito e está obsoleto, mas sim porque os novos Macs estão muito melhores. E upgrades assim significam produtos mais caros. É um movimento parecido com o movimento do iPhone X: eles lançaram o iPhone 8 na mesma faixa de preço do 7, e criaram uma nova faixa de preço, mais cara, para o iPhone X.

A Apple anunciou que ainda tem no pipeline novos Macs com processadores Intel, e aposto que vão continuar na faixa de preço atual, sendo que os Macs com Apple Silicon e novos recursos de hardware e software integrados vão criar uma nova faixa de preço premium. Conforme passa o tempo os preços podem abaixar, mas no primeiro momento, aposto que não.

Quanto tempo de suporte de software um Mac Intel vai ter?

Mac: PowerPC -> Intel (4 anos)

iOS: ARM -> ARM64 (4 anos)

Mac: x86 -> x86_64 (10 anos)

O tempo exato de suporte de software dos Macs Intel vai depender muito da velocidade que os upgrades forem acontecendo, pois enquanto existirem mais Macs Intel no mercado do que Macs com Apple Silicon, a Apple vai ser praticamente obrigada a dar suporte. O histórico demonstra que o mínimo de tempo de suporte será 4 anos, ou seja, até 2025. Mas o Mac Pro lançado ano passado vem com chip Intel e parece ter sido projetado para durar uma década. Por isso acho que é mais provável que o suporte se estenda até aproximadamente 2030, sendo 10 anos, similar à transição de x86 para x86_64.

Conclusão

Sim, ainda vale muito a pena comprar Macs com Intel, pois o preço não deve abaixar, e o suporte oficial à x86_64 deve ir no mínimo até 2025, talvez até 2030.

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