Você precisa escrever o quanto antes, não espere que sua memória comece a te trair. meu professor me disse, sem saber que o barato das minhas realidades é que elas são construídas por lembranças dispersas e ilógicas, me traindo sem querer, mas eu deixo que me contem deste jeito, deixo que eu veja deste jeito, deixo que me traiam, deixo que o lençol da minha cama vá desarrumando com o passar dos dias, deixo que a insônia chegue, deixo que a tristeza venha e vá embora. não ligo pra quem viu diferente porque minha fidelidade é com a beleza das palavras e as emoções incríveis e tudo o que é maravilhoso e me deixa em êxtase e me faz fechar os olhos rindo ou chorando porque a realidade de que me falam é mais bonita de olhos fechados, não com a verdade, minha fidelidade não é com a verdade. a verdade é pesada demais pra alma humana e as biografias são limitadas ao número de pessoas existentes no mundo. ficções são infinitas. e é por isso que, uma semana depois, eu escrevo sobre esquinas do Centro do Rio, esquinas interiores, esquinas bombardeadas, esquinas sangrando o solo, despedidas como sacrifícios para um Deus que desconheço, lágrimas e suor como força e alimento que me fazem vibrar alto numa existência apressada e em alerta pra todas as besteiras humanas e cósmicas, vulcões prestes a derramar, céus prestes a desabar, um interior prestes a acordar, enterros amorosos, cordas bambas, bombas, inconsequências e Gabriel. contra as maldades do governo golpista e o fim dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, muitos seguravam faixas, cartazes, bandeiras, gritavam delicadezas, sussurravam revoluções, e eu, como aficionado por adrenalina e todas as possibilidades de reinvenção, de preto estava, com o rosto protegido por uma camisa preta também estava, pela primeira vez, observando corpos de ônibus incendiados, o sadismo da polícia em torturar e massacrar nossas existências ali e fora, de muitas formas, esmagando sonhos nuns, a cabeça noutros, esses sequer tendo tempo e a dignidade de sonhar e pedir. ainda no carro me instruíam Fica junto com a gente, volta junto, tenta não desagrupar muito, não se afasta, e uma conversa sobre fogo, que é amarelo avermelhado, e sua beleza. distraído com o preto das roupas, o preto da noite, o preto das fardas, o preto das fumaças, o vermelho amarelado do fogo, o céu denso, a chuva fina e helicópteros voando baixo e seus holofotes que carregam uma claridade cortante no controle social dos grupos que dispersavam, apesar de também preto. distraído, na esquina eu estava, quando escuto uma explosão atrás de mim. eu olho pra trás, vejo agilidade e presteza, ardência de fogo, o choque, de motocicleta, nos cercando, explodindo, atirando, atrás de mim, sobre mim, Calma, Calma, não corre. escuto um colega gritando pra outro, o rosto coberto, olhos tensos e cerrados, o ar falta, a fumaça espessa, muito ódio vem do outro lado e eu escolho não estar lá, muita gente é triturada por uma engrenagem institucional faminta e eu escolho não ter fome de gente, porque minhas despedidas são sacrifícios pra Deuses que desconheço e minhas lágrimas e suor são alimento e força pra minha existência vibrante. percebendo minha letargia frente ao cheiro de ditadura que entupia minhas narinas, a cara da ditadura que ardia meus olhos e o gosto ácido que autoritariamente tomava conta da minha boca, ele puxa minha mão, mais bomba, mais gás, o ar é impraticável, nossos passos apertam numa caminhada perigosamente agradável e sua mão tem uns espasmos de quem tenta controlar e tem medo, mas treme por dentro e quieto, talvez ele tenha tido um pai chato, Treme quieto, moleque, por isso dessa autoridade em me invadir e controlar, como policiais e seus escudos, como se toda sobra de humanidade pudesse ser sucumbida em mim, como se precisasse mais de mim do que eu precisava de proteção, sucumbindo instinto e humanidade, morrendo em mim, me puxou pela mão e pegou nos meus dedos com a certeza de que me levava pra um lugar seguro, com a certeza de que voltaríamos juntinhos, com rancor de quem é polícia, que rancorosamente brinca com as surpresas, inconsequentemente me dando um caminho a ser percorrido a longos passos, e mais bomba, mais gás, eu cada vez mais longe, me encontrando com a sua ousadia nesse lugar seguro que você tem a certeza de que me leva e eu tenho a certeza de que vou e que chego, mas não é isso que me diz o seu olhar, Treme quieto, moleque, percorrendo esse caminho que você me dá, indo ao encontro de sua ousadia, sem saber onde pisar. você tira a blusa branca que protege seu rosto também branco, Tem leite de magnésia?, me pergunta e sua voz me agrada como um soul tropical, me afaga, sinto que cada vez me aproximo mais da surpresa, do inesperado, da autossabotagem e da coragem, me distanciando daqui, de mim, de toda essa baixaria e vergonha humana, Não tenho, digo, tirando a blusa e desprotegendo minha cara, você rapidamente tira da mochila um frasquinho de plástico, Fecha o olho, eu aperto os olhos e você me borrifa algo gelado, estamos os dois, agora, com o rosto branco e correndo vamos, com esse mesmo rosto, de cara pro vento, querendo sentir, Qual é o seu nome? Caio, Me chamo Gabriel, é sua primeira vez? É, acho que é a primeira vez que me apaixono tão rápido assim, Apaixona? Apaixono e penso que a política só se resolve com frio na barriga. uma pedra, dessas portuguesas, que preenchem os bolsos dos companheiros que correm da polícia e também preenchem o chão que indesculpavelmente me falta, é jogada num vidro temperado e volta direto no meu rosto, meio tonto eu fico, correndo continuamos, as motos vêm, escutamos os tiros e sem vergonha de você e com medo deles me lanço nessa sua água doce, num suspiro de quem finalmente retornou ao lugar seguro, num suspiro de quem puxa o ar pra mergulhar, querendo que me afoguem, água doce também é de afogar, Você tá sangrando, Caio, levei a mão sobre a ferida e segurei, eram tantas que tinha machucado ao gosto do freguês, nos desagrupamos e viramos num beco onde finalmente podíamos descansar, ufa, chegamos, ainda ofegantes e suados e ríamos de nervoso, gargalhávamos, os sons de guerra e dos helicópteros e gritos, de longe, como num filme ruim sobre apocalipse e nós dois, ou o nosso próprio fim, o fim dos nossos interiores, dessas esquinas que falo, descansando e buscando o ar, com as mãos no joelho e a cabeça pesando pra baixo, olhando um pouco o chão, buscando as palavras, Eu odeio escutar barulho e não saber de onde vem, não saber o que tá acontecendo. Isso parece coisa de gente controladora, você torceu o rosto e o cabelo artisticamente projetado por um design de superfícies escorreu numa forma libertária e lisa de escorrer, se prendendo ao canto da sua boca, colado por saliva, Por que você me puxou? eu acabei me perdendo dos meus amigos, Te puxei porque te vi parado feito um poste no meio do fogo cruzado, me perdi em você. disse, com uma voz que, arrastada, foi me preenchendo de energia, Você me levou e me deu um susto imperdoável, e ele veio vindo, veio rindo, também se arrastando, fui reerguendo meu corpo e ele foi me empurrando lento, pelo braço, Que foi?, eu disse, risonho, Hahahahahaha, ele riu olhando pros lados e pra mim, vindo, me encostando na parede, um olho meio doce azulado, o lugar seguro onde me afoguei, o olho que tremeu e me mostrou que você também tremia, uma boca rasgada e um nariz que, de tão pequeno, nem dava as caras, veio rindo, veio rindo como um bobo, veio, ajeitou o cabelo atrás da orelha e descolou do canto da boca aquela mecha, onde pude escutar a baba pedindo pra ali outra coisa grudar, Te faltam palavras?, eu perguntei como O Dono Das Palavras. Faltam. Por que você tá fazendo isso?, Eu só tô indo limpar seu machucado, tirou do bolso a blusa branca que protegia o rosto, foi encostando devagar na ferida, foi doendo, fui jogando meu peso na parede, Tá feio, ele foi me dizendo, bem perto, bem junto, morno, eu fui fechando o olho, O perigo rende muita poesia e isso é um inferno, eu disse, já baixinho, porque perto ele estava, perto ele ficava, numa cadência de quem já não tratava do machucado ou me protegia de alguma coisa, mas se entregava, no meu lugar seguro me encontrava, na minha água doce também se afogava, de mim precisava, Você é algum tipo de artista desconhecido que só busca essas experiências pelo tédio e pela arte? Não parece ter muita coisa a perder, Tanto faz, só preciso de matéria-prima e, com você, já tenho pro ano inteiro, E se eu te beijar?, Você pode me dar um beijo? e, com uma estética leve, com a beleza de uma realidade que sangra e mancha o chão de baixaria, tornando impossível encontrar respostas, com um rosto ferido e ensanguentado, com sons de bancos explodindo, ônibus que gritavam, reinos dissecados, solidão em beco e a covardia das paixões ousadas, nos encontramos e nos viciamos na poesia rendida pelas mãos juntinhas e suadas, Você é tão bonito, e agradavelmente perigoso, os sons das bombas e da guerra e das explosões se tornaram o canto dos pássaros pela manhã, me curando do que havia adoecido em minha porção sagrada, renovando meus holofotes, meus espetáculos, meus reinos também dissecados, alimentando de força e lágrima uma possibilidade, um frio na barriga, esse mesmo, que acredito ser o remédio pra crise política e pro coração dos homens maus, um frio na barriga e um canto de pássaro que embelezou aquele beco, que se mostrou ser a única erva necessária pra um banho de cura do adoecimento político e, ali, desabando saliva como os céus que desabam e os vulcões que derramam, nos banhamos na água doce, curando, acordando, explicando, finalmente pondo meus pontos nos is, habitando a esperança no lugar onde, pesada, ela é arma letal contra aqueles que nos perseguem, me fazendo mutante, entrelaçando nossos dedos e encostando minha mão na parede que a partir de agora seria o último caminho que eu faria, gritar, de uma vidraça, pro carro que passa, que Teu infinito sou eu, sou eu, sou eu, sou eu, abrindo os braços nessa manhã risonha, sendo eu, escutando os pássaros e o mar nos seus olhos, ainda eu, dizendo Como é perversa a juventude do meu coração, Que só entende o que é cruel e o que é paixão. logo um barulho, vinha do lado esquerdo, a inspiração foi embora e toda a beleza subiu e deixou de enfeitar nosso lugar e nosso momento como uma nuvem que, se agrupando, vai embora precipitar noutro lugar, era uma motocicleta, um policial, tinha uma arma e me fez estremecer, Gabriel também parecia tenso, Boa noite, senhores. o preto da farda, o preto da noite, a chuva fina, num movimento rápido, parou a moto e fez como quem nos revistaria, o cheiro de ditadura tomou conta do ar, envenenado, era impraticável como gás, fez piadas, individualmente nos torturou até que esse prazer lascivo o fizesse brochar, afundou o dedo no meu machucado e Gabriel não gostou, meio bobo retrucou, ele não tinha medo, também, pudera, alguém com a mão deste tamanho não sente mesmo medo, medinho, pena de si, inho, mas o tamanho das mãos não dizia sobre o tamanho do menino que era Gabriel, miudinho, porque, ao contrário do que tentava mostrar, existia calmaria. e existiu extinção de vícios e tirania, no escuro do beco, no fundo do rio, quando, no amanhecer, o pássaro cantou, quando, calmamente, seus dedos percorrem aquilo que foi trincheira e mostra a quentura de um toque como a única possibilidade de solução pra essa crise política e pra esse fetiche pelo avesso pelo martírio cristão pela destruição que, apesar de calmo, te cobre com essas pedras que você joga e esconde tudo aquilo que um dia seria meu, se é que existe ou vai, e é desse jeito que eu chegaria na frente da sua casa, estremecendo antes de tocar a campainha e, como bêbado, hesitando, pensando duas vezes, fazendo carinho nesse botão como se fosse esse um desses botões vermelhos de emergência das salas de controles que nunca são tocados ou pressionados porque o que há ali é controle. mas não aqui. não sei o que pode acontecer depois que eu tocar esse botão porque nós nunca chegamos até aqui e eu não sei o que vem depois do fim, não sei o que me vem com o fim, se vem você, do alto da janela, gigante como nunca, como um Rei ou qualquer coisa onde o céu desabe sua divindade e, como um Rei de cabelos bonitos, distante de mim, você vai acenar e sorrir, bem alheio, genérico, porque não existe só um amor esquecido, não existe só um punhal no peito, não existe só Eu e Você, somos Nós, Eu, Você e Eles. e, alheio e genérico, você me acena como um Rei acena à multidão e esquece seus rostos, esquece suas expressões e as caras vão se esvaindo assim, como seu amor por mim, como o seu medo ingênuo de sair daqui sem mim, a necessidade vai esvaindo, vai dando lugar a um tipo de fúria de criança miúda, o preto da farda se enfurece, na mão segura um cassetete e com ele faz a maldade dos homens maus e das instituições famintas, a maldade que sofre as crianças abandonadas pelas ruas e avenidas, Treme quieto, moleque, na cabeça um golpe, no governo outro, um no meu coração e, nos meus braços, de olhos fechados, meu amor miúdo e bobão, angelicalmente dormindo, violentamente longe de mim, vou correndo, refaço meus caminhos, dou longos passos e organizo o chão que você me deu e eu não soube onde pisar, tento te encontrar, a estrada é longa, te vejo longe, vocifero, te peço, Rápido eu chego, a longos passos corro, você parece cada vez mais distante, não me escuta, não me vê, não me sente e eu não quero mais nada além de pegar na sua mão e te puxar como você fez comigo, bobão, doce e azul, rosado, mas tudo o que vejo é preto e amarelo avermelhado, mas é você que quero ver, é você que quero encontrar, é sua mão suada na minha escorregadia que quero sentir, é a ponta do seu dedo cuidando do meu machucado que quero olhar, é sua boca redonda e rosa que quero ensanguentar, é o perigo agradável, a poesia viciante, a voz morna e arrastada perto do rosto, o olho que ri e que busca aos lados, eu te vejo longe, estendo os braços mas é o vazio que pego, Por que não fugimos, meu anjo? Por que a culpa precisa sempre se destinar aos que não são os culpados e se destina de uma maneira infeliz, na incerteza da sombra que ou acompanha ou persegue, mas não consigo conter esse impulso primitivo de amor autodestrutivo no momento em que te peço desculpas por não ter agarrado sua mão a tempo, eu não imaginava que isso nos aconteceria, não imaginava que meu corpo não te protegeria, foi sem querer, meu anjo, miúdo, corajoso, te machucar nunca foi a minha intenção, me proteger não deveria ter sido a sua. ausente e ensanguentado, não por mim ou por meu machucado, escorrego com você nessa parede, minha última estrada percorrida, com você em meus braços, lentamente sufocando, indesculpavelmente me deixando. ausente, tão ausente quanto as luzes que marcam minhas retinas na hora de dormir, eu ajeito seu cabelo, olho a ferida na sua cabeça e pego na sua mão, Treme quieto, moleque, aos poucos, vai gritando pelo beco meu coração, Como é perversa a juventude deste coração, que só entende o que é cruel e o que é paixão