A Outonada de um Descrente
Vivi uma história de amor boa demais para ser verdade, confusa demais para ser contada e triste demais para se pedir uma segunda — ou terceira — rodada.
Lentamente me desvincilhei daquela que um dia significou o mundo para mim, travando uma guerra diária contra a essência de meu ser; a essência que um dia acreditou em algo tão tolo como o amor. Sair de um relacionamento é uma das coisas mais difíceis que eu já tive que fazer em toda a minha curta estadia neste planeta.
O processo de pouco a pouco ir se esquecendo do rosto, dos gestos, dos maneirismos, do som da voz e de todo o resto não é algo fácil de se lidar. Quando me dei conta, a imagem mental dela, antes tão clara e cristalina como água, se tornou um borrão, misturando-se com feições de rostos que há muito eu já havia enterrado. Antes havia emoções à flor da pele; agora já não há mais nada.
Deveria eu ter orgulho de ter conseguido superá-la? Não me sinto contente, não me sinto feliz. Me sinto vazio, como se algo de grande valor para mim, tivesse se perdido ao longo do caminho. Mas não estou falando dela, estou falando de mim mesmo. Sinto como se o fragmento que segurava todos os fragmentos se desprendeu da forma de minha alma, caindo no esquecimento. Acredito que deixei de acreditar no amor.
Por que eu deixei de acreditar no amor?
Porque, bem, no fim das contas, todas aquelas frases clichês que você encontra no Facebook não passam da mais pura e triste verdade: Você está sozinho nesse mundo. Eu estou. Ninguém se importa com ninguém, não de verdade; enquanto as relações durarem, as promessas são reais. Mas a partir do momento que tudo acaba, a partir do momento que você se torna um estranho para tal pessoa, as promessas se revelam como sendo portadoras de um grande vazio. Você se torna mais um, assim como tal pessoa se tornará mais uma para você.
Minha preocupação com o processo todo era a de que eu ficaria eternamente marcado por esse namoro que durou 2 rápidos anos. Os traumas permaneceriam; sempre que visse ou ouvisse algo à respeito dela, minhas próprias pernas não impediriam a inevitável recaída.
Mas agora enxergo que isso não é verdade. Tudo passou. E é sério, tudo passou. Por incrível que pareça, eu ainda estou aqui. Consegui atravessar a barreira, consegui enxergar além quando eu pensei que não iria aguentar. Acreditava veementemente que não conseguiria viver uma vida sem tal pessoa nela. Mas agora cheguei do outro lado…
E há um mundo desse outro lado, porém ao mesmo tempo não há nada. Saindo desse relacionamento, obtive clareza em muitos aspectos de minha vida. Refleti — muito, por sinal — à respeito de praticamente tudo. Eu estava começando a acreditar que eu havia me tornado um filósofo das relações humanas. Um filósofo de mim mesmo.
Percebi que havia perdido muitas coisas. Percebi que não sabia do que estava acontecendo na vida de meus amigos. Por 2 malditos anos, eu vivi e respirei aquele relacionamento. Quando ele terminou, eu abri meus olhos. Eu acordei. Eu sai da minha matrix pessoal. Porém o mundo já não era mais o mesmo.
Meus amigos haviam seguido com suas vidas, o mundo havia seguido com sua rotação e eu já não acreditava mais em amor. Não acredito mais no amor, porra.
A verdade é que, eventualmente, você vai se tornar uma mera lembrança. Boa, ruim, não faz diferença. Você vai se tornar uma memória, e talvez uma memória não tão importante assim. Você terá sido um degrau na escada da vida de outra pessoa. Você não lembra dos degraus que você subiu, certo?
E não fará diferença. Pode-se dizer o que for, não fará diferença. Sempre cairemos em rótulos, não importando a relação. Para ela, eu fui um cara que ela namorou. Para a próxima menina, eu serei o cara que ela ficou depois disso ou depois daquilo. Para alguém que nunca se envolveu, eu terei sido o primeiro cara e nada mais. Você — eu — sempre será, de alguma forma ou de outra, um rótulo; alguém que SERÁ, alguém que FOI.
E por isso não acredito mais em amor. O amor não era para ser algo facilmente substituído, esquecido. O amor não era para ser algo que só existe enquanto é contemplado, mas que deixa de existir ao ser posto de lado. O amor não era para ser uma lógica, não era para ser uma racionalidade. O amor não era para ser uma frase mesquinha de internet, o amor não era para ser um vídeo motivacional dizendo que um dia você rirá caçoando dos momentos que compartilhou com alguém. Isso não é amor, isso é uma falsidade. O amor é uma falsidade, criada pelo ser humano e para o ser humano fingir que está tudo bem, fingir que é realmente feliz.
Não passa de uma farsa.
O meu outono se aproxima. O meu outono já chegou.
