COPPOLA — MUITO MAIS QUE “O PODEROSO CHEFÃO”

A obra do diretor é muitas vezes ofuscada pela sua maior realização cinematográfica, mas há muito mais para se assistir desse mestre do cinema. Em “A conversação” nos deparamos com questões complexas e extremamente atuais, como os limites da privacidade e cumprimento do dever sem julgamento ético e moral.

O filme de Francis Ford Coppola conta a história de Harry Caul, um perito em vigilância privada (chamado de bugger ou grampeiro em português) que começa a repensar aspectos de sua profissão após ser contratado para gravar uma conversa entre um casal que pode resultar em um assassinato. A gravação em questão visa esclarecer uma possível traição da jovem esposa do diretor de uma grande empresa, que desconfia que ela esteja tendo um caso com um colega de trabalho.

A obra, apesar de ter sido lançada em 1974, apresenta assuntos extremamente familiares e atuais. O primeiro deles é a questão da perda de privacidade, do cerceamento de espaços íntimos, onde se podia falar qualquer coisa sem medo de ser vigiado. A profissão de Caul tem em seu cerne a violação deste espaço individual, ele é contratado por instituições públicas ou privadas para descobrir segredos e desvelar informações confidenciais. Aparentemente ele é um dos melhores em seu ramo, um gênio dos grampos. Porém, apesar de violar a intimidade de terceiros como ganha pão, o perito se sente incomodado quando um vizinho, num ato gentil, usa uma chave reserva para lhe deixar um presente de aniversário em seu apartamento. O ponto apresentado é claro, ninguém gosta de sentir que seu espaço de segurança pessoal possa ser violado com facilidade, nem mesmo quem pratica diariamente tal ato para viver.

A conversação antecipa em quase quarenta anos a discussão atual entre qual é o limite da liberdade do cidadão e a segurança pública. Vazamentos de informações confidenciais do governo americano, como os apresentados pelo Wikileaks e por Edward Snowden, deixaram claro que os interesses do poder sobrepõem a preocupação pela segurança. No filme não é diferente, os interesses das pessoas que contrataram Caul são totalmente pessoais e não justificam a quebra do sigilo de uma conversa de caráter íntimo.

Montagem parodiando o Big Brother do governo americano revelado por Snowden

O outro assunto retratado de forma contundente no filme é o cumprimento do dever no sistema capitalista sem julgamentos morais ou éticos. O escopo do trabalho de Caul é umbilicalmente ligado a instintos humanos como curiosidade e empatia, afinal, como escutar diversos seres humanos conversando sem se interessar minimamente pelos motivos por trás dos diálogos, a personalidade dos interlocutores e liga-los à razão pela qual estão sendo gravados?

Entretanto Caul cumpre seu dever com distanciamento, busca entregar seu melhor trabalho, sem se preocupar com o conteúdo gravado pelo prisma humano e da consciência. Nada que nenhum de nós não faça diariamente e sem um único momento de reflexão. Afinal de contas, alguém que trabalha para um fabricante de bebidas alcoólicas, por exemplo, cumpre o seu expediente diariamente e conscientemente tendo nas costas a responsabilidade de ser o principal fator a causar milhares de mortes?

Caul entretanto sente a responsabilidade pela primeira vez ao perceber que se entregar o resultado de seu trabalho, tecnicamente brilhante, pode contribuir para o assassinato de um casal. A partir de então o grampeiro deixa de ser tão profissional e se sente atormentado pelo seu próprio dever, enveredando por caminhos que colocam em risco sua própria saúde mental.

Ao final do filme não sabemos se Caul se mantém plenamente são. E o que fica, para os que se identificaram com o cinismo burocrático de batedor de cartão do personagem, é o gosto amargo de certa familiaridade com a situação de ser ótimo no que faz, mas não saber exatamente o porquê de fazer.


Originally published at lounge.obviousmag.org on August 5, 2014.

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