Conheça Vanessa Taylor, a co-roteirista de “A Forma da Água”.

Descrição da Imagem: Vanessa Taylor e Guillermo Del Toro lado a lado posando para uma foto no Writers Guild Awards.

Em seu discurso de agradecimento ao prêmio de Melhor Diretor no Golden Globes Awards, e, após a provocação de Natalie Portman às nominações, Guillermo Del Toro fez questão de agradecer às fantásticas mulheres que participaram do filme, citando Sally Hawkins, Octavia Spencer e Vanessa Taylor. Porém, enquanto Sally e Octavia são conhecidas do público pelo papel de Elisa Esposito e Zelda Fuller, Vanessa teve um papel um pouco diferente, mas essencial para A Forma da Água.

Descrição da Imagem: Guillermo Del Toro discursando após receber a premiação de Melhor Filme no Critics’ Choice Awards. Ele está a frente de Michael Stuhlbarg, Vanessa Taylor, Octavia Spencer, Richard Jenkin, Sally Hawkins e J. Miles Dale.

Em uma entrevista após a exibição do filme, a roteirista Vanessa Taylor e Guillermo Del Toro contam que quando se conheceram, o filme já tinha páginas de roteiro escritas, e ao contrário do estabelecido pelo senso-comum, ela não foi contratada para cuidar das partes românticas. Muito pelo contrário, após ler pela primeira vez o rascunho, Taylor apontou a necessidade de desenvolver melhor o conflito com os russos, a parte romântica, por outro lado, fora o foco de Del Toro desde o começo. Como ele próprio destaca, escrever em conjunto fora essencial para identificar todos os pontos que uma pessoa sozinha não consegue prestar atenção, as partes faltantes para que a história faça sentido.

Descrição da Imagem: Vanessa Taylor e Guillermo Del Toro lado a lado posando para uma foto no Writers Guild Awards.

A escolha da escritora é devido a sua experiência (principalmente por ter roteirizado alguns episódios de Game of Thrones) e não por que “era necessária uma visão feminina ao filme”. Em uma entrevista para a Variety, Vanessa conta que roteiristas homens são sempre cogitados, enquanto mulheres são apenas quando o filme é sobre uma mulher, e, nesses casos sexistas ela faz questão de recusar a oferta:

“Eu quero ser a Kathryn Bigelow (de Guerra ao Terror e A Hora mais Escura) dos escritores. Você nunca ouviu alguém dizer ‘Precisamos de uma mulher para isso, chame a Kathryn Bigelow’. O que você ouve é algo mais como ‘Essa é uma história pesada, ela precisa de um Fincher (de Garota Exemplar e A Rede Social) ou de uma Kathryn Bigelow’. Ela está, nesse contexto, além do gênero” (Entrevista de Vanessa Taylor à Variety, 2018. Tradução nossa).

Os dois roteiristas, contam que a parceria concretizou-se pela identificação de ambos: Ele a escolheu por ser ótima com plots, e ela se interessou em participar de A Forma da Água pela paixão envolvida no projeto e pela história onde os dois protagonistas não falam, mas são rodeados por pessoas que falam, mas não dizem nada.

O processo de escrita entre ambos contou com poucos encontros presenciais e muitos e-mails. Taylor trabalhou em cima dos personagens já concebidos pelo diretor e a parceria foi marcada pela honestidade com que ambos podiam falar sobre as ideias um do outro, como a discussão sobre o início do filme em voice-over, que Taylor achou deslocado e Del Toro fez questão, para que a película transmitisse a sensação um conto de fadas.

Descrição da Imagem: Vanessa Taylor, Richard Jenkins, Sally Hawkins, J. Miles Dale, Guillermo Del Toro, Octavia Spencer e Michael Stuhlbarg posando para foto após a premiação de Melhor Filme no Critics’ Choice Awards.

O mérito das diversas premiações que A Forma da Água recebeu mundialmente também é devido à contribuição de Vanessa. Embora não esteja na frente dos holofotes, a escritora , responsável por alguns episódios de Game of Thrones e o filme Divergente, está atualmente trabalhando no roteiro do live-action Alladin, da Walt Disney Pictures, que estreará em 2019, contando com a direção de Guy Ritchie e Mena Massoud, Naomi Scott e Will Smith nos papéis principais.

No entanto, segundo a própria escritora, essa mudança em Hollywood, incluindo mulheres na produção de seus filmes, está ocorrendo apenas marginalmente e de forma muito recente. Também ressalta a conquista de Patty Jenkins em 2017, ao dirigir Mulher-maravilha, que alcançou um público de todos os gêneros, quebrou recordes e fez dinheiro:

“No fim das contas, não há nada que não seja afetado pelo sexismo em Hollywood, afinal todos nós somos afetados pela escassez de mulheres em nossas fileiras” (Entrevista de Vanessa Taylor à Variety, 2018. Tradução nossa).

A Forma da Água incomodou muita gente, fez barulho, fez arte e mesmo com um orçamento humilde para um blockbuster, conseguiu alcance e reconhecimento. Outros filmes na indústria cultural também trouxeram tanta ou mais representatividade quanto ele em 2017 e, com certeza, a premiação de um conto de fadas dirigido por um imigrante, co-escrito por uma mulher, sobre personagens mudos, gays e negros, seja mais um passo em direção à uma mudança de percepção das pessoas e sobre a responsabilidade que um veículo de massas, como o cinema, carrega.

Descrição da Imagem: A equipe de “A Forma da Água” posando para foto no Toronto International Film Festival: Guillermo Del Toro, Sally Hawkins, Octavia Spencer, Richard Jenkins, J. Miles Dale, Doug Jones e Vanessa Taylor.