“Guardiões da Galáxia — Vol. 2” ou apenas “mais do mesmo”?

Descrição da Imagem: Youndu encarando Rocket em uma cena que mostra os dois de perfil um de frente ao outro.

Esse texto também poderia se chamar “porque virei o chato do rolê que não gostou de Guardiões da Galáxia Vol. 2.”

Spoilers abaixo.

Embora a continuação seja divertida, leve e sentimental como o primeiro foi, algumas coisas realmente incomodam. A principal delas foi o fator “mais do mesmo”, não no sentido dos mesmo personagens estarem no filme, mas no de que suas tramas se repetem quase que iguais no primeiro filme. Novamente temos Rocket e Peter disputando a liderança do grupo, novamente temos Gamora e Nebulosa uma contra a outra e novamente temos Drax divagando sobre sua família e novamente um romance não estabelecido entre Gamora e Peter.

Outro ponto estranho é o senso de perigo que torna-se quase nulo nessa sequência. Diferente do primeiro filme onde os perigos são muito bem representados (como a exposição ao vácuo que serve para a narrativa), neste a impressão é que desde o começo os personagens são invencíveis, tal qual os Vingadores em “A Era de Ultron” quando lutam com os robõs do vilão em Sokóvia, e, bom, preocupar-se com os Guardiões é essencial para a história. Talvez parte disto se dê ao abuso de efeitos especiais e cores, que mesmo tornando o filme diferente, ainda traz uma identidade condizente com o estabelecido para este time de segundo escalão da Marvel.

O relacionamento entre os personagens, embora pareça forçado, é também crível, e vale o destaque para as tramas envolvendo as personagens femininas: Gamora, Nebulosa e Mantis, como destaca a crítica feita pela Clarice França do site Collant (atual Nebulla), mesmo que haja momentos de sexualização desnecessária na introdução do Yondu no filme.

Quanto a introdução de Ego, o planeta vivo e pai de Peter, este traz algumas problemáticas, a primeira é a cansativa exposição onde James Gunn faz com que Ego conte detalhadamente sua história e a ilustre com “quadros vivos” em seu salão principal, algo que poderia ter sido contado de uma forma mais dinâmica e menos expositiva.

Descrição da Imagem: Ego, a frente e com a mão levantada, explicando coisas para Starlord, Gamora Drax e Mantis que olham com atenção.

O segundo ponto e também o mais grave, segundo a minha interpretação, claro, é o prejuízo que a nova trama traz ao primeiro filme: Ao final de “Guardiões da Galáxia”, Peter segura a joia do infinito e começa a ser consumido, até que ele é ajudado pelo resto dos personagens e o “poder da amizade” é responsável por impedir que a joia destrua o planeta Xandar. Em “Guardiões da Galáxia Vol. 2” descobrimos que Peter não é um meio-alien, e sim um praticamente um semi-deus, algo que poe a prova se ele realmente precisaria de ajuda no final do primeiro filme.

E o terceiro defeito seria a motivação final de Peter: “a morte de sua mãe fora causada por seu pai”. Isto tem a ver com este filme ainda não estabelecer desde o início os Guardiões como uma família (algo que já deveria estar estabelecido de acordo com o fim do primeiro), se o tivesse, o simples fato de Peter estar contra seus amigos deveria ser o suficiente para libertá-lo do transe causado por Ego. Mas o filme, que, como já foi dito, repete as tramas do primeiro, usa novamente a mãe de Peter, da mesma forma que foi usada na cena da joia do infinito em seu antecessor (e abusa mais uma vez da morte de uma personagem feminina como motivação para o herói).

Descrição da Imagem: Os Guardiões da Galáxia unidos lado a lado: Yondu, Nebulosa, Starlord, Gamora, Mantis, Drax e Rocket.

Outro ponto negativo foi a falta de contexto das músicas do filme, diferente do primeiro, esse se preocupou menos em integrar as músicas à realidade do filme como frequentemente acontecia no primeiro com o walkman e as caixas de som da nave Milano. Arrisco a sugerir uma mudança que pelo menos tornaria a música literalmente importante para o filme, ou pelo menos mais integrada a trama, uma vez que elas são parte do caráter de Peter: As bolhas que Ego causa nos planetas em que sua flor foi plantada (cenas que não trazem também sensação de perigo alguma em ameaçar figurantes desconhecidos) são apenas para mostrar que Peter está sendo consumido e está pondo a galáxia em risco, se, quando ele retomasse sua consciência as bolhas começassem a tocar alguma música do Walkman, isso mostraria que ele está se “lembrando” de quem ele é, e faria alguma piada para que os figurantes confusos reagissem a bolha que do nada começou a tocar uma música dos anos 80. E assim, pelo menos um pouco, a música poderia participar fisicamente da conclusão do seu arco, tornando-as menos gratuitas.

Enfim, acredito que a tarefa de James Gunn era árdua e não acho que ele tinha pretensão de superar o sucesso (justificado) do primeiro filme. Financeiramente “Guardiões da Galáxia Vol. 2” foi bem sucedido, mas em um ano com tantos filmes de super-heróis, não trazer algo inovador o tornou mais esquecível em meio não só a outros filmes de super-heróis, mas em meio aqueles que já utilizam fórmula Marvel Studios.