“Lalaland — Cantando Estações”: Um jazz autêntico ou mais um jingle natalino?

Descrição da Imagem: Mia (Emma Stone) de vestido longo escuro ao lado de Sebastian (Ryan Gosling) de terno claro em uma foto com filtro azul turquesa. Fonte: lalaland.movie

Outro textão sobre o favorito do Oscar 2017, Laland -Cantando Estações? Sim! Falando a mesma coisa que todos os outros? Acho que Não!

Spoilers abaixo!

Digo isso porque, embora eu seja metido, não sou crítico de cinema e entendo muito menos de musicais em Hollywood. Portanto não é sobre a proposta do em ser um novo clássico musical ou sobre a trajetória do diretor que quero falar, caso queiram saber mais sobre isso, podem conferir a excelente crítica do Cinema Em Cena. Eu quero é falar sobre a Narrativa, ou melhor, sobre porquê nos importamos com a história de um filme.

Descrição da Imagem: Sebastian (Ryan Gosling) e Mia (Emma Stone) caminhando no fim de tarde em um calçada com postes acesos, ao fundo um carro com farol aceso é dirigido pela rua. Fonte: lalaland.movie

Nas suas 2 horas de duração, Lalaland faz juz ao nome e aborda um lugar feliz, onde só é possível crer nos obstáculos impostos pelos próprios personagens através da atuação competente: Ninguém acredita realmente que Sebastian (Ryan Gosling) passe por dificuldades financeiras: ele tem um apartamento, um carro, guarda consigo os móveis para mobiliar seu sonhado bar e tem uma família preocupada com ele, o que torna irônica a afirmação de sua irmã sobre não possuir dinheiro nem para trocar a maçaneta da porta. Da mesma forma Mia (Emma Stone) não está arriscando tudo em prol da sua carreira, como tenta se convencer, se nada der certo basta voltar para a casa de seus pais, também preocupados com a filha. O que temos são dois personagens padrões hollywoodianos, brancos, héteros cis, ricos e que tem uma vida de oportunidades.

Retirado o elefante branco da sala, que também é a meu ver o grande demérito do filme, voltemos a como é possível simpatizar com o casal protagonista. Grande parte, obviamente deve-se aos diálogos sinceros e a performance. Os atores tem a missão de convencer o público a acreditar na busca de um sonho que não é nada mais que uma realização pessoal (fútil talvez?), afinal, Sebastian não quer levar o Jazz verdadeiro à todos, apenas àqueles que frequentam certo bairro em Los Angeles e Mia simplesmente replica as atitudes da celebridade que um dia atendeu na lanchonete. Se há mais que isso, não é mostrado no filme. Uma pena.

Descrição da Imagem: Sebastian (Ryan Gosling) e Mia (Emma Stone) se olhando enquanto uma banda de Jazz toca ao fundo. Fonte: lalaland.movie

Aonde está então o mérito? Está em como o filme ensina as pessoas a assistí-lo tornando os momentos críveis e reconfortantes. Neste sentido, utiliza de sua música e de sons específicos para acrescentar à história. A melodia triste que Sebastian toca no bar torna-se seu tema, tema da busca por um sonho e do que ele considera verdadeiro,para além dos jingles que estava sendo pago para tocar. A melodia constantemente volta, porém é propositalmente esquecida quando o músico parte em turnê com a banda.

Curiosamente também faz parte da construção de enredo a abrupta buzinada de Sebastian, logo Mia explica à amiga que ele sempre a usará para anunciar sua chegada, isso, junto à outras vezes em que ele demonstra-se insistente e incentivador culminam na noite em que ela está na casa dos pais e eles ouvem uma buzina na rua. Não seria necessário dar continuidade à essa cena, tudo já fora explicado e o expectador já sabe o que acontecerá a seguir, no entanto o diálogo seguinte é tão bom que vale o excesso.

Esse resgate de fatos já apresentadas faz-se eficaz quando Mia volta à lanchonete que trabalhava, ou quando todas as pessoas ficam imóveis no Seb’s atentas à apresentação do músico no ato final.

Em uma obra onde as dificuldades estão na falta de confiança dos personagens em si mesmos, Sebastian e Mia complementam-se, uma vez que só juntos são capazes de enxergar o seu potencial. Logo, os dois são donos da tela em uma trajetória musical que culmina em um jantar, uma séria discussão onde a música drasticamente para. O silêncio no musical funciona como um freio em uma pista seca. Um ponto de mudança naquela história.

Descrição da Imagem: Mia (Emma Stone) de vestido amarelo e Sebastian (Ryan Gosling) de camisa social e gravata dançando, ao fundo o pôr do sol e uma árvore. Fonte: lalaland.movie

Diversas vezes flerta-se com a expectativa: nos ensaios de Mia para sua peça autoral onde ela salienta o medo da plateia; na dificuldade de Sebastian quanto à adequação à nova banda e como ele torna-se aquilo que abominava; ou até quando Mia e o marido saem de casa, deparam-se com um engarrafamento (olhe só, fomos apresentados à ele na cena inicial que até agora parecia destoante!) e é revelada a logo do bar que decidem visitar. A logo ‘Seb’s’ resgata o relacionamento do casal protagonista. As situações encenadas de forma comum insistem em retornar e trazendo consigo picos de tensão, colaborando para a imersão na realidade daqueles dois.

Desta forma, como criar um clímax num filme com vários artifícios de roteiro e armas de tchekhov? Tornando a construção da narrativa um grande trunfo. Uma vez que não há um claro vilão/antagonista no filme, o clímax apresenta um confronto final com as possibilidades, as escolhas não feitas. Quando Mia, ao fim, assiste Sebastian tocar a melodia da fatídica noite em que se conheceram, todo a história vem novamente à tona e é estabelecida a expectativa por rever cada situação com um diferente desfecho, enquanto o filme ressalta sua identidade musical no ritmo crescente em uma cena que dificilmente poderia ser construída em outras mídias senão o cinema.

A dinamicidade mexe com os ânimos de quem quer que aquela nova realidade seja a verdadeira, um mundo onde os sonhos próprios e os sonhos em conjunto de um casal conciliem-se perfeitamente. Um filme tão colorido, tão cheio de vida, poderia ter seu The End ali, no ápice de sua narrativa, deixando cada um com sua interpretação. Porém conforme foi ensinado por 2 horas, a vida é feita de escolhas e o diretor optou por voltar à realidade e justificar os arranjos tristes de piano.

Enfim, em âmbito geral Lalaland não é um clássico, embora seja uma história que transmite emoção e dona de diversos méritos de narrativa, sua ambientação e certas escolhas (abusando de clichês) o afastam de um Jazz verdadeiro e sincero, assemelhando-o mais a um jingle de natal, mesmo que um jingle de natal muito bem tocado.

Descrição da Imagem: Sebastian (Ryan Gosling) ao lado de Mia (Emma Stone) olhando para cima em um observatório, ao fundo há cadeiras do auditório aonde estão. Fonte: lalaland.movie