Memórias da 25ª Bienal do Livro de São Paulo para um Caio do passado

Um registro compilado desse ano e das pessoas incríveis que finalmente conheci.

Descrição da Imagem: Raphael Fernandes, Alexey Dodsworth com máscara de cabra e eu segurando uma edilão de Demônios da Goétia em Quadrinhos em frente ao estande da Draco na Bienal.

Eu queria voltar no tempo e avisar o Caio de 16 anos que a sua primeira Bienal não será como ele imagina. Primeiro porque, em 2018, quando ele finalmente ir, também haveriam outros dois eventos tão bons quantos (talvez melhores) chamados Flipop e Flip (e a Casa Fantástica). E segundo, porque não adiantaria sonhar e se planejar, tudo aconteceria com apenas 2 semanas de antecedência.

Para quem não sabe, em 2017 tive um roteiro selecionado para a antologia da Editora Draco chamada Demônios da Goétia em Quadrinhos e até hoje não consegui digerir como foi incrível essa experiência de participar de uma publicação que envolveu tanta gente. Tudo ocorreu no meu último ano da faculdade de Direito, em meio ao TCC, e, por morar longe, não pude ir ao lançamento da HQ na Ugra Press em São Paulo, portanto, para mim, ainda faltava um sentimento de pertencimento à esse meio.

Logo em janeiro, participei dos Cursos de Férias da “Quanta Academia de Artes” em São Paulo. Para quem não conhece essa escola, imagine um lugar que todo mundo sempre se refere com carinho, onde compartilham e aprendem com a experiência dos outros. Lá eu tive contato com roteiristas e desenhistas que estavam ou não profissionalmente no ramo, e pude sentir um dos principais aspectos entre quem produz conteúdo, principalmente quadrinhos, aqui no Brasil: o apoio e interesse mútuo. Não é uma competição por quem consegue mais apoiadores em um financiamento coletivo, é o desejo que todos consigam ter seu projeto bem sucedido, um desejo que o mercado cresça e se fortaleça.

Descrição da imagem: As pessoas que participaram do curso de roteiro em janeiro na Quanta Academia de Artes: Vinicius H. Monteiro, Rafael Ferraz, Pedro Almeida, eu, Felipe Castilho, Julianna Brandão, Japa Onêis, Marcelo A. Galvão, Chairim, Douglas Docelino e Márcio Willian.

Uma das particularidades deste ramo é que as pessoas não vão para escritórios escrever seus livros e HQs e saem pra almoçar juntas meio dia. Por isso, encontrar pessoas que compartilham do mesmo sonho fazem as noites em casa trabalhando em projetos pessoais menos solitárias.

E assim eu segui participando de novos editais durante esse primeiro semestre, até receber o e-mail da Draco convidando todos os autores à comparecer ao estande da editora na 25ª edição da Bienal do Livro de São Paulo. No mesmo momento me lembrei daquele Caio, o que tanto romantizava sua ida à Bienal como autor. Pode parecer estranho para quem sempre esteve acostumado a ir nesta e na do Rio de Janeiro, mas, para mim, significava muito.

Era uma nova oportunidade de não me sentir sozinho. De conhecer as pessoas que faziam parte do meu dia a dia no twitter. De estar entre podcasters literários, de poder também divulgar o meu. E de conversar com escritores de quadrinhos e de livros.

Bom, deixo agora com vocês esta área com as fotos de quem encontrei e, principalmente, com recomendações de pessoas incríveis para você seguirem.

Descrição da imagem: Daielyn C. Bertelli, Leonardo Mitocôndria, Lucas Ferraz e eu no encontro de podcasters na Bienal.

E o primeiro compromisso na Bienal foi participar do “Encontro Cabuloso de Podcasters e Ouvintes - Bienal 2018” no estande da Ubook e identificar as pessoas pelas vozes que estou acostumado a ouvir, como a Belle Felix, MdMana, responsável pelo projeto #365hqs e também o Andrei Fernandes do Mundo Freak (com podcasts que, inclusive, serviram como fonte para minha história da antologia dos demônios). Logo estávamos em meio à dezenas de podcasters, conhecidos ou não. Sentíamos no dever de falar para as pessoas sobre o nosso, o Marca Página (usávamos até adesivos que a Daielyn fez). E falando em reconhecer pessoas pelas vozes, lá estavam o Leonardo Mitocôndria, a Nilda Alcarinquë e o Lucas Ferraz, do site Mitografias que produz podcasts excelentes para quem é interessado pelo fantástico e em entender a origem e influências dos mitos. Além do Mitografias, o Lucas participa do Leitor Cabuloso (que falarei mais a seguir), principalmente no Sobrescrever, ideal para quem deseja encontrar discussões sobre o ofício da escrita; E também é co-editor da Trasgo, uma revista de contos de Fantasia e Ficção científica com um trabalho de curadoria que evidencia há anos os melhores escritores e ilustradores nacionais (Deixo o link da edição 17 com a linda capa ilustrada pela Daielyn e também para o portfólio dela aqui).

Descrição da imagem: Daielyn C. Bertelli, Domenica Mendes e eu fazendo pose no encontro de podcasters da Bienal

No quesito podcasters literários, tivemos a honra de conversar com a Domenica Mendes, criadora do #OPodcastÉDelas, uma iniciativa em prol do aumento da participação de mulheres, e co-criadora do #LeiaNovosBR, campanha que estimula a leitura de autores nacionais. Também integra a equipe do site Leitor Cabuloso, site que me ensinou o quão prazeroso pode ser discutir um livro recém-lido e plantou em mim o desejo de ter meu próprio podcast para poder fazer isso com amigos.

Descrição da imagem: Daielyn C. Bertelli, Clara Madrigano, Anna Fagundes Martino e eu no encontro de podcasters da Bienal.

E falando em lermos autores nacionais, que tal conhecer a Dame Blanche? Fundada pela Clara Madrigano e Anna Fagundes Martino em 2016, a editora já conta com 5 livros publicados e com um time de escritoras formado pela Clara, Ana (assinem a newsletter dela aqui!), Lady Sybylla e Jana Bianchi. Eu fui um dos que conseguiu os cobiçados cartões postais com as capas dos seus livros, que são publicados em plataformas digitais, inclusive o do próximo lançamento chamado “O Auto da Magia Josefa” de Paola Siviero.

Mas falemos logo da minha “casa” na Bienal, a Editora Draco.

Descrição da imagem: Os artistas da Editora Draco reunidos em frente ao estande na Bienal: Diego Guerra, Guilherme Luiz da Fonseca, Eric Sama Cardoso, Eduardo Kasse, Alexey Dodsworth, Ana Lúcia Merege, Raphael Fernandes, Melissa de Sá, eu, Larissa Palmieri, Jun Sugiyama, Karen Alvares, Antonio Tadeu e Azrael de Aguiar.

Para quê lugar melhor no evento do que um estande tão diversificado como esse? Onde a exclusividade de publicações nacionais, na verdade, significa variedade? Tanto gêneros quanto em formatos: romances, contos, quadrinhos, coletâneas, mangás e guias. Qualquer visitante que entrasse lá iria encontrar algo que lhe interessasse, não importasse a idade. Presenciei pela primeira vez o chamado #dracospirit, e a primeira prova foi justamente toda a equipe que marcou presença no estande e que tive o prazer de conhecer. Pude conversar mais tempo com alguns e menos com outros, mas cada papo foi essencial para eu entender o que levava cada um ali, e, consequentemente, o que me levava ali, afinal, estamos todos querendo contar histórias que rodeiam nossas cabeças, e acreditamos que as pessoas podem gostar delas tanto quanto nós. Não posso, portanto, deixar de citar nesse texto todos aqueles que eu pude conhecer e conversar, para que você possa acompanhar seus trabalhos e ver por si mesmo a contribuição de cada para o mercado e, acima de tudo, se impressionar com os talentos que a Editora Draco conseguiu reunir em todos esses anos:

Eric Sama Cardoso, editor da Draco, escritor e, recentemente, roteirista da HQ Devorados;

Raphael Fernandes, editor da Draco, roteirista, organizador da famosa trilogia dutone do horror cósmico e responsável pelo projeto Fuzz Tarot;

Ana Lúcia Merege, escritora da Trilogia de Athelgard e organizadora da coletânea Magos, que estava lançando no evento Orlando e o Escudo da Coragem;

Eduardo Kasse, escritor da série Tempos de Sangue, também apresentando seu novo livro Vikings: Berserker na Bienal;

Alexey Dodsworth, roteirista de HQs e autor dos livros O Esplendor e Dezoito de Escorpião pela Draco;

Larissa Palmieri, roteirista que participou das coletâneas Space Opera e Periferia Cyberpunk, além do seu projeto autoral Hacking wave;

Airton Marinho, com roteiros em Periferia Cyberpunk e Demônios da Goétia, assim como sua mais nova HQ chamada Helldang;

Melissa de Sá, escritora de fantasia e ficção científica, autora da duologia Metrópole, integrante da coletânea Magos e organizadora da antologia Piratas;

Karen Alvares, escritora de terror e suspense, publicou a duologia Inverso e Reverso e participou também da coletânea Magos da Draco;

Dana guedes, roteirista e escritora de terror e fantasia, publicou a série Boy’s Love e em Vapor Punk pela Draco.

Fernando Barone, roteirista de HQs, participou da coletânea Space Opera e Despacho.

Descrição da imagem: Alexey Dodsworth com máscara de bode, eu e Raphael Fernandes conversando em frente ao estande da Draco na Bienal.

A segundo ponto do #dracospirit foi a quantidade de autores que faziam questão em passar algum tempo naquele estande. Todos tinham ali um lugar seguro e nos sentíamos bem em vestir a camisa da editora (inclusive, essa e outras você pode encontrar no www.asbaratas.com.br). Nesse ponto, valeram demais as conversas com Eduardo Kasse, Ana Lúcia Merege, Dona Isilda, Guilherme Luiz da Fonseca e Raphael Fernandes (que se tornou nosso guia gastronômico de São Paulo, veja só!).

Descrição da imagem: Eu e Eric Novello na sua sessão de autógrafos na Bienal.

Continuando a busca das @s conhecidas, finalmente pude comprar o Ninguém Nasce Herói e conhecer o autor Eric Novello, e, embora ainda não tenha lido seu livro, aconselho desde já sua newsletter.

Descrição da imagem: Eu, Felipe Castilho e Daielyn C. Bertelli na Bienal.

E se você não sabe quem é esse moço da foto, está perdendo boas risadas no twitter. Felipe Castilho foi quem me deu aulas de roteiro na Quanta no início do ano e acho que já posso dizer que é um dos caras mais gente boa que já conheci. Ano passado ele lançou A Ordem Vermelha: Filhos da Degradação numa parceria da Intrínseca com a CCXP e neste ano ele integra como roteirista a equipe que está trazendo os Desafiadores do Destino à vida, uma HQ de SteamFantasy sobre um grupo criado por Marcelo Campos e Ronaldo Barata!

Descrição da imagem: Daielyn C. Bertelli, Jana Bianchi e eu na Bienal.

Para quem é escritor, além de todas as recomendações prévias, eu reforço o conselho de seguir a Jana Bianchi e acompanhar todos os projetos que ela está envolvida, desde o podcast Curta Ficção, com ótimas discussões sobre escrita, até a Mafagafo, a recente revista brasileira de contos organizada pela própria.

Descrição da imagem: Clarice França, Rebeca Puig e eu na Bienal.

Também quero dizer porque fiz tanta questão em encontrar a Rebeca Puig e a Clarice França na Bienal. Em 2016 eu conheci um site chamado Collant Sem Decote e a partir de então, minha visão sobre a maioria dos produtos relacionados à Cultura Pop mudou. Desde o polêmico AntiCast 198 — O Machismo (e outras coisas) no mundo Nerd eu tento ser uma pessoa melhor e o Collant foi o site que mais me ajudou nesse processo, não só por expor os diversos problemas nas obras que consumo, como por me fazer entender qual o meu papel nessa discussão. Sou muito grato ao trabalho da Rebeca e da Clarice, que agora publicam no site Nebulla. Poder dizer isso a elas pessoalmente foi muito importante para mim e, consequentemente, um dos pontos altos do evento.

E pelo visto essa 25ª edição da Bienal do Livro repercutiu e causou diversas impressões, deixo algumas aqui: o texto de Eduardo Kasse sobre a provação e a recompensa de expor num evento como esse; a Thread da Jana Bianchi sobre a força do YoungAdult e os problemas do mercado; a matéria de Pedro Almeida no PublishNews sobre a formação de leitores no Brasil; e a Thread da Agencia página 7 comemorando o sucesso dos autores nacionais Roberta Spindler, Iris Figueiredo, Babi Dewet, Fernanda Nia e Vitor Martins que fizeram a diferença nessa edição.

Enfim, eu queria poder falar ao Caio de 8 anos atrás para não se preocupar sobre quando iria pela primeira vez a Bienal, que as coisas iam simplesmente acontecer e que, quando o momento chegasse, ia significar para ele muito mais do que um dia imaginou.