Os méritos de “Dark”: A atmosfera certa para uma viagem incerta.

Descrição da Imagem: Poster de divulgação da série mostrando Jonas de costas em frente à fenda do tempo.

Spoilers abaixo.

Como exercício de roteiro, planejar Dark, a primeira série alemã original da Netflix, deve ter sido desafiador. Afinal, uma das grandes dificuldades de quem escreve/produz sobre algum mistério é entregar as informações aos poucos a quem consome a obra. Neste sentido, há muito mérito em Dark, pois, embora algumas respostas tornem-se logo perceptíveis, a experiência de acompanhar os personagens descobrindo-as é empolgante.

Seja esperar pelo momento em que Jonas perceba que ele é o estranho viajante do tempo, ou como Helge conseguirá sua cicatriz, e, até mesmo, entender porque as relações entre os habitantes de Winden no presente são como são devido a acontecimentos de 33 anos atrás.

Descrição da Imagem: Parede coberta de fotos dos personagens da série com fios indicando a relação deles.

Os conceitos utilizados são apresentados aos poucos, no tempo de uma série de 10 episódios e, embora haja muita reclamação quanto a quantidade de personagens, basta um olhar mais atento para revelar o quanto os diretores Jantje Friese e Baran bo Odar preocuparam-se com esse ponto: em toda a série, os únicos nomes ditos são dos personagens relevantes, cientes da quantidade de nomes que a audiência precisa conhecer. Também preocupam-se em apresentar claramente a linha temporal de 1986 antes de viajar para 1953, utilizando de cenas que comparam as feições dos personagens no presente e no passado (o que também ressalta o acerto na escolha do elenco que é incrivelmente semelhante).

Descrição da Imagem: Ulrich Nielsen sujo em frente à fenda do tempo em 1986.

Assistir uma série em alemão é, sem dúvida, um atrativo, principalmente para desconstruir preconceitos com o idioma, pois as atuações são certamente pontos altos da produção, justificando personagens que vivem em constantes conflitos. Dramas estes que tornam suas atitudes muito plausíveis, tornando real, principalmente, o modo com que aceitam que seja possível, sim, viajar no tempo. Jonas, Mikkel e Ulrich obviamente se negam e passam muito tempo em silêncio refletindo sobre a situação na qual se encontram.

Neste momento em que o principal ponto da série surge, a atmosfera.

Como os próprios diretores disseram na entrevista produzida pela Netflix, o silêncio é essencial para a narrativa, principalmente por haver um tempo para os personagens aceitarem os acontecimentos e reagirem a eles.

A chuva frequente, talvez uma consequência do misterioso acidente nuclear, acrescenta no tom melancólico, que alcança seu ápice na junção de todos esses elementos já citados à trilha sonora que encaixa perfeitamente, vide a abertura:

Abertura da série ‘Dark’ mostrando diversas composições de cenas da série espelhadas.

As composições originais formadas por cordas e distorções são intercaladas com músicas escolhidas a dedo para momentos específicos, seja “I ran(So far away)” de A Flock of Seagulls em uma sequência tradicional mostrando o dia a dia do colégio em 1986; “A quiet Life” de Teho Teardo & Blixa Bargeld na sequencia do episódio final; ou o clímax do quinto episódio, marcado pela música “Me and the Devil” de Soap&Skin.

Música “Me and the Devil” de Soap&Skin que encerra o quinto episódio

Além do clima, a constante desconfiança sobre um incidente nuclear é fielmente retratado devido à experiência pessoal dos diretores alemães Jantje Friese e Baran bo Odar que quando crianças viveram o medo de Chernobyl em 1986: eles foram puxados do parquinho ao ar livre para dentro de casa a fim de evitar contato com a chuva: “Para nós esta foi a primeira vez que a nossa infância foi roubada. Nós tivemos essa sensação de: Meu Deus, talvez o mundo acabe e todos nós vamos morrer”.

Entrevista dos diretores em um programa da Netflix entitulado ‘Dark Aftershow’

Para explicar o conceito de viagem no tempo da série, os diretores poem em conflito a liberdade encontrada em “De Volta para o Futuro” e o determinismo em “Harry Potter e o Prizioneiro de Azkaban”, o que resulta em um determinismo casual onde os personagens tentam constantemente escapar, porém estão presos em um ciclo fechado.

Justamente esse concepção é responsável tanto por momentos ótimos quanto decepcionantes.

Infelizmente o final tende somente a realizar o que a trama já tinha entregue e não traz uma situação nova ou transgressora, mantendo muito dos mistérios carentes de resolução. Embora a história mostrada seja intrigante e interessante o suficiente, é inevitável o gosto amargo no último episódio que, ao invés de resolver estes conflitos e trazer novos para instigar a futura temporada, apenas encerra o ciclo temporal e deixa muitas questões essenciais abertas, a exemplo de Noah e também da trajetória de Charlotte na história. Dark peca em não funcionar como uma temporada fechada tornando-se, portanto, dependente de uma próxima.

Descrição da Imagem: A imagem de abertura da série mostrando uma rua molhada com reflexos dos semáforos vermelhos à noite. No centro a logo de Dark.

A experiência, porém, compensa o tempo gasto, e os showrunners Jantje Friese e Baran bo Odar merecem o voto de confiança pela competência com que dirigiram Dark, uma série que aposta e destaca-se entre os “originais Netflix”. Definitivamente ela vale um olhar mais atento e uma discussão posterior maior sobre sua trama e qualidades que vá além do já manjado “é tipo um Stranger Things para adultos” encontrado em diversas críticas.