o vermelho.

dia desses, normalmente acordei e como normalmente faço, tomei meu banho, me arrumei, coloquei uma camisa, meus tênis e uma calça.
uma calça vermelha. 
e fui para o trabalho
dei sinal, normalmente. entrei e paguei minha passagem. neste dia olhos me encaravam mais do que o normal. ser uma “minoria” é estar, mesmo que inconscientemente, acostumado com olhares, mas isso, em dado momento, não (nos) incomoda mais, é só mais um olhar. dentre muitos que vieram e virão.
desci e caminhei até o meu trabalho.
houveram esbarrões — perdão, moço! — houver mais de um. — meu deus, como eu sou desastrado. pensei — cheguei no trabalho. 
trabalhei, normalmente. rotina atribulada, agência, demanda, pausa pro paiol. desço à rua. os transeuntes novamente me olhavam.
findo dia. vou pra casa! pego outro ônibus, olhares, dessa vez com cenhos franzidos. eu, por algum motivo estava sendo reprovado. sento numa cadeira, faço minha viagem. chego em casa, deito na cama, cansado e me boto a pensar, quando olhei pra baixo. 
uma calça vermelha.
uma cor, que outrora era só uma cor. não era mais uma cor, era reprovação, era mal vista, era ruim.
não era somente eu. era por ser eu e a cor. cores.

vermelho é luta, não é luto, aliás, luto, pra mim, é verbo. assim como o meu nome. Eu, Caio. Eu Luto.

não obstante, apenas um adendo:
BRASIL: relativo a brasa. centelha que é vermelha.

mas é também feito de verde, amarelo, azul e branco e de todas as coisas que couberem.