Legado ambiental ficou mesmo fora do pódio

Até então as promessas ambientais realizadas para as Olimpíadas continuam sendo promessas, e do tipo que não se cumprirão.

Intervenção na Baía de Guanabara (Foto: Fernando Lemos / Ag. O Globo)

A palavra “legado” foi dita e repetida durante 2016, mas agora, ao fim do ano olímpico, ela está em um crescente desuso, especialmente em se tratando das metas ambientais.

Apesar de ter servido como vitrine para a Rio2016, o legado ambiental do evento foi retratado como “quase nulo” pelo Tribunal de Contas da União, que nada pôde fazer a respeito por se tratarem de verbas municipais e estaduais. A cidade do Rio de Janeiro deixou de realizar absolutamente todos os compromissos ecológicos assumidos durante sua candidatura como cidade-sede em 2009. Baseado em uma metodologia utilizada pela OMS, calcula-se que os níveis de poluição por material particulado no Rio causaram cerca de 5.400 mortes em 2014, de acordo com os dados mais recentes, enquanto a violência gerou 3.117 homicídios no mesmo período.

Desde a formulação das metas naquele ano, a Lagoa Rodrigo de Freitas apresentou melhoras na qualidade das águas, mas a intenção de torná-la apta para o banho foi abandonada pela administração municipal. Felizmente, Isaquias, o primeiro brasileiro a conquistar três medalhas em uma olimpíada, não caiu da canoa.

Mesmo com o espetáculo apresentado na abertura do evento que exaltava a Mata Atlântica, a promessa de plantar 24 milhões de mudas da vegetação nativa não aconteceu. 5,5 milhões de árvores restauraram 3.275 hectares de Mata Atlântica, cobrindo apenas 69% do necessário para pelo menos compensar as emissões de poluentes das obras olímpicas.

A questão ambiental é vista de forma desconexa das questões sociais, urbanas, de mobilidade e habitação. Sempre é tratada como impasse ao desenvolvimento. O que aconteceu com o Rio é reflexo de como a política ambiental é deixada de lado em todas as esferas governamentais. Funciona como propaganda, mas não como ação

, comentou a bióloga ativista Juliana Texeira ao Brasil de Fato.

A revitalização das lagoas de Jacarepaguá e da Barra da Tijuca também foi abandonada. O motivo é que as obras foram encomendadas a um grupo de empreiteras tido como um cartel em época (2014) suspeito de fraudes em licitação estadual — suspeitas estas que foram confirmadas juntamente com muitas outras pelos anos seguintes. “Já fizemos quase tudo por lá. Está tudo praticamente pronto”, disse o prefeito Eduardo Paes na véspera do evento.

O maior projeto era sem dúvida o cuidado para a Baía de Guanabara, que almejava o tratamento de 80% do esgoto então despejado nas águas. Pouco tempo antes da realização das provas na Baía, correntes de ar levantaram toxinas acumuladas durante décadas no fundo d’água e exigiram a retirada de uma tonelada de peixes mortos. Atletas que resolveram experimentar o local de prova passaram mal dias antes do início das competições. A prefeitura conseguiu passar de 15% para 50% a quantidade de esgoto tratado. Não existe previsão de esse número subir mais. “Isso é uma melhoria de 30%. […] Você não pode dizer que nada foi feito”, defende Eduardo Paes. O evento contou com uma providência quase divina da natureza, em que as correntes de ar e marinhas levaram as maiores massas de lixo visíveis para longe durante as realizações das provas.

Nessa situação, a gente fica como?
A baía de Guanabara faz parte daquilo que eu chamo da indústria da degradação, onde de tempos em tempos o governo estadual do Rio de Janeiro inventa projetos de recuperação da baía e obtém empréstimos bilionários do exterior. Os recursos chegando são usados de qualquer maneira, ao gosto dos políticos do momento, alcançando pífios resultados ambientais sem qualquer tipo de investigação ou sanção das esferas de fiscalização. Aí, anos depois, novos programas são criados e mais dinheiro é captado. Segundo a minha hipótese, a baía degradada é uma necessidade para que a indústria da degradação continue funcionando enquanto houver quem empreste dinheiro para o governo do estado. Simplesmente inventaram mais uma forma de ganhar dinheiro fácil: com a degradação da baía

explicou Mário Moscatelli, biólogo pela Universidade de Santa Úrsula (USU), especialista em Gestão e Recuperação de Ecossistemas Costeiros e mestre em Ecologia pela UFRJ, ao Instinto Humanitas Unisinos (IHU).

Mário Moscatelli e o secretário de Meio Ambiente retiram lixo da Lagoa de Jacarepaguá, ao lado da Vila Olímpica

“Nada de estrutural foi feito” disse ele. “Há iniciativas pequenas e pontuais. Mas, levando em consideração o que foi prometido, trocamos um Porsche V8 por uma Fusca 67.”


Gostou do que leu? Você pode ajudar este artigo a chegar mais longe! Basta clicar no botão “Recommend” (abaixo) e indicar este texto para outras pessoas. Se quiser receber nossas atualizações direto no seu feed do Medium, não esqueça de seguir apertando no botão “Follow”.

Like what you read? Give Caio Andrade a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.