A SOLUÇÃO DOS NOTÁVEIS VIROU A SOLUÇÃO DOS NOTÓRIOS

Primeiro fim de semana de governo Temer pareceu uma matryoshka de desdobramentos simbólicos e reveladores

Oi, querido

Por onde começar um apanhado das primeiras 72 horas deste presente de sexta-feira 13 contínuo? Pediram tanto pra ditadura voltar que ganharam um simulacro de monarquia no lugar. Já temos até nosso very own e adorável príncipe George de roupão, Michelzinho Temer (7), o Bandeirante. Criticado pela montagem de um ministério formado exclusivamente por homens brancos, Michel Temer (o pai) justificou que as escolhas foram baseadas em critérios de competência.

Em seguida, elencou a própria esposa para cuidar dos “assuntos sociais”. É de se deduzir que Marcela seja a pessoa do universo feminino mais qualificada para o cargo.

Ponto a ponto, viramos o fim de semana conhecendo nossos novos heróis da “unificação e pacificação” nacional. Deve ser por isso que o indicado para a Justiça, Alexandre de Moraes, é o mesmo secretário de Segurança Pública que gentilmente unificou estudantes de toda São Paulo sob a mira da Polícia Militar. Alexandre chega para substituir o advogado Antônio Mariz, um dos 100 signatários de um manifesto contra a Operação Lava Jato, em 2015, e está pronto para coibir ações de guerrilha como protestos e outras coisas de esquerdista e desocupado.

O desfile continua com o ministro da Saúde reclamando da indisciplina dos mosquitos brasileiros, vai em frente com um ministro da Ciência criacionista, rapidamente substituído por Kassab. Também com o troféu Motosserra de Ouro pra pasta da Agricultura (Blairo Maggi), um contratado para tocar obras das Olimpíadas para o Esporte (Leonardo Picciani), o Osmar Terra das internações compulsórias pro Desenvolvimento Social e Agrário, e Mendoncinha Filho do DEM para a Educação. Aquele mesmo partido do projeto Escola Sem Partido, mas também aquele que já iniciou os trabalhos falando que “o ministério agora é do Democratas”.

Pelo menos 7 dos 23 novos ministros são ou investigados ou pela Justiça, ou por um Tribunal de Contas, ou já foram condenados. Dois são investigados pela Lava Jato. Doze estão com os nomes estampados ao lado de valores na famigerada Lista da Odebrecht. Um deles, Henrique Eduardo Alves, está aliviado em ver arquivado o processo em que era investigado de ter recebido até R$ 11 milhões em doações adubadas por desvios da Petrobras.

Sorte de nossos auspiciosos líderes que, ainda, essas 72 horas de governo provisório trataram de diluir a Controladoria Geral da União, responsável por ações de combate à corrupção e por pedidos de acesso à informação. O órgão de carreira agora vai para o feirão de partidos sob o novíssimo título de Ministério da Fiscalização, Transparência e Controle. Antevejo o mesmo sucesso que aquele antigo Ministério da Desburocratização dos anos 1980.

Por sinal, a redução de ministérios foi até agora tão vazia e contestável que talvez fosse melhor criar um Ministério dos Ministérios. Seguido do Ministério do Não é Bem Assim. Já Ministério da Cultura foi descontinuado.

A DOUTRINA ZÉ

Entretanto, a nomeação mais equivocada é personagem antigo e de nome bem mais conhecido que seus pares. O senador José Serra, derrotado em duas eleições presidenciais, pela quarta vez abandonou um mandato para o qual foi eleito e assumiu o Itamaraty.

Eleito com uma plataforma de campanha que beirava a xenofobia, a primeira medida do primeiro não-diplomata a ocupar a chancelaria do Ministério das Relações Exteriores foi esvaziar alianças tidas como ideológicas. Virou a noite de sexta pra sábado redigindo notas de desmentido e acusações de "mentirosos!" endereçadas aos países bolivarianos que se preocuparam com o clima do País. Muito prudente. Na segunda-feira, já eram pelo menos três países que oficialmente declaravam não reconhecer o governo interino. Não é por besteira que muitos contemporâneos do ex-presidente da UNE até hoje desconfiam do por quê de ele ter sido um dos poucos perseguidos de 1964 a obter asilo político nos Estados Unidos.

Muito embora nossos vizinhos não representem tamanha fração das exportações brasileiras, todos os países sul-americanos nos têm como primeira, segunda, ou terceira maior fonte de importações do mercado local. Citado em folhas de pagamento da petroleira Chevron, nosso chanceler (que acaba de acumular as funções de comércio exterior) não dá o braço a torcer e promete intensificar a campanha.

Pra bater de frente com a tal ideologia bolivariana, a Doutrina Zé escancarou de vez a crise interna para o plano regional. E vai buscar alianças incertas com aqueles mesmos contra quem sempre nos digladiamos nos tribunais Organização Mundial do Comércio.

Mas nem isso se compara ao desmonte das cooperações internacionais de segurança para os Jogos Olímpicos que vêm aí em agosto. Ainda no sábado, o recém-empossado general Sérgio Westphalen Etchegoyen determinou que a Abin rompa e reestruture todo esquema para as Olimpíadas. Nem o designer gráfico mais dedicado toparia uma refação desse tamanho.

A única certeza aqui é de que ninguém na comunidade internacional está tão tranquilo assim sobre como as coisas irão transcorrer num megaevento numa das cidades mais violentas do mundo, em um dos países mais violentos do mundo e nas condições mais instáveis desde que me lembro de Brasil ou do Mundo, quanto o novo ministro e único militar em atividade a contestar relatórios da Comissão da Verdade.

Ainda assim, sejamos justos, dois urubus não chamam a chuva sozinhos, e tampouco o Nem Tão Vice Assim Michel Temer, até agora, fez questão de dirigir algum sinal à comunidade internacional. Logo ele que será o primeiro chefe de Estado não-eleito pelo voto direto a abrir uma Olimpíadas desde o presidente chinês Hu Jintao, em 2008.

A SOLUÇÃO TEMER™

Já o projeto de reestruturação das contas públicas do novo governo acena efusivamente para os estrangeiros.

Na primeira entrevista coletiva do escudeiro Henrique Meirelles, o novo titular da Fazenda prometeu garantias ao mercado financeiro e austeridade fiscal. Na sessão de perguntas com a imprensa, pediu para uma jornalista “definir o que que é crise, afinal”, especulou sobre 'gastanças' em programas sociais e a questionou da validade de garantias trabalhistas. Já a nova pasta de Justiça & Cidadania também avisa que “nenhum direito é absoluto”.

Também não adianta insinuar que o coleguinha "votou nos dois"

Do logotipo que já tinha cara de anos 60 e logo perceberam se tratar da versão de 1961 da bandeira, passando pelo amplo apoio industrial e empresarial, chegamos finalmente a um discurso motivacional e ufanista que, acidentalmente, se transformou numa matryoshka de pormenores absolutamente inconvenientes, simbólicos e reveladores sobre a natureza da farsa em curso.

Não pense em crise, trabalhe!” foi a frase de efeito que o novo chefe de Estado provisório escolheu para marcar a cerimônia de inauguração, na quinta-feira. Na sexta de manhã, o noticiário encontrou o tal outdoor na rodovia Castelo Branco, em SP. Pela tarde, descobrimos que o posto de gasolina está desativado. Ainda à tarde, soubemos que o posto faliu após o dono do estabelecimento ser preso e condenado por adulterar combustível.

Rihanna talvez não gostasse tanto disso

A justa indignação de milhões de cidadãos, agora, vai servir de “único caminho que vai fazer o Brasil voltar a ser o de sempre”, nas palavras subconscientemente sinceras do novo ministro do Planejamento, Romero Jucá.

Desde o afastamento da presidente eleita, o Supremo Tribunal Federal já arquivou inquéritos e investigações contra senadores, deputados e até sobre o cartel do Metrô paulista, farto em evidências graças a proatividade da Suíça. Aécio Neves ganhou até um ministro particular no Supremo em Gilmar Mendes. Logo quem, por sinal, agora acumula a presidência do Tribunal Superior Eleitoral mesmo duas semanas depois de sugerir a separação das contas de campanha de presidente e vice referentes às Eleições de 2014. Daí que a tendência indica mais dois anos completos de Temer pela frente.

Infelizmente a pergunta não ganhou retranca numa entrevista de questões pré-aprovadas…

Temer assume o posto provisório prometendo um governo de pacificação, de união nacional, e com apelos pra que a população “apoie e aplauda todas as medidas que venhamos a tomar”. No dia seguinte, responde ao Fantástico que “irá avaliar” a possibilidade de demitir ministros investigados pela Lava Jato que eventualmente se tornem réus oficialmente (a entrevista foi gravada na sexta-feira).

Aqui a presunção de inocência é um direito absoluto.

Some isso às nomeação de nada mais, nada menos, de dois dos advogados do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, para cargos de segundo escalão no governo. Considere ainda a proposta de uma reforma da Previdência em até 30 dias. Ou que o presidento não descarta concorrer no próximo pleito, apesar de estar inelegível por 8 anos.

Não tem “eu avisei” suficiente pra explicar o que vem daqui pra frente. O Impeachment, paradoxalmente, deixou o sistema ainda mais instável, mas deve fortalecer as coalizões partidárias. Daí a distribuição de ministérios a uma base aliada com interesses comuns e inescapáveis. A entropia brasileira tende a reorganizar o sistema sem abrir mão de nenhum elemento, apenas reorganizando-os de maneira cada vez mais randômica.

A crise é moral, é temporal. Temos aqui um governo que, se não matou a República Nova, tem como ideal envergonhado a restauração da República Velha. E a cúpula política sabe, ainda, que sua salvação passa pela condenação daquele desde sempre culpado, pero em busca de um crime.

Parabéns a todos que contribuíram para chegarmos até essa situação patética
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