PROJETO 27 ANOS EM DOIS

Não precisou de uma semana pra Solução Temer™ mostrar muita personalidade e pouquíssima empatia

Michelzinho, o nascido em berço esplêndido, e seu filho

Ficou difícil sustentar o argumento de que “seria igual com PT ou PSDB ou PMDB” que boa parte da esquerda encampou, com razão, ao longo dos últimos anos. Lula e Dilma foram decepcionantes em muitos aspectos, especialmente a atual presidente eleita, mas nem os desdobramentos do fim de semana inaugural do governo interino foram tão graves quanto as declarações do novo ministro da Saúde, Ricardo Barros, à Folha de S. Paulo.

O Brasil enquanto Grécia, nas palavras do ministro

Não dá pra dizer que a Solução Temer™ não é um governo de personalidade. Que desde o começo deixa bem evidente a que veio, e que conta com algum companheirismo de parte da imprensa pra esclarecer e providenciar desmentidos quando as declarações pegam mal. Resta saber se a fé também irá ajudar todos os brasileiros a pagar plano de saúde (a gente sabe que pelos menos ele não precisa se preocupar com isso).

Para ser justo, notícias de que o Ministério da Saúde está quebrado e não tem verbas para bancar programas como o Farmácia Popular e o 192-SAMU correm desde antes do Impeachment. Ainda aguardamos esclarecimentos da nova gestão sobre como irão proceder aqui.

Ministro Mendonçinha Filho abre o coração à revista Piauí

Mas a entrevista, que à essa altura já deve contar com um desagravo do Ministério do Não É Bem Assim (substituto aparente da Secretaria de Comunicação), veio em grande companhia. Mendonçinha Filho, da Educação, também ganhou manchetes ao sugerir mais verbas a universidades públicas federais que decidam cobrar mensalidade. Na prática, é de se deduzir que o MEC irá sufocar os repasses pra encorajá-las ainda mais. Resta ver se isso vai ser antes ou depois de proibir que professores influenciem os brasileirinhos.

E também vem aí a legalização dos jogos de azar! Caminhamos pra ser um país muito bom pra quem tiver muito dinheiro. Mas nenhuma novidade aí.

Serra também mandou o Itamaraty avaliar o fechamento de embaixadas brasileiras no Caribe e África, regiões onde o Brasil tem superávit no comércio com quase todo mundo. Por enquanto, ainda somos a única diplomacia a contar com embaixadas em todos os países do globo.

Não era nem meio-dia e trinta e o diretor-geral de nossa agência de espionagem, Wilson Trezza, já tinha deixado seu aviso prévio pro novo empregador. É que os arapongas da Agência Brasileira de Inteligência só descobriram que voltam a ser subordinados ao GSI e aos militares por meio do Diário Oficial da segunda-feira.

Como não amar esse cheirinho de instituições funcionando pela manhã?

A RESTAURAÇÃO

Juscelino Kubitschek prometeu aos brasileiros que iria fazer 50 anos em cinco. Aos mais chegados, Michel deve prometido voltar 27 anos em dois.

Vivemos pra ver alguém dar razão ao Sarney sem medo de ser infeliz

Entre entregar a Inteligência Nacional de volta aos quepes militares e prometer garantias e mais garantias ao mercado financeiro (hoje recepcionamos nosso novo presidente do Banco Central, o Itaú), cortes no Bolsa Família ou no sistema universal de Saúde, fica bem evidente que o “Governo de Pacificação Nacional” transcorre numa sistemática retaliação ou revanche à derrotas de longa data. Nesse ritmo, ano que vem teremos desfile militar no 31 de março ou 1º de abril, a conferir.

Até agora, nenhum governo teria a audácia de peitar de frente 28 anos de Constituição. Ainda tenho certeza que nenhum governo seria eleito com essas plataformas aí. Talvez por isso mesmo é que sete dos ministros da Solução Temer™, afinal, não conseguiram se eleger em 2014.

Muito embora os protestos maciços contra o Governo Dilma tenham sido determinantes para sua queda, jamais foram essas as reivindicações nem mesmo da maioria dos manifestantes antipetistas.

Em “Vivendo no Fim dos Tempos” o filósofo e psicanalista Slavoj Žižek conta uma anedota que vem a calhar ao momento brasileiro. Diz que, se em 1988 ninguém podia imaginar a Queda do Muro do Berlim, mais impossível ainda seria prever que anos depois do fim do comunismo na Polônia, seriam os antigos dirigentes comunistas a derrotar o revolucionário Lech Wałęsa em eleições livres e democráticas.

Žižek argumenta que não devemos interpretar essa imensa surpresa como um desejo literal pela volta da antiga ordem, mas da frustração absolutamente natural que acompanham as grandes expectativas. O País do Futuro não quer literalmente a volta dos anos 60–70s vista em mais que alguns cartazes da Paulista, e sim revisitar aquela esperança pelo desenvolvimento que nunca parece chegar por inteiro.

Da mesma forma, talvez seja a hora de dar a mão pro coleguinha que se desiludiu, resistir à tentação do “eu te avisei”.

Sempre ela, a Laerte

Se maquiavelismo é uma coisa difícil de fazer num governo eleito com apoio popular, o que dizer de uma farsa que já ascende ao poder com 60% da população favoráveis à sua destituição. Ou com 1% das intenções de voto em pesquisas simuladas? Que ninguém perde o que nunca teve, é claro.

O governo Temer não depende do apoio popular pois tem um pacto claro com sua verdadeira base de sustentação no sistema político. A senha deles é ‘restaurar’. A nossa tem que ser ‘consertar’.

NOTA DO AUTOR: Inicialmente me referi ao plano de metas de JK como "40 anos em 4". O erro foi corrigido, chamava-se "50 anos em 5".

"Ele conta com você"
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