11 km

Caio Rodrigues
Jul 20, 2017 · 4 min read

Na conurbação chamada São Paulo distâncias são singularmente calculadas em horas ao invés de quilômetros. Alguns relacionamentos não resistem ao tempo perdido no trânsito e se desgastam antes mesmo de começar, impedindo qualquer tentativa de aproximação. Apenas 11 km separam Gaia e César. Ele mora na zona oeste e trabalha numa corretora na zona sul. Ela mora na zona norte, faz estágio na zona oeste e estuda no centro. Não há Bilhete Único que aguente tantas idas e vindas. Não há desejo ou sentimento que se prolongue frente à distância.

Eles se gostam. Nunca admitiram isso, mas se gostam muito. Por medo ou orgulho priorizaram outras coisas/pessoas e estabeleceram uma amizade. Não ficavam mais e tinham entrado em outros relacionamentos, rolos, dates… Ou qualquer outra coisa que faça companhia por uma noite ou mais. Por motivo de “vou deixar meu atual relacionamento ditar regras”, não eram mais amigos no Facebook; usavam apenas o Whats. Numa quarta-feira de janeiro, durante as férias da facul, Gaia recebeu uma mensagem. Era César dizendo que teria uma reunião com um cliente em seu bairro e que gostaria de vê-la após o compromisso. Ela aceita e sugere a padaria famosinha do bairro às 19h.

Ahh, como os dias quentes de janeiro são longos! E muitas vezes ainda tem o clima que te trolla formando uma chuva que nunca cai e te faz sofrer um pouco mais. Aquela quinta-feira foi bem assim. César conseguiu se livrar do cliente mala antes do esperado e chegou mais cedo. Não parava de mexer no celular e as pernas balançavam rapidamente. Ansiedade publicamente exposta sem culpa. Eis que Gaia chega. Não, ela não estava lindíssima com seu melhor vestido e maquiada. Ta um calor de matar e ela pegou trânsito até lá. Isso não é um conto de fadas e eles já não têm mais nada a provar um para outro.

Eles sorriem, se cumprimentam, se sentam e logo chega alguém com um tablet que não da para fazer o pedido e só serve de cardápio ostentação. Chamam a moça que recolhe o tablet e anota o pedido no papel (qual sentido disso?). Escolheram duas bebidas geladas porque ninguém é obrigado a fazer o fino naquele calor saariano. Logo começou o terço, digo, a conversa. Havia muita intimidade entre eles. Falavam sobre qualquer assunto, incluindo decepções profissionais e amorosas. Os lamentos eram muitos, mas eles davam um jeito de emendar uma anedota para amenizar.

Gaia tinha acabado de levar um fora. Ela conheceu um cara no Happn e pela oitava vez em dois anos pensou estar diante do amor de sua vida. César está completamente infeliz. Vive um relacionamento tão desgastado que poderia servir de análise para especialistas em casais. Uma hora se passa e os desabafos se multiplicavam. Pareciam arrependidos por não terem dado uma chance ao “casal” antes. Um breve silêncio antecipa um olhar perdido de Gaia, que observa o movimento lá fora como se procurasse alguma palavra no vento. Aleatorimente e sem sentido ela simplesmente diz: nunca entrei no mar à noite.

César sorri enquanto Gaia mantém o olhar perdido. Ele pergunta se Gaia iria com ele para ver o mar naquele exato momento. Ela solta uma risada estranha, mistura de surpresa com desconfiança. Pergunta para César se ele está falando sério e ele responde apenas com um sorriso e um gesto de cabeça. Então ela aceita. Eles dividem a conta e entram no carro de César. Descem a serra, livre até certo trecho, ouvindo “Belive” do Mumford & Sons e seguem direito para a praia onde os pais de César passam o ano novo. É janeiro, é temporada de férias, mas a cidade está tranquila e a praia bem vazia.

Eles deixaram os sapatos no carro e andaram pela areia sem falar absolutamente nada. Ouvia-se apenas passos e o barulho do mar. Sentaram bem perto d’água. Gaia ficou com os olhos cheios de lágrimas mas não chorou por mais que seus instintos clamassem por isso. Agradeceu a atitude do amigo com um beijo no rosto e sintetizou aquele momento com a frase “a vida é muito louca mesmo”. Ela levantou e tirou a roupa. Não ficou nua, ela não precisava disso para chamar a atenção dele. César perguntou para onde ia e Gaia respondeu com uma pergunta: você ta comigo? Entrou no mar enquanto César a observava. Ele não respondeu nada, mas entrou no mar pouco tempo depois.

Ela nunca havia entrado no mar à noite porque tinha medo, mas dessa vez o medo nem ousou rondar. Tudo fluiu naturalmente. Gaia e César saíram do mar um tempo depois. Sentaram na areia e César ofereceu sua camisa. Ela aceitou e agradeceu com o olhar. César envolveu o braço direito nos ombros de Gaia e enfim selaram aquele momento com um beijo. Preocupado e honesto, César diz que acabou de trair alguém e perguntou se Gaia se importa com isso. Ela respondeu que quando duas pessoas se gostam não há traição, apenas libertação. Eles se beijaram mais uma vez e César finalmente responde a pergunta que Gaia fez antes de entrar no mar: sim, eu to com você.

)
Caio Rodrigues

Written by

Gauche na vida 23º32'52"S 46º38'09"W

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade