A Voz

Caio Rodrigues
Aug 23, 2017 · 3 min read

É de manhã e o primeiro som que escuto é do celular a me despertar. Não tem bom dia, apenas uma melodia programada pelo fabricante que me faz ter dor de barriga só de pensar em sair da cama. Tempos atrás coloquei uma música para me despertar, mas resolvi mudar antes que pegasse ódio de The Strokes. Levanto e já escuto algum barulho externo que me situa. Barulho na casa, no quintal, no vizinho, na rua… Passarinho que canta, cachorro que late, martelo que bate, gente que manda e construção que anda.

A rua é cheia de sons. Uma sinfonia desordenada onde todos querem ser ouvidos, mas ninguém quer ouvir. Somos influenciados por esses sons que nos passam diversas mensagens o dia inteiro. A ambulância passa e anuncia uma emergência, o telefone toca e anuncia uma cobrança ou engano, a criança chora e pede por atenção ou alimento e o aspirador de pó é ligado e me incomoda. Só isso mesmo, é a única mensagem que ele me passa. Mas todos têm algo a dizer com suas vozes e ruídos sejam pessoas ou objetos.

Comida cozinhando no fogão também tem som característico. Aliás, o próprio ato de cozinhar nos revela uma orquestra de utensílios que no final oferece um verdadeiro espetáculo à mesa. E os sons continuam em forma de conversas, talheres batendo no prato, garrafas que se abrem e brindes. E o que dizer dos meios de transporte? Sempre tão necessários, mas sempre tão barulhentos… E é inegável que todos eles são fundamentais para a composição da sinfonia cotidiana.

Sons também trazem lembranças. Todo casal tem uma música que marcou o início do namoro, por exemplo. O trauma de infância (superado ou não) ao ouvir a broca no consultório do dentista. O Bem-te-vi cantando no fim de tarde próximo à casa dos avós. O barulho do mar traz lembranças das férias de verão na adolescência e dos feriados insanos com os amigos de faculdade. Entre sons agradáveis e incômodos seguimos nossa rotina. A gente acaba se acostumando com barulhos que nos irritam e nos fazem mal. Aprendemos a lidar com barulhos externos e calamos a voz interior.

Essa voz pode ser chamada de consciência, sentimento ou esquizofrenia (para quem acha estranho esse lance de se ouvir). Tem quem chame de intuição e terceira pessoa da trindade. Mas, a verdade é que existe uma voz que nos move, nos norteia e que vem de dentro. É a soma de todos esses conceitos. Essa voz, muitas vezes, é abafada no cotidiano por falta de tempo, interesse, sensibilidade ou espiritualidade. Ela é muito sutil perto dos leões corporativos que rugem cobrando por produtividade. Mais sutil ainda se comparada à caótica melodia da cidade.

Ouvir-se é um presente. É bem verdade que não temos dado muito valor a esse momento de aparente solidão, ainda mais agora com tantas mídias em que todos têm algo a dizer. É muito barulho para dar atenção e, frequentemente, esses barulhos têm prioridade em nossa mente. Deixamos de ouvir o que o coração tem a nos dizer e perdemos um pouco da nossa essência junto. Ouvir-se é um exercício e não é egoísmo. Ouvir-se na atualidade se faz necessário ainda que seja em forma de oração, meditação ou reflexão. Mas, seja como for, calar essa voz tão importante não é uma opção.

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Caio Rodrigues

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Gauche na vida 23º32'52"S 46º38'09"W

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