Anastasia #1

Três fortes murros atingiram a porta de Anastasia antes que ela fosse aberta. “Acorde menina. O sol já está quase chegando. Vou comprar algo para comermos, vá aquecendo a fornalha.”

Anastasia se levantou e correu para a fornalha animada. Tinha trabalhado quase a noite inteira e conseguiu achar o que estava de errado em sua arma. Iria começar a trabalhar em um tambor mais resistente, que não quebrasse a partir do terceiro tiro. O carvão ardia e os olhos de Ana brilhavam de um amarelo que só acontecia quando estava realmente eufórica.

“Deixa eu adivinhar.” Disse Vladimir colocando suas mãos nas têmporas e fazendo força nos lábios fechados, como quem quisesse ler a mente dela. “Está trabalhando na Katia não é?” Ana respondeu apenas com um sorriso enorme.

“Dessa vez eu descobri. Não foi o metal, foi o desenho do tambor, fiz os cortes para dentro, mas se eu fizer para fora fará toda a diferença.”

“Talvez faça a diferença você fabricar armas que existam e funcionem, não essa bizarrice de um bacamarte com revólver, que ainda por cima é da sua altura.” Gargalhou. “Eu ainda não consigo acreditar que você aguenta o coice dessa coisa.”

“É mais jeito do que força.”

Anastasia derretia o metal e o colocava nova forma com tanto prazer, tanta paixão, que quase fazia que Vladimir se apaixonasse pela profissão também. O dia mal começara e o rosto da menina já estava sujo de carvão e marrom de ferrugem, que disfarçava bem em sua pele morena. Seus olhos amarelos sempre brilhavam quando estava perto das chamas e o cabelo que deveria ser branco estava sempre tão sujo que quase mudava de cor. Era pequena, até para sua idade. Tinha dezesseis, mas a altura de uma menina de doze. Era forte, muito mais do que aparentava, graças ao trabalho árduo todos os dias. Era feliz com o trabalho e com suas inovações bélicas.

“Consegui algumas maçãs.” Disse Potrus se aproximando da loja com uma cesta de comidas para o dia.

Era quase ridícula a visão de um homem daquele tamanho carregando uma cesta que parecia miniatura em suas mãos. Potrus tinha mais de dois metros de altura, os ombros e peitoral largos o deixavam ainda maior. Era mais forte do que a maioria dos soldados ou mercenários. Suas mãos já não tinham a cor comum de um Arstots, eram mais escura por tanto manusear carvão e metais. A falta de cabelo era compensada pelo grande bigode grisalho e sobrancelhas grossas.

“Se for comer conosco vai ter pagar. Com dinheiro ou serviço.” Disse sorrindo para Vladimir.

“Foi por isso que vim. Pedido para Ana.” Estendeu uma mensagem para ela.

“Mais um revólver. Não disse que estou ficando boa?!” Saiu pulando de animação.

Foi pegar suas luvas no quarto. Anastasia era Izbakiana e não precisava de luvas para se proteger do calor da fornalha, mas gostava de usa-las, se sentia mais próxima de Potrus. Voltou pegando as formas e ferramentas necessárias para a encomenda.

“Não esqueça de reforçar o… tambor gigante? De novo com isso Ana?” O cansaço na voz de Potrus era real, mas o orgulho no fundo dela também.

Ana correu e se assegurou que o metal do tambor não estragasse por enquanto, e foi trabalhar. Demorou algumas horas, mas seu treinamento fora bem feito. Potrus gostava de forjar armas mais “íntimas” como ele dizia. “Não gosto de armas de fogo, tiram um pouco da honra de um combate decente. Não serei hipócrita de dizer que nunca usei nem nunca vou usar novamente, é mais uma questão de preferência.” Dizia nas discussões com Anastasia. Ela já era o contrário, amava explosões, fogo, projéteis, cristais. E acabou tomando esta parte como responsabilidade na loja desde os treze anos.

O dia foi longo, principalmente com o trabalho em sua própria criação, mas conseguiu. Quando o sol estava quase se pondo foi até o mercado das pulgas, conversou alguns minutos com Dona Reznikov, cumprimentou Pança-Mansa e entrou em um beco vazio. Correu em direção a parede e com dois passos na parede alcançou a primeira sacada, daí para frente era só subir pelos canos ferventes de vapor que não a machucavam, até chegar ao topo do mais alto prédio do mercado das pulgas. E lá estava Vladimir comendo um pão e olhando para baixo.

“Tá pronta!”

Não foi preciso dizer mais nada. Vladimir guardou seu pão em um canto do telhado que sabia que pombos não pegariam e correu com ela até a loja. Da loja foram até os limites da cidade. Algumas árvores já começavam a surgir, adentraram já sabendo o caminho. Chegaram em uma cratera que fora feita durante a guerra contra Izbak. Anastasia girou Katia no ar e se preparou para o teste.

“Pronto?” disse segurando Katia com as duas mãos e o dedo coçando no gatilho.

“Quero só ver.” Vladimir sentou-se em uma pedra e se preparou para o espetáculo.

Não era a primeira vez que Vladimir e Ana estavam naquela cratera para testar Katia, e não seria a última. Katia era onde Ana expressava toda sua criatividade bélica, sua ânsia de inovação. Um bacamarte, com um tambor para atirar repetidamente como um revólver. O que impressionava é que tinha um metro e meio de comprimento, parecendo um pequeno canhão.

“Tiro um. Vamos lá!” pressionou o gatilho com força.

O tiro atingiu em cheio uma pedra grande e a despedaçou inteira. “Tiro dois!” Anunciou e disparou acertando outra. “Tiro três!” Mais um sucesso, mas a tensão aumentava. Na melhor das hipóteses a arma era um sucesso, na pior, Anastasia perderia a mão ou a vida. “Tiro quatro!” Tudo bem. “Tiro cinco!” Ainda inteira. “Tiro seis!” E mais uma vez a arma disparou.

Os dois pararam durante um instante, olharam um para o outro e gritaram em comemoração. Gargalhavam e viam o estrago que a arma provocara. O tiro era poderoso e a arma sobrevivera, todas as peças ainda inteiras e intactas, sem nenhuma rachadura ou fissura.

“Vamos para o segundo teste.” Colocou Katia no chão e começou a recarregar a nova invenção.

“Como assim?” Vladimir foi pego de surpresa com uma mistura de emoções. Confusão, medo, animação, orgulho e outras que não conseguia entender.

“Adicionei um repetidor mais rápido. Vamos ver se Katia aguenta a intensidade.”

Vladimir a alertou que aquilo já era perigoso demais, mas Ana já estava convicta que daria certo. Sua audácia sempre fora grande, depois de um sucesso como aquele, estava a níveis estratosféricos. Vladimir simplesmente se escondeu atrás da pedra que antes estava sentado e esperou pelo resultado.

“Repetidor dois!” Gritou. “VÃO BORA!”

Os tiros saíram um atrás do outro, na velocidade de um revólver normal, mas uma arma daquele tamanho e calibre não suportaria. A ponta do cano começou a encandecer com o calor de cada explosão dos tiros. Até que o sexto tiro foi disparado e o alvo não era nada mais que uma nova cratera menor.

“Eu sou uma GÊNIA!” Sorriu para Vladimir.

Enquanto voltavam para casa Vladimir comprou uma torta de amoras para comemorar o sucesso de Ana. Ele a acompanhou até a loja e depois voltou para seu telhado. A Loja Armamentista Potrus não era grande, e com a quantidade de armas enormes que eram expostas para as vendas a deixavam menor. Espadas longas, escudos de madeira ou metal maciço, machados, adagas, pistolas, revólveres e alguns poucos explosivos. A loja também era a casa de Potrus e Anastasia. Atrás do balcão tinha uma porta que levava num corredor com a dispensa, com ferramentas, metais e afins, o quarto de Potrus e seu quarto que fora colocado depois, quando Ana atingiu os 8 anos.

A noite foi tão calma e reconfortante, que a única coisa que não deixava Anastasia querer dormir para sempre, era a paixão pelo trabalho que viria no próximo dia.

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