Anastasia #3

Dois tilintares invadiram o quarto de Potrus enquanto dormia, um leve sibilar da pólvora se queimando e… BOOM! Um estrondo alto e um clarão. Potrus se levanta assustado, com o coração quase saltando da boca, olha para todos os lados, até encontrar o sorriso animado de Anastasia ao lado de sua porta.

“Acorda logo, o sol já está quase nascendo.” Saiu saltitante pela loja até a fornalha já acesa.

O sangue de Potrus foi se esfriando, o susto havia passado. Levantou-se devagar, no caminho dos quartos em que dormiam nos fundos até a loja, viu ao lado da cama de Ana um amontoado de papéis com desenhos, cálculos e projetos. Não deve ter dormido nada. Logo pensou, estava certo afinal, quando vinha a inspiração para Anastasia o sono fugia como uma lebre para longe dali. No balcão, um pedaço de pão e uma xícara de café fresco esperava por Potrus. Andou até a parte da frente da loja, onde ficava a fornalha e observou que um dos potes de ferro grosso estava no meio da rua com a boca virada para baixo.

“Olha isso.” Ana estava quase pulando de animação.

Alguns segundos depois, mais uma explosão e o pote longe nos céus, quase vinte metros acima de suas cabeças. As poucas pessoas que passavam na rua se assustaram e olharam para todos os lados. Ana correu para o meio da rua e olhou para cima, chegou um pouco para um lado, depois para o outro, levantou os braços e pegou o pote de volta. A expressão de confusão de Potrus era impagável, era a parte favorita de Ana. Ela tirou de seu bolso um bolinha preta, menor que uma unha.

“Munição nova pra Katia. Desse tamanho já tem essa potência, e o melhor.” Mostrou o interior do pote. “Não danifica, só propulsiona. Quando eu colocar isso na Katia eu vou poder voar!” Ela pulou e abriu os braços com a conclusão de sua amostra.

Potrus não tinha palavras. Não sabia se avisava sobre o perigo da explosão, ou do perigo de Cães de Guarda pega-la por qualquer razão inventada, tirando a parte da mente dele que estava tentando entender a nova loucura da garota. Mas não conseguia destruir o sorriso tão puro e sincero da menininha.

“Quando vai testar esse negócio.” Perguntou afagando o cabelo branco da pequena.

“Hoje a noite. Vladimir vai comigo. Por que você não vem com a gente?”

“Sou velho demais pra essas coisas, depois que a loja fechar vou tomar uma bebida e vou dormir. Se eu conseguir, capaz que eu fique acordado de preocupação.”

“Deixa de ser chato. Nem é tão velho assim, aposto que ainda consegue bater em metade de Arztotska e nem se quer cansar. Vem com a gente, por favor.”

“Vou pensar sobre o assunto.” Ana sabia o que isso significava.

“Bem, azar o seu. Vai perder o primeiro teste da maior inovação das últimas décadas.” Apontou o dedo para cima, em uma pose digna de uma estátua.

Os dois gargalharam mas foram interrompidos por um trio de Cães de Guarda.

“O que está acontecendo aqui?” Um deles se prontificou.

“Nada de interessante senhor. Apenas um acidente na fornalha, minha aprendiz deixou cair um pouco de pólvora na fornalha.”

O Cão observou bem Potrus, da cabeça aos pés. Decidiu que não queria causar confusão. Eles prenderiam Potrus de qualquer forma, mas tinha a possibilidade que o homem reagisse e para parar um homem daquele eles teriam que se esforçar.

“Os Cães surgiram durante da guerra com Izbak.” Potrus explicou a Ana a anos atrás. “Arztotska já tinha soldados e guardas, mas eram meio honestos e realmente serviam o povo naquela época. Durante a guerra, Izbak fez diversas campanhas para tentar desmoralizar Arztotska e a forma que era governada, uma das formas era apresentar os que trabalham para país como marionetes sem alma, obedecendo sem questionamentos. Assim, Cães de Guarda pareceu como um bom apelido. Mas o tiro saiu pela culatra. Após o fim da guerra eles realmente se tornaram cães, adotando até o nome. O treinamento dos Cães os distanciam tanto dos cidadãos, que duvido que eles ainda nos veem como humanos.”

Enquanto Potrus explicava um casal era espancado na rua e arrastado para prisão. Ninguém assistindo sabia o por que, provavelmente não havia nenhum motivo. Cães costumavam ser sádicos, quando não eram zumbis, sem expressão em seus rostos e não se mexendo a menos que alguém trespassasse alguma área restrita.

Potrus nunca teve grandes problemas com os Cães. Não chegava perto deles, estratégia adotada por muitos. Ele tinha medo de que danificassem a loja. Ele já estava trabalhando naquela loja a muitos anos, desde que era um jovem com seus vinte e poucos. Comprou a loja com a pequena herança que sua mãe havia lhe deixado com anos de economia na sua estalagem. Potrus fechou o lugar após a morte da mãe. Disse que a estalagem era muito parte dela para continuar sem a dona. Na realidade, ele não conseguiria ver o lugar nas mãos de outra pessoa.


O dia não foi tão longo, pelo menos para Potrus. Ana estava o dia inteiro esperando pelo momento em que pudessem fechar a loja. Ajudou Potrus com um sabre e começou o processo de um bacamarte, quando o trabalho tinha cessado esperou até o final da tarde checando se todos os cálculos para o teste estavam certos. Em teoria estavam, a tarde cessou e estava na hora de colocar em prática. Correu para chamar Vladimir, que logo atendeu a chamada.

Ana já conseguia ouvir o bipe que vinha do pulso de Vladimir. Os Sussurradores tinham um receptor que apitava quando um cliente lançava um sinal, o bipe acelerava o ritmo a passo que o Sussurrador chegava mais perto. Com a quantidade de fábricas destruídas na guerra, pais foram perdendo empregos, crianças foram ficando órfãs e para não passar fome, roubar um desses receptores para aceitar trabalhos de recados. Os Sussurradores foram perdendo mercado, era mais barato contratar um garoto do que um deles. Assim Vladimir ganhava a vida assim como muitos outros.

Ana foi caminhando com Vladimir para o local de teste de sempre. Ao chegar começou a explicar como iria proceder.

“Vai ser simples.” Ana começou a explicar enquanto colocava a munição especial no compartimento. “Vou colocar Katia no chão, me segurar bem e subir.” O sorriso reluzia quase iluminando a noite.

“Quantos metros você pretende subir?”

“Uns oito ou dez, não acho que vai passar disso.” Ana já pulara dessa altura antes, não era muio perigoso.

“Cuidado para que esse negócio não caia em cima de você.”

“Katia!” Ana o corrigiu. Ela gostava muito daquela arma para que fosse tratada como apenas um objeto. “Teste 1!”

Anastasia montou na arma gigante que estava com a boca mirada para o solo. Vladimir se afastou um pouco, mas estava pronto para correr para socorrer sua amiga caso algo desse errado. Ana enxugou o suor da testa, sua caminhada com a Katia nas costas e munição havia cansado ela, mas o suor era mais provável que viesse do nervosismo. Posicionou seus dedos em volta do grande gatilho e sem exitar pressionou. O som ecoou na mata e Anastasia decolou com Katia, mas foram muito mais alto que o calculado, quase atingiram vinte metros. Vladimir ao perceber a altura que sua amiga havia alcançado tentou correr para que ela aterrizasse em seus braços, mas Ana girou no ar colocando a arma apontada para o solo novamente e pressionou o gatilho quando se aproximou do chão. Um círculo de fumaça negra se formou e Vladimir foi jogado longe, mas Ana estava em pé gargalhando alto, suas roupas com pedaços queimados e fuligem por todo corpo.

“Você disse que essa merda não danificava. Você tá ficando quase sem roupa.” Disse tirando a jaqueta e colocando em volta dela.

“Bem! Não me queimou.” Nunca queimaria, Izbakianos eram muito resistentes ao fogo.

Anastasia vestiu a jaqueta surrada de seu amigo e foram juntos para casa. Chegaram não muito tarde, estranhamente Potrus ainda estava acordado bebendo uma cerveja preta na janela do quarto de Ana. Ao vê-la na rua ele acenou e esperou para que ela se despedisse do amigo.

“Algum plano para Kátia amanhã.” Vladimir sorriu um pouco cansado.

“Alguns muitos.” Riu humildemente. Se abraçaram e foram para seus respectivos lares.


Ana foi até Potrus em seu quarto e o abraçou por trás, se pendurando nos ombros do gigante careca.

“Por que ainda está com a jaqueta do guri?”

“Caramba! Esqueci. É que minha roupa queimou um pouco.”

“Eu sei. Deu para sentir o cheiro de longe.” Entregou um caneco com um pouco de cerveja para a garota. Ela exitou um pouco, mas acabou tomando um gole.

“É horrível!”

“Você que é fresca.” Gargalhou alto colocando suas mãos na barriga e se virando com as costas para a janela.

Os dois conversaram um pouco. Ana explicou como fora o teste e como fez um plano de aterrizagem no último segundo. Potrus deu algumas ideias sobre ornamentos, como deixar aquela arma mais apresentável caso fosse apresenta-la para alguma industria. Quando a conversa estava terminando, um silêncio surgiu devagar.

“Sabe…” Potrus apoiou sua mão na cabeça de Ana e a afagou como um cachorrinho. “… eu não queria que você fosse embora.”

“Onde eu tô indo?” Olhou para ele confusa.

“Pra fora. Arztotska não é o suficiente para você. Tem um mundo inteiro lá fora para você descobrir, e ele vai descobrir você também. Imagine sua Katia sendo apresentada para as indústrias da Corrente Orginsk, ou sua munição propulsora sendo estudada por algum maluco de alguma das ilhas nuviais, ou um contrato com alguma fábrica no leste, você sabe que lá eles adoram ideias novas.”

Ana se animou, tinha confiança que alcançaria grandes coisas.

“Ou… Eu vou fazer mais e mais obras primas geniais, fazendo meu nome e fazendo essa loja crescer mais e mais até se tornar uma grande indústria.” Estendeu as mãos apresentando a fábrica imaginária. “Indústrias Potrustasia.”

“Que nome merda.”

“A gente pode trabalhar nele.”

Mais algumas gargalhadas e goles de cerveja depois, e Potrus ainda tentava convencer Ana que ela devia tentar ganhar o mundo.

“As vezes eu me preocupo. O fato que você não tem nome, já vi que você não gosta muito disso.”

“Isso era quando eu era criança. Os garotos na rua jogavam muito isso na minha cara. Como se eu não pudesse ser nada além do que eu sou agora. Como se meu futuro já estivesse traçado com uma vida como da minha mãe.”

“Sua mãe não era uma mulher ruim. Ela não te deixou aqui por que ela quis.”

“Eu sei. Ela era uma drogada e não tinha como me sustentar e o vício.” Disse com uma voz pesada, abaixando a cabeça.

“Quem te disse isso?”

“Os garotos quando eu era mais nova. É a verdade, provavelmente.”

“Crianças são uns diabos mesmo.” Potrus se virou novamente para a janela. Olhou para o final da rua como se pudesse ver a cena de novo. “Sua mãe apareceu correndo no meio da noite, descendo aquela rua. Bateu na porta desesperada, quando eu ouvi ela já estava gritando meu nome.” Ele encenou as batidas na base da janela. “Eu abri a porta e ela estava de costa para mim, protegendo alguma coisa em seus braços de dois homens com sabres na mão. No reflexo, peguei aquele escudo pesado que sempre ficou perto da porta e lancei contra o da direita. O susto me deu a oportunidade de pular em cima do que sobrou, esmurrei ele até a cabeça ficar desforme. Sua mãe estava assustada, mandei ela entrar, comer e beber alguma coisa enquanto eu me virava com os corpos, escondi os dois e voltei. Sua mãe estava assustadíssima, tremia da cabeça aos pés e te segurava tão forte que quando eu percebi que era um bebê que ela segurava, tive que tirar dela, estava quase te sufocando.” Potrus não estava conseguindo se segurar. “Ela me disse que não podia ficar, que voltariam para achar ela, quando eu perguntava quem eram ela dizia que não podia me envolver mais nisso. Ela pediu que eu ficasse com você, mesmo que isso foi tão difícil para mim.”

“Como assim difícil?” Ana já estava chorando, era a primeira vez que ele contava a história de verdade.

As poucas vezes que Ana perguntara sobre sua mãe, Potrus se inclinava e dizia “Você não sua mãe e o presente não é o passado.”. O que não fazia muito sentido, Potrus sempre contava tantas histórias do passado, mas essa era diferente.

“Sua mãe e eu já nos apaixonamos uma vez, até que ela se envolveu com um cara, me traiu e ficou grávida, sumiu durante uns meses. Eu tinha muita ódio pela sua mãe, mas ainda a amava, e eu não consegui dizer não principalmente para esses olhos enormes olhando para todos os lados com tanta curiosidade.” A mão gigante de Potrus encostou suavemente o rosto de Ana, limpando as lágrimas de sua bochecha, enquanto ele mesmo começava a chorar. “Fui colocar você para dormir em minha cama, quando voltei para conversar direito com ela, não havia ninguém. Corri para rua, mas mesmo assim, nunca mais a vi.”

“Qu… quem eram aquelas pessoas?”

“Eu não sei.”

“Eles nunca mais voltaram?”

“Voltaram sim, mas no início você ficou na casa de Reznikov. Suspeitei que revistariam minha casa ou viriam disfarçados de clientes. Alguns dias eu saia para comprar algo e voltava para loja e ela estava revirada. Alguns meses depois eles desistiram de mim e eu te trouxe de volta.”

“Para onde ela foi?”

“Eu não sei.” Potrus olho no fundo dos olhos amarelos de Anastasia, a abraçou e ficaram assim durante um tempo. Potrus segurou o choro no início, mas depois viu que não havia nenhuma necessidade, se deixou sofrer, se deixou sentir.

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