Anastasia #9
Anastasia acordou em um lugar escuro. O pouco de luz que entrava por frestas na parede de madeira grossa mostrava pouco do ambiente em que estava. Uma cela. O cheiro era forte, forçando a vista um pouco conseguiu ver muito barris, provavelmente de batatas, peixes e afins. As paredes estavam mofadas e o chão estava grudento, quando passou a mão no chão se lembro da sensação de sangue em sua pele, e se lembrou do que fez.
O vômito subiu rápido por sua garganta, mas ela chegou a tempo nas barras, para pelo menos vomitar fora da cela. Aquilo aconteceu mesmo, não foi um sonho. Ana queria que fosse um sonho, mas infelizmente aquela morte ainda a atormentaria por muito tempo.
“Acordou? Bom.” Uma mulher se desencostou da porta e saiu.
Ana andava de um lado para o outro, tentando achar algo para se distrair. Segurava seus próprios braços, se defendendo, com medo de qualquer coisa. Percebeu que estava um pouco frio, e que estava em movimento.
A porta se abriu no fim do porão e dois homens entraram, foram até a cela de Ana e a seguraram pelos braços. Ana estava assustada mas não resistiu. Perguntava ara onde estava indo, mas os dois continuavam com o olhar fixo para frente. Subiram as escadas e a luz quase queimou os olhos de Ana. Quando os olhos se adaptaram a iluminação ela entendeu onde estava. Centenas de metros de distância do chão em uma pequena aéronau, se dirigindo a um grande pedaço flutuante de madeira e ferro.
A cidade de Bacamarte. Parabéns, Ana! Pena que vai morrer.
Os homens ainda a seguravam enquanto a aéronau se ancorava. Ana foi escoltada para fora, e levada pelas ruas. O lugar parecia realmente uma cidade. Alguns prédios nos cantos mais extremos da “ilha” foram destruídos parcialmente, mas já foram reformados, não da mesma forma que eram antes, dando uma impressão estranha para o ajuntamento de arquiteturas diferentes. Mas na parte central era incrivelmente bonito, uma cidade de ricos, mas com homens e mulheres vestidos muito diferentes de um nobre ou mercante.
No centro da “ilha” havia uma praça redonda, com um palanque redondo e lá estavam quase todos da tripulação de Bacamarte que puderam reunir. Mais de quatrocentas pessoas. Todos vestidos de uma forma estranha para Anastasia. Blusas de manga comprida bejes e calças pretas comuns, mas o diferente era o que havia por cima. Muitos cintos, coldres, coletes, jaquetas de couro. Cartolas pretas com faixas vermelha em alguns, outros usavam monóculos de aumento. Todos estavam armados, homens e mulheres com pistolas, bacamartes e sabres. À direita de Ana, ela pode ver um homem com quatro pistolas presas no seu tronco e dois sabres embainhados.
Ana caminhou até o centro do palanque onde foi colocada de joelhos. Uma mulher sorria para o multidão e olhava com desgosto para a menina. Ela era ruiva, mas a cor do cabelo não era mais tão forte quanto um dia fora, estava mais para um castanho. Ao contrário da mulheres que vestiam blusas com manga comprida, ela não vestia nada embaixo do colete de couro sem mangas, deixava ele apertado exaltando seus seios. Andava de forma altamente sensual, mas todos os homens pareciam respeita-la como autoridade.
“Parece que mais uma vez enviaram espiões para sugar informações como mosquitos irritantes.” A mulher gritou para a multidão. “Isso só prova como estão com medo de nós. Estamos causando uma impressão a um tempo já. Eles querem saber nosso segredo, querem nos derrubar pelas nossas fraquezas. Mas a verdade que eles não conseguem aceitar é que: Nossa união que nos faz forte!” Todos gritavam. “E nossas fraquezas são compensadas pelo irmão ao nosso lado, não temos fraqueza!”
A mulher gesticulava e fazia a multidão vibrar a cada palavra. Ficou impressionada, quase vibrou junto, mas se lembrou que o discurso era uma preparação para sua execução.
“Para quem você trabalha garota?” Ela puxou a espada e a encostou na bochecha de Ana.
“Ninguém! Só vim falar com Bacamarte.” Todos riram.
Mas logo o silêncio inundou o lugar, quando uma grande porta de frente para a praça se abriu. Um homem alto, grande, com um sobre-tudo azul escuro com detalhes vermelhos, chapéu de corsário andou lentamente para fora. Ele carregava dois sabres como a maioria dos piratas, mas eles eram maiores, geralmente sabres daquele tamanho seriam empunhados com as duas mãos, mas Ana não duvidaria se um homem daquele tamanho conseguisse empunhar um em cada. Mas o que deixou claro como água para Ana de quem se tratava foi o que estava em seus vários coldres. Bacamarte! Na parte da frente de seu corpo ela conseguiu contar 6 bacamartes distribuídos pelo tórax, barriga, quadril e coxa. Quantos ele deve ter nas costas? Ana se pegou imaginando.
Enquanto ele andava com calma até o palanque as pessoas saiam de seu caminho. O modo em que andava com serenidade e elegância fez Ana duvidar de que fosse o mesmo Bacamarte das histórias. Mas sua barba falha, rosto e mãos queimadas não deixaram dúvidas. Quando ouvira as histórias dele, imaginou que fosse um Izbakiano, por consequência, nunca o imaginou marcado pelo fogo. Suas queimaduras traziam uma história de vitória para si, mas para os outros, trazia uma história de insanidade, bestialidade pura.
Quando se aproximou de Ana, ele se abaixou e colocou seu rosto próximo o dela. As pálpebras de seus olhos mostravam calma, mas de suas pupilas ardia um fogo que nunca se apagara. Ana teve medo, parecia que o monstro iria engolir sua cabeça a qualquer momento.
“Eu sempre ouço Izbakianos.” Ele pronunciava a palavra lentamente, com doçura na voz. “Porque tenho inveja. Se eu fosse como vocês, não teria isso.” Com uma mão ele alisava o rosto da menina, com a outra ele alisava o próprio.
Quando ele se levantou, Ana viu a oportunidade de falar.
“Meu nome é Ana.” O nome fez com que ele olhasse em seus olhos novamente. De cima desta vez. “Estou a procura de uma Izbakiana chamada Anastasia. Me disseram que ela estava com um de seus tripulantes originais, e que ele é meu pai. Eu só quero sab…”
“Sei de quem fala.” Ele olhou para a mulher que palestrava anteriormente e acenou com a cabeça.
Ela levantou Ana e a escoltou para a porta onde Bacamarte havia saído. A multidão ainda estava em silêncio, com exceção de alguns que perguntavam o que estava acontecendo e alguns poucos que sabiam alguma coisa fofocando sobre.
Chegando a porta, mais uma vez Bacamarte acenou a mulher, ela a empurrou para frente e fechou a porta.
A sala era grande, com janelas enormes que entregavam a visão das aeronaves ancoradas ou pousadas. Uma mesa enorme se estendia na frente da janela, onde se estiravam inúmeros papéis, mapas, cartas, relatórios e outras coisas que Ana não entendia. Na parede da direita Ana viu o mapa dos reinos conhecidos pintado, enorme e imponente. Havia algumas linhas vermelhas conectando ou circundando pontos. Na esquerda uma enorme estante com centenas de rolos e duas mesas com ferramentas de navegação e mapas. O lugar todo era extremamente elegante, grandes artesãos fizeram um incrível trabalho. A arte e arquitetura do lugar não tomava inspiração de nenhuma arquitetura específica, era uma mistura de várias e algumas a mais.
Bacamarte se sentou em sua cadeira atrás da mesa e analisou a criança de cabeça aos pés. Ana estava encolhida, aquele lugar a engolia, e estar na presença de Bacamarte não era uma posição confortável para quase todo mundo.
“Quem é você?”
“Sou Ana. Vim de Arztotska.”
“Como soube de Anastasia?”
“Perguntei para muitas pessoas lá em Arztotska.”
“Não minta para mim garota. Quem lhe enviou com essa desculpa esfarrapada?” Bacamarte se levantou com calma.
“Ninguém me enviou, eu só…”
Bacamarte pegou uma das cadeiras que estava na frente da mesa e a jogou em Ana. Rapidamente ela se jogou para o lado.
“Esta será a última vez que vou lhe pedir que não minta.” Ele gritou.
“Não estou mentindo. Só quero saber aonde ela está.” Ana não percebeu, mas também estava gritando. Porém gritava de medo.
Ele andou com passos fortes, fazendo Ana recuar até encostar na porta atrás dela. Encurralando a garota Bacamarte deixou seu rosto novamente perto do dela. Suas pálpebras não estavam mais calmas. Seu rosto estava quase tremendo de raiva.
“Garota!” Ele bufava no rosto dela. “Não sei quem foi mais idiota. O maldito que lhe enviou com esta pergunta ou você por pergunta-la. Me diga quem foi o homem morto que a enviou e ele sofrerá as consequências, ou você pode tomar o lugar dele.”
“Não tem ninguém.” Ana já estava chorando. “Eu só quero saber onde está minha mãe.”
Ele se levantou de repente, Ana estava esperando para ser espancada. Mas quando a porrada não veio ela o olhou.
“Anastasia era sua mãe?” Ana assentiu com a cabeça. “E o pirata de minha tripulação era o pai?” Novamente assentiu.
Lentamente Bacamarte andou até a janela. Se prostrou com o porte de um general observando seu exército. Respirou fundo e Ana sentiu que podia se aproximar um pouco.
“Edward está morto. Seu pai está morto. Era um bom homem, mas morreu antes mesmo que eu conseguisse o Segundo Sol, meu balão-de-guerra.” Estava calmo novamente. Apresentou a informação com serenidade.
“Mas minha mãe?”
“Eu sou um homem que valorizo trabalho, menina. Você teve o trabalho de chegar até Butaninski, mas nenhum trabalho para chegar até aqui em cima. E também matou um de meus homens, você me deve.”
Bacamarte se virou e encarou Ana com um leve sorriso riscando os lábios.
“Só me diga onde ela está e eu sumo daqui. Eu te pago o que devo e vou embora.”
“Uma vida não tem preço em moedas, garota!” A seriedade voltou para sua voz. “Apenas uma vida paga por uma vida.”
Ana estava tremendo novamente, o suor escorreu pelo seu rosto e sua boca secou. Não posso morrer aqui. Olhou por todo lugar, tentou achar algo que pudesse usar como arma. Bacamarte pressionou um botão na mesa e aproximou seu rosto a um metafone.
“Entre por favor.”
Atrás de Ana a porta logo se abriu e a mulher do palanque adentrou.
“Quem foi que a menina explodiu?”
“Marcus.” Ela respondeu prontamente.
Ana se encolheu novamente se lembrando do sangue e do que havia feito.
“Quem era esse?”
“O que ajudava Alexandre, mas depois foi mandado para os batedores.”
“Ah sim!”
“Eu juro que não queria, eu nunca matei ninguém antes. Por favor entendam.” Ana suplicava. Mas ambos a ignoraram.
“Os homens ainda estão lá fora?”
“Esperando por sua decisão, Capitão.”
“Pois bem.”
A mulher novamente segurou o braço de Ana e a levou para fora. Subiram o palanque e Bacamarte colocou suas mãos em seus pequenos ombros. Estava atrás dela. Posso pegar um bacamarte e atirar nele. Mas como passo pelo resto?
“Uma vida só pode ser paga por uma vida. Mas hoje decidi que um serviço pode ser pago por um serviço.” Todos ouviam atentamente. “Esta menina nunca havia matado ninguém. Claro, foi um infortúnio que seu primeiro fora Marcus, mas ainda assim, ela era apenas uma criança assustada. Todos sabem como Marcus podia ser assustador, principalmente quando abria seu sorriso desdentado.” A maioria riu, alguns ainda estavam sérios. “Marcus morreria de qualquer forma em um ou dois anos, nós sabemos que homens como nós não vivem muito. Então quero colocar esta garota em dois anos de serviço obrigatório. Ela trabalhará com Alexandre na forja assim como Marcus fazia, bem, pelo menos espero que trabalhe melhor que aquele bêbado.” Mais uma vez todos riram.
A mulher perguntou quem concordava com aquela decisão e levantou a mão. Com ela uns dez homens e algumas mulheres levantaram a mão, três segundos depois o resto das mulheres e alguns homens, dez segundos e já haviam sessenta com as mãos levantadas. Depois de trinta segundos apenas doze homens estavam com as mão abaixadas.
“Pois bem. Alexandre!” Um velho magro se apresentou a frente. “Leve-a até a forja e aproveite.”
Ana se virou para Bacamarte e suplicou mais uma vez.
“Eu só quero saber onde está minha mãe.”
Ele se abaixou novamente e olhou no fundo dos olhos da menina com um sorriso largo.
“Até onde irá? Para conseguir essa informação?” Se levantou e virou as costas.
“Até onde eu precisar!” Ela gritou. “Ouviu?! Até onde eu precisar!” Ana conseguiu ouvir a risada de Bacamarte enquanto ele voltava para sua sala.