O que representam os gritos “anti-St. Vincent” ouvidos no Citibank Hall do Rio de Janeiro
Ontem à noite, Annie Clark, a St. Vincent, tocou pela primeira vez no Brasil. Foi no Citibank Hall carioca, como atração de abertura do show de Robert Plant, promovido pela Time For Fun como um dos sideshows do Lollapalooza Brasil. Não fui ao show. O motivo da minha desistência em cima da hora tem a ver com o que era óbvio, fadado a acontecer.
Relatos de amigos e de desconhecidos na internet explicitam a falta de respeito que boa parte do público, que estava lá para ver o ex-membro do Led Zeppelin, teve durante o show de St Vincent, uma das artistas mais incríveis da música atual.
Mas a reflexão que proponho aqui é outra: Quem é essa “boa parte do público”, que entoa gritos desrespeitosos, quase sempre misóginos?
São os famigerados tiozões do rock. Mas são, acima de qualquer rótulo e independentemente da idade, pessoas que não são acostumadas a frequentar shows. São fãs de artistas específicos — quase sempre de “rock clássico”, obviamente, porque pra eles o rock, o verdadeiro rock, aquele que faz a mãozinha e lota arenas, morreu. Pagam a fortuna que for para ver seu artista preferido, porque esse dinheiro não faz falta se for gasto duas ou três vezes ao ano. São fechados ao novo e à fragmentação. Esperam, desesperadamente, a ressurreição da figura do Rock Star — que, felizmente, está longe de ocorrer.
Os absurdos gritados contra St. Vincent em nada têm a ver com ela ou com seu lado artístico. Têm, como já disse, relação direta com o desinteresse por parte dos roqueirões, que se recusam a pensar que se faz música boa nos dias atuais. E, intrínseco ao desinteresse, vem o bloqueio com o outro lado da história. Esse bloqueio vai além da música, que é só uma das áreas do mercado e da sociedade em que ele está presente. Pode ser visto, com muita força, na política e no futebol, por exemplo.
Pense naquelas pessoas que, pós-obras da Copa, resolveram voltar aos estádios, impulsionadas pela mídia e pela idolatria ao falecido Maracanã, que foi transformado em mais uma arena qualquer — e com cores de péssimo gosto, diga-se de passagem. (É óbvio que esse retorno aos estádios tem, sim, que ocorrer, mas o fato traz consigo a figura do idiotão.)
O idiotão é o sujeito que vai ao estádio sem paixão, mas com muita (muita!) vontade de se divertir, e com extrema disposição para ser chato. Para ele — e para a sua diversão -, pouco importa o resultado do jogo ou a situação do time para o qual torce: voltará para casa com o mesmo sorriso no rosto, independentemente do que aconteça, pois o estádio é só mais um programinha de um fim de semana qualquer. O jogador, então, representa muito menos: é apenas o cara que está ali para promover a felicidade daquele indivíduo que pagou uma nota alta em troca de um ingresso.
A partir dessa premissa, o espectador — que está longe de ser um torcedor — pensa que tudo pode fazer, doa a quem doer.
É esse o “torcedor” que vaiou Pará, do Flamengo, num dos primeiros jogos em que o lateral vestiu a camisa rubro-negra — mesmo sendo um jogo irrelevante, com o time invicto até então e sem o jogador ter cometido um erro grave. O motivo? A anunciada saída de Léo Moura, que defendia as cores do clube desde 2005.
Pará é St. Vincent. Léo Moura é Robert Plant. E os imbecis são os mesmos, mas em corpos diferentes.
(((Este não é um texto anti-Robert Plant, um músico fantástico e merecedor de toda a idolatria)))