os 15 minutos mais intensos da minha semana
O relógia mostrava 21h30 enquanto a caneta lentamente escrevia o que ditava, em ritmo ainda mais lento, o professor de redação, ensinara que não devíamos ultrapassar as margens da página em nossos textos, nem separar palavras em linhas desrespeitando a separação silábica, fazendo coisas do tipo “trab-alho”, com o começo em uma linha e o final em outra. Não, a aula não era de ensino fundamental ou infantil. Além disso, era dia de jogo do Vasco, meu time do coração, que vinha em péssima fase, mas contra um adversário acessível, podia naquela rodada iniciar sua reação. A ideia de fugir pro bar da esquina surgiu de repente, e mais súbita ainda foi a minha tomada de decisão, mal cheguei a pensar uma vez. Apenas fui.
Cheguei no bar e ao olhar a TV tive o primeiro baque: 1 a 0 pro adversário, escolhi uma mesa, pedi uma cerveja e logo fui “cumprimentado” por desconhecidos que, ao verem minha camisa do Vasco, não se contiveram e comentaram: “tá difícil né amigo rs”, “América e Vasco, é jogo de série B?”. Sim, parceiro, não está nada fácil, agradeço a lembrança e quanto ao segundo, precisei me segurar pra não mandá-lo tomar no cu. Dois minutos depois parecia que a nossa sorte finalmente mudaria, pênalti marcado e bem convertido pra empatar o jogo. Mas tão rápido quanto o gol de empate pra mim(já que havia chegado há dois minutos), foi o segundo gol adversário, que com extrema facilidade pôs a melancolia de volta em meu coração. Depois disso, 10 minutos se passaram, tomei todos os 600ml de cerveja que havia comprado, mas no placar, nada mudou.
Fim de jogo, hora de pagar e ir embora. Eis que, já meio tonto devido à cerveja e minha baixa resistência ao álcool, recebo um recado da garçonete dizendo que uma suposta moça queria meu número. A moça da cozinha. Nos primeiros segundos não entendi muito bem, dei dois passos e fiquei de frente com a tal moça, novamente não pensei sequer uma vez, anotei meu número no papel que havia recebido e deixei no balcão. Paguei minha cerveja e caminhei até a parada de ônibus.
Os primeiros passos foram alegres e o ego inflado quase não me deixava lembrar que lateral-esquerdo Henrique era titular do meu time. Mas durou pouco, antes mesmo de chegar na parada já estava novamente puto, triste e frustrado. Meio constrangido pela camisa que vestia e perguntando a Deus por que eu fui me envolver tão afetivamente assim com futebol. A resposta é que, pra quem gosta, não há escolha, portanto, se você não gosta, dê graças aos céus, isso lhe poupa muito estresse desnecessário. Enfim, não sei se a moça vai mandar mensagem, nem se o Vasco vai se afastar da parte de baixo da tabela, mas se ambos não acontecerem, será apenas uma continuação da rotina, o que valoriza ainda mais os 15 minutos de irresponsabilidade nos quais, no fundo, estive satisfeito por viver. Não tem lição, não tem fechamento legal, esse texto, como um reflexo da vida, é meio lento, chato e besta.
