A distorção dos créditos na UFRJ

por Caio Swan de Freitas

Cheguei nesse assunto pela primeira frente das minhas mudanças pra universidade, o trabalho na representação discente da engenharia naval da UFRJ.

A contagem de créditos é diferente nas universidades, mas creio que esse texto seja relevante para qualquer universitário.

Já notou que matérias com mesma quantidade de créditos exigem dedicação muito diversa?

Eu identifiquei a distorção que faz isso acontecer na UFRJ, acredito que muitas outras devem ser assim também.

Pra começar, pra que serve essa contagem de créditos?

“Então é simples igual a escola”, disse o calouro. (E era mesmo pra ser)

A ideia é que sirva como parâmetro de comprometimento necessário para a disciplina. Uma disciplina de 6 créditos teoricamente exige mais horas de dedicação que uma de 3 créditos.

Bem simples.

Justamente por isso eles são usados como ponderação no cálculo do CR (coeficiente de rendimento) e fator limitante de disciplinas cursadas ao mesmo tempo. Eu posso fazer no mínimo 6 e no máximo 32 créditos por semestre.

O ideal

O que é 1 crédito?

Na UFRJ, ele é definido por uma resolução do Conselho de Ensino de Graduação (CEG) de 1969 (!!!) que se encontra no primeiro item desse link.

Resumidamente, 1 crédito é igual a 1 hora de aula teórica, 1 hora de aula prática ou 1 hora de estudo próprio por semana. Uma matéria que tem 1 hora teórica, 3 práticas e 2 de estudo próprio semanais deveria ter 6 créditos.

Concordo plenamente que esses são os fatores que influenciam o comprometimento necessário à matéria. Há inclusive fatores objetivos na resolução pra quantificar as horas de estudo próprio.

Cada 1 hora de aula teórica requisita 2 horas de estudo próprio. Acreditem, é isso mesmo. O conceito da necessidade de estudo próprio já tinha sido pensado em 1969.

A única falha está em deixar aberto pra decisão dos cursos quantas horas adicionais de estudo próprio devem ser contadas decorrentes de projetos e trabalhos passados ao aluno.

No geral, um método objetivo de mensurar a necessidade de dedicação.

A distorção

A mesma UFRJ, da mesma regra explicada acima, utiliza um critério diferente. Um que não está em nenhum documento formal, apenas explicado sem justificativas numa página de site perdida.

Lá diz exatamente assim: 1 crédito equivale a 15 horas de aula teórica ou 30 horas de aula prática por semestre. Como temos 15 semanas no semestre letivo, é 1 hora de aula teórica ou 2 de prática semanais.

Sim, a princípio parece muito bizarro as aulas práticas valerem metade das teóricas. Eu mesmo já estava revoltado até refletir mais a fundo.

Isso na verdade é um jeitinho de compensar a questão das horas de estudo próprio, o certo seria reescrever: 1 crédito é 2 horas teóricas (1 de aula + 1 de estudo próprio) ou 2 de aula prática semanais.

O original era 1 de aula teórica pra 2 de estudo, mas pensar como acima ainda é aceitável, apenas dividiram o peso de um crédito pela metade.

Isso não criou uma distorção tão grande porque os limites de créditos cursados foram ajustados desde 1969 até o atual se adaptando a isso.

A principal distorção está no desaparecimento da consideração dos projetos e trabalhos na contagem dos créditos, um fator subjetivo que deveria ser definido individualmente pelos cursos pra cada uma de suas disciplinas e é simplesmente ignorado.

Porque resolveram distorcer?

Tem um parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) de 2007 que determina um mínimo de horas de aula pra cada curso (link). Os créditos também só são contados por horas de aula.

Independente de qual foi definido primeiro, é uma relação cômoda. Acaba como uma tentativa de simplificar as coisas, mas que não ajuda ninguém.

A consequência?

Isso prejudica muito os alunos, porque eles não têm um fator objetivo confiável de nível de comprometimento requerido pela disciplina, que deveriam ser os créditos. Acabam precisando se basear apenas na opinião de outros colegas.

Por exemplo, o 5º período da naval de 24 créditos é bem mais puxado que meu período atual (misturando 6º, 7º e 8º) de 32 créditos.

O que fazer?

O primeiro passo é arranjar um jeito de voltar a considerar claramente as horas de estudo próprio e os trabalhos na contagem de créditos, com critérios objetivos não deixando mais margem pra erros.

A maior dificuldade reside em outra distorção, hoje em dia cada professor passa a matéria do jeito que quiser.

Quanto às horas de estudo é até mais tranquilo. A primeira aproximação generalizada como já é feita (só falta deixar claro) de 1 hora de aula teórica = 1 hora de estudo próprio precisa de aprimoramento, mas é um bom começo.

Entretanto, sem um currículo definido da matéria que independa do professor lecionando e determine a existência ou não de projetos, é impossível atribuir créditos a isso.

A saída mais clara é obrigar a indicação no currículo da existência de projeto. Assim dá pra atribuir um valor generalista inicial como das horas de estudo e depois partir pra aprimoramento. Além de padronizar mais as aulas de uma matéria.

Perceberam como uma compensação lá no início levou a uma série de outros jeitinhos que no fundo só acabam complicando as coisas com uma mega distorção complicada de corrigir?

Esses aprimoramentos já podiam estar em andamento desde 1969…

No âmbito geral da universidade, é preciso criar o reconhecimento pela necessidade dessa mudança.

Como fazer isso? Sinceramente, não sei.

Isso acontece em uma alta instância da universidade que eu não sei alcançar e ter voz. Espero que esse texto atinja alguém que reflita, concorde e saiba levar a esse ponto.

Da minha parte no momento, pretendo levar isso aos professores da naval e começar ao menos a corrigir o que está errado inclusive na regra distorcida. Tenho muitas matérias com algumas horas consideradas práticas que são puramente teóricas.

Depois, continuar lutando pelo aumento do número de projetos, principalmente nas disciplinas específicas do curso. Contando com essa base de regras da universidade pra mostrar que isso tem que ocorrer paralelo a uma redução da carga horária da disciplina, pra manter o mesmo número de créditos.

Tá longe de ser o fim, mas é um começo.


Esse texto começou como mais um da rotina semanal de expor ideias novas aqui no Medium. Me levou a tantas reflexões diferentes do que já tinha pensado antes que virou mesmo uma argumentação acerca do que precisa ser mudado nesse assunto.

Acho pouco provável que muitos leiam até o final por ser um assunto que não gera muito interesse, mas sua criação colaborou muito com minha formação de opinião. E vou acabar postando ele mesmo porque meu tempo da semana pra escrever foi usado nele (então não teria outro haha).


Curtiu o texto? Dá uma curtida nele apertando esse coração ❤ aí embaixo. Isso ajuda bastante a divulgar o texto nessa plataforma. Agradecido viu =)