Uma votação de crianças

Por Caio Swan de Freitas

Em algum momento por volta da 3ª série do ensino fundamental participei pela primeira vez na vida de uma eleição. Nesse caso para representante de turma.

As responsabilidades não eram muito claras, no máximo levar reclamações da turma pra direção, mas nessa época a maioria delas era algo como: “Queremos 5 minutos a mais de recreio.”

Mesmo assim, a eleição tomou grandes proporções na turma durante a semana. Os três candidatos (duas meninas e um menino) fizeram campanha com as mais variadas propostas para angariar votos. No fim, o menino ganhou e passou o ano inteiro sem fazer nada como representante.

Em uma época que as crianças ainda se polarizam muito entre meninos e meninas, a eleição virou principalmente uma questão de popularidade. Pra maioria, não importava quais eram as propostas dos candidatos e sim quem era mais amigo deles. Como haviam duas meninas, os votos delas se diluíram e o menino venceu.

Entretanto, havia na sala uma minoria que se importava sim com as propostas dos candidatos e acreditavam que aqueles em quem votassem cumpririam suas promessas. Desses, os que votaram no menino vencedor se desiludiram pouco depois da eleição. Por outro lado, aqueles que votaram por amizade, vendo a falta de iniciativa do vencedor apenas diziam: os outros também não fariam nada e não podiam mudar o resultado da votação.

Se, num caso hipotético, fosse haver uma segunda votação após a apatia do eleito, acredito que os que se importavam com as propostas mudariam seus votos. Apesar disso, não decidiriam o resultado, que continuaria nas mãos daqueles que votavam por amizade (que até já poderiam ter mudado a essa altura).

Isso foi há mais de 10 anos e não me lembro a última vez que essa memória tinha passado pela minha cabeça. Estou assistindo a votação pelo impeachment agora.