A Transparência e o Financiamento Coletivo

Um olhar técnico sobre as doações feitas a Genoino


Se por um lado esse esforço por parte dos apoiadores é genuíno, por outro os que arrecadam em nome de Genoino pecam na transparência.

Circula atualmente na internet uma campanha de arrecadação de recursos para sanar a multa imposta a José Genoino.

A plataforma criada conta com um texto que ressalta os 50 anos de militância de Genoino, e explicita que ele não tem recursos financeiros suficientes para arcar com a multa que tem valor definido em 667,5 mil reais, derivada das acusações relativas ao mensalão. Se não tem recursos financeiros, Genoino vem comprovando que tem uma rede forte que sana a escassez financeira, pois em cerca de um mês arrecadou, de acordo ao site, R$761.962,60 de 2000 pessoas que se solidarizaram.

O sucesso da campanha circula na internet como um caso de sucesso de Financiamento Coletivo (crowdfunding, em inglês). Faz-se necessário, entretanto, pontuar as semelhanças e diferenças entre os modelos de financiamento coletivo crescentes em nível nacional e mundial, e a experiência em evidência.

Financiamento Coletivo é basicamente uma vaquinha online, na qual qualquer um pode submeter um projeto e divulgar para que apoiadores possam apoiar o projeto proposto com o valor que quiser. Ferramenta que vem se popularizando e gerando grandes resultados no Brasil e no mundo, o financiamento coletivo tem em sua essência dois fatores: a mobilização social e a transparência.

O Financiamento Coletivo permite que pessoas angariem recursos para seus projetos, mas para isso é necessário mobilizar pessoas, acionar suas redes e engajar entusiastas. É assim, pulverizando as fontes de recursos, que os projetos que recorrem a esse mecanismo alcançam sucesso. Por outro lado, parte central do processo é a transparência que ele envolve, responsável pela credibilidade dos realizadores dos projetos frente aos apoiadores, e por consequência pela legitimidade que o modelo de financiamento coletivo tem como um todo.

Se por um lado a capacidade de mobilização social em torno de Genoino é imensa, a transparência do processo fica devendo, gerando um desconforto dado o contexto e objetivo da ação, e diferenciado-se das práticas comumente aplicadas no financiamento coletivo.

As diferenças

Tradicionalmente, no que diz respeito à transparência, nas plataformas de financiamento coletivo é possível ver quantas pessoas doaram, quem são essas pessoas e o montante total aportado. Tudo isso é feito de forma automatizada, ou seja, todo apoio gera um registro que fica aberto para que os demais possam ver.

Na plataforma de apoio a Genoino, só pode ver o valor arrecadado quem apoiou, o que gera uma dinâmica de “pagar para ver” atípica e desnecessária, e que pode levar, no caso da superação da meta estabelecida, a que as doações sejam feitas mesmo após meta ser atingida, sem clareza de para que será utilizado esse recurso extra.

Outro fator importante é o fato que não se sabe quem apoiou, mas apenas quanto foi aportado, por dia e no total geral. Esse fato é curioso, dado que em teoria não há razão para ocultar os nomes dos apoiadores, que voluntariamente estão apoiando a causa.

O terceiro fator (o mais preocupante, ao meu ver) é que o mecanismo dos apoio é totalmente manual e que requer um esforço enorme de quem quer apoiar. É necessário fazer um depósito bancário para a conta pessoal de Genoino, enviar um email com o comprovante, declarar a doação em seu imposto de renda e recolher as aliquotas referentes, caso hajam. Ainda, fica evidenciado na plataforma que caso esse processo não seja percorrido, a doação não poderá ser utilizada para estes fins, e não explicita o que acontece com esse recurso que já está na conta de Genoino e não foi declarado. Se isso é ruim do ponto de vista de usabilidade para os usuários, esconde um fato ainda pior. Os dados e valores aportados são inputados manualmente na plataforma, ou seja, não há forma de saber de fato quanto foi aportado a não ser o que foi inputado na plataforma por parte de seus gestores, e não há como saber o volume de recursos que entrou sem estar acompanhado de um comprovante de depósito. A somatória desses fatores deve gerar uma dificuldade imensa em organizar e gerir os recursos que entram, que por sua vez dificultam muito a transparência dos mesmos.

Como exemplo de mobilização, a arrecadação feita em nome de Genoino é definitivamente um caso de sucesso impressionante, são mais de 700 mil reais por parte de 2 mil apoiadores — uma média altíssima caso comparada à dentro do Catarse, que é de (R$124,42) e quase igual à do Kickstarter (R$368), maior plataforma do mundo, que no ano passado angariou mais de 1,1 bilhões de reais. Como transparência, entretanto, a plataforma e o processo fica muito aquém do que tem dado tanta legitimidade ao financiamento coletivo em todo o mundo, e pode levantar suspeitas sobre a origem dos recursos aportados.

Correm também pela internet boatos de que o mesmo mecanismo seria realizado para arrecadar recursos a outros multados pela mesma ação. O uso do financiamento coletivo para questões que envolvem política e polêmica não é novo (entre outros, veja aqui e aqui), mas há que ter cuidado quando o tema é sensível frente a opinião pública, como em um caso tão polarizado an sociedade como o mensalão.

A recomendação é que esses fatores sejam resolvidos antes de replicar, pois da forma como está não apenas pode gerar suspeitas infundadas sobre a arrecadação, como também pode prejudicar injustamente a boa reputação crescente do modelo de financiamento coletivo no Brasil e no mundo, conquistada a duras penas por quem levanta essa bandeira.

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