Mais Crowd do que Funding

Por que o Financiamento Coletivo tem mais a ver com pessoas do que com dinheiro 


Nós, brasileiros, somos reconhecidos por nossa abertura ao estrangeiro, não é à toa que somos vistos em muitos lugares como o povo mais simpático do mundo. Isso reflete de diversas formas em nossa cultura, e uma delas é o abrasileiramento de palavras. Seja traduzindo (outsourcing — terceirização), adaptando (blackout — blecaute) ou aderindo (internet, blog, email), somos campeões em incorporar novos termos.

Por trás da gramática, porém, fica escondido o significado e a interpretação. E, quando falamos de Crowdfunding, há uma questão muito relevante.

O termo Crowdfunding foi abrasileirado para Financiamento Coletivo (FC), uma tradução quase que literal, e vemos que na prática, muitos ainda preferem o inglês, por soar chique e inovador. Mas o conceito e a prática do Financiamento Coletivo, pelo significado separado das palavras, pode gerar um viés de entendimento do que, de fato, representa esse mecanismo — e aqui já estou falando mais de significado do que de gramática.

Ao falar financiamento coletivo, automaticamente nosso cérebro faz a seguinte (e brilhante) conexão: é uma forma de financiamento!

Pessoalmente, e aqui no Catarse como um todo, vemos que o FC vai muito além, e está mais ligado à viabilização do que ao financiamento.

Daí o leitor atento pode dizer, “ei, mas financiar e viabilizar não são a mesma coisa?”

Não!

Por mais que no dia a dia as duas possam muitas vezes ser utilizadas como sinônimos, viabilizar é, basicamente, fazer acontecer. Financiar é conseguir dinheiro para fazer acontecer.

A sutileza da diferença entre esses dois termos esconde uma dedução presente em quase todos nós: para fazer algo acontecer, precisamos de dinheiro. E isso, ainda no campo da sutileza, nos leva a conclusão de que é só com dinheiro que se fazem as coisas.

Oras, isso não é verdade, né? Antes que os críticos mais ardentes se manifestem, não estou dizendo que dinheiro não é importante, e que qualquer um consegue viver sem ele. Apenas afirmo que, para viabilizar algo, há muitos outros fatores complementares ao dindin, e muitos deles estão diretamente relacionados à pessoas e relações.

No FC, a princípio, pode-se entender que o objetivo final é conseguir dinheiro, e essa é uma forma de utilizar o mecanismo. Mas vemos que os projetos mais legais e com maior sucesso são aqueles nos quais o realizador mobiliza, fortalece e expande sua rede — encontra, engaja e se comunica com as pessoas para além do apoio financeiro, pensando em formas de colaborar para além da bufunfa — e vemos que isso pode ser mais poderoso para a viabilização de uma ideia do que a simples busca desenfreada por dinheiro. Abaixo, explico como a partir de um projeto que participei.

Belo Monte, anúncio de uma guerra.

Imagem: Cinedelia

No fim de 2011, fui convidado pelo Digo Castello, financiador coletivo em série, juntamente com o Mundano e Daniel Joppert, para realizarmos a campanha de financiamento coletivo do documentário Belo Monte, anúncio de uma guerra, que retrata a realidade dos povos indígenas e ribeirinhos afetados pela construção da hidrelétrica, dando um panorama político e social a nível nacional.

O diretor, o cineasta André D’Elia, tinha investido todo o dinheiro que tinha poupado para captar cerca de 200 horas de material no Xingu, Brasília, Altamira e outras localidades. Era hora de finalizar o filme, só que o orçamento para editá-lo e lançá-lo era de 600 mil reais (fazer cinema é caro). Optamos pelo financiamento coletivo pois um filme que desafia as decisões do governo dificilmente seria patrocinado por verba pública ou por grandes empresas que tem pactos com o governo — e mesmo se fosse possível, questionávamos a perda de autonomia sobre as informações colocadas no filme. O problema era que o maior projeto de financiamento coletivo no Brasil até então era de 58 mil reais, mobilizados para a criação do Onibus Hacker. Conversando com os fundadores do Catarse, percebemos que seria inviável buscar 600 mil reais, e optamos por reduzir o valor para 114 mil, quase o dobro do recorde anterior, e uma meta muito ambiciosa.

Encurtando a história, deu certo (mas também vale esclarecer que realizar uma campanha de financiamento coletivo é trabalho duro). Batemos a meta em 15 dias. Captamos 140 mil reais em 30 dias. A campanha foi um sucesso. Mobilizamos nossas redes pessoais e tivemos a sorte do tema ser pautado nas redes sociais pela campanha Gota D’Água, na qual artistas globais questionavam a construção da hidrelétrica. Fizemos eventos presenciais onde aconteciam conversas sobre o tema. Articulamos com movimentos socioambientais, culturais, artistas e coletivos. Participamos de protestos, manifestações e vigílias. Nos engajamos no tema, e assim engajamos muitas pessoas (inclusive, nossos pais, mães, irmãos e amigos foram praticamente intimados a apoiar).

A maior surpresa, entretanto, veio no pós campanha. Sempre mantivemos uma comunicação muito intensa com os apoiadores ao longo da campanha, e no fim dela resolvemos fazer uma pesquisa perguntando o que tinha motivado os apoiadores, e perguntando se eles conseguiriam nos ajudar de alguma outra forma para além do dinheiro, dado que nosso orçamento era muito maior que o que havíamos arrecadado.

Os resultados foram surpreendentes. Tivemos cerca de 35% de resposta da pesquisa. Dos 3500 apoiadores do projeto, mais de mil responderam. Cem por cento ofereceu ajuda extra. A maioria, replicando conteúdo da página de facebook do filme, mas outros foram muito além. Conseguimos trilha sonora, trabalhos técnicos de cinema como motion graphics e finalização de audio e cor (todos de altíssima qualidade), pautas em diversos jornais, revistas, blogs e outros meios de comunicação. Conseguimos lançar o filme no Auditório do Ibirapuera, com sala lotada.

Tudo isso foi feito a partir da colaboração de pessoas para além do dinheiro.

Em suma, se formos orçar o que foi aportado por pessoas, via conexões, mão de obra voluntária e engajamento no geral no projeto, vemos que isso foi essencial para o projeto como um todo, e talvez tenha tido até mais valor (se fossemos precificar).

Portanto, encerro aqui este texto ressaltando o título. Cada vez mais, no Brasil e no Mundo, o financiamento coletivo é uma alternativa real para viabilizar projetos, e aí, se bem trabalhado, o crowd vale mais que o funding.

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