Eu jogo LoL, sou gay e tenho uma coisa para dizer

Caio Thompson
Aug 8, 2017 · 3 min read

Hoje a comunidade queer de League of Legends acordou em polvorosa, e não só porque lançaram mais skins Star Guardians (claramente inspiradas no anime Sailor Moon), mas porque um vazamento de informações dos planos da Riot já havia indicado que uma skin específica ia compor este pacote: a do Ezreal Star Guardian, e ela é um pouco…decepcionante?

Não me levem a mal, a skin é linda, mas eu esperava algo mais… queer.

Para quem não joga LoL, Ezreal é um dos campeões que você pode selecionar para controlar durante a partida. Ele é o estereótipo do adolescente aventureiro dos animes, inclusive sua dança é parte da coreografia de Hare Hare Yukai que aparece em “The Melancholy of Haruhi Suzumiya” (a comparação pode ser vista nesse vídeo). Só isso já é combustível para diversos questionamentos sobre a sexualidade do campeão, muitos deles feitos em forma de piada pela maioria homofóbica de jogadores.

Mas Ezreal não é o único campeão do jogo com uma leitura queer, e definitivamente não é o que mais expressa isso. Campeões como Taric, Vi, Kayn, Sejuani e Diana entram na lista de campeões cotados como sendo queer pela comunidade jogadora. Outras coisas menores como Pix, a fada companheira de Lulu, ser do gênero masculino (um fadinho?) e Rek’Sai, um tubarão do deserto, caçador implacável de outra dimensão, ser fêmea, mostram uma certa preocupação da empresa em expressar um pensamento progressista.

O primeiro campeão que me atraiu a atenção nesse sentido foi Illaoi. Apesar de a adição de Vi ao jogo ter indicado que a Riot já estava planejando englobar um novo nicho de jogadores, Illaoi para mim foi um acerto tremendo. Foi a primeira campeã negra do jogo, construída como uma sacerdotisa que se enfia no meio da briga e DESTRÓI o time inimigo inteiro (sério, você não quer enfrentar uma Illaoi forte no meio do jogo). Essa caracterização foge completamente do estereótipo da mulher negra (e gorda) que performa um papel maternal.

Quando eu vejo o potencial de a Riot questionar os padrões e provocar a reflexão nos seus próprios jogadores (em sua maioria homens muito machistas, racistas e LGBTfóbicos), além de proporcionar uma experiência de identificação pelo puro fato de existir um campeão fora do padrão, eu pergunto: quando é que vamos ter essa experiência com algum campeão declaradamente queer?

Tá, ok, você pode me dizer “mas Caio, só por existir esses campeões que não performam uma heterossexualidade tóxica já dá vazão para a comunidade queer se sentir incluída”, e eu digo que sim, isso é verdade! Mas isso é o tipo de coisa que nós fazíamos na década de 1920, quando íamos ao cinema para coletarmos as migalhas jogadas pela indústria heteronormativa hollywoodiana. É 2017, o movimento queer no mundo já possibilitou a conquista de direitos que garantem minimamente que existirmos é “ok”, e estamos conseguindo espaço no cinema, na televisão, na música e até nos jogos (alô Overwatch). É inaceitável a Riot continuar com essa postura de enfiar suas personagens dentro do armário. Se é permitido explicitar o romance de Xayah e Rakan (sério, eles tem infinitas falas sobre como eles se amam!) também deveria ser permitido explicitar o interesse romântico de campeões por outros do mesmo gênero.

Qual o ponto em parar na ambiguidade?

Eu tenho uma teoria: queerbaiting, que é basicamente quando o autor (ou no caso a empresa) dá indícios de que uma personagem possa ser queer mas nunca confirma as suspeitas. Essa prática tem o propósito de atrair o público queer sem colocar em risco a audiência do programa, ou, no nosso caso, não perder jogadores LGBTfóbicos e se complicar com países em que ser queer é um crime ainda. A mensagem que isso passa é que só é “ok” não ser heterossexual se você está dentro do armário, e nós já estamos cansados disso há muito tempo. É hora da Riot colocar as coisas às claras, botar a cara dos seus campeões no sol e passar uma mensagem mais positiva para seus jogadores queer.

Make Ezreal gay again.

Caio Thompson

Written by

Gay e graduando em comunicação. Gosto de escrever sobre cinema e cultura LGBT.

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