Breve nota sobre você

Nariz com nariz, sinto o cheiro de sua maquiagem, em tom do corpo cor de bronze. Atrás dela, vejo a pele imperfeita de uma manhã de sábado na casa de desconhecidos. Esquecendo da hora, corro lento descendo seu rosto. Encontro a boca, cortazareana, “uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri embaixo daquela que minha mão desenha”. Por ela entro na bagunça, na criação de pais ausentes, nas famílias feitas e desfeitas na noite passada na rua Augusta.

Você responde perguntas que ainda não fiz passando a mão pelas minhas costas, escrevendo com a unha poemas de amor, olha pra mim, eu que te olho com olhos caídos de bêbado, como gata no escuro. Então é pele com pele, confundida com tecido de sofá, silenciosos na cabana de edredom ou rolando em tapete.

Me pede pra ficar, como se eu quisesse ir embora, sem prometer mais nada. As coisas resistem ao balanço dos trens e as escadas rolantes quebradas.