Pis-aller

Que falta faz, morena, sua presença de girassol neste inverno. Faz frio, manhã e noite. Faz frio, dentro e fora de mim. É agosto, só florescem crisântemos.

Compreensão divina essa que se tem sobre todas as coisas quando acabam. Enxergar os erros do desenho pronto, dos prédios erguidos, dos corações partidos. A estrutura imperfeita vem ao chão, mas também não caem das árvores as frutas maduras? Os erros nos redimem, escreveu Agualusa.

Penso agora, nos agoras, essas palavras que já pensei antes, tantas vezes. Nascem as frases sem saber se fui eu quem as criou. Porque o eu ainda está lá, bebendo sozinho naquele bar, esperando você aparecer, esperando você dizer que não me deixa ir. O eu, que é o outro, ainda escuta o outro que diz “bebida em excesso, droga em excesso, sexta é feita de excesso” e compreende, agora e antes, que todo excesso é ausência.

Ainda agora eu espero, e, estando aqui, você não chega. Eu cresço, aprendo, mas não te alcanço. Sendo forte, não venci seus medos, não quebrei seus muros. A força que mantém seco os olhos é a mesma que mantém aberto o sorriso, tão poucos sabem disso além de mim e você.

Já era tarde, é e será, e eu não me deixei vencer. Fumo mais um, peço mais outra, no presente e no passado. Sólido, mas frágil como cadeiras de bar.