Remendo de anotações

Repito o tema, pois nada me sairia se tentasse escrever sobre outra coisa. Você, que me invade as linhas por me invadir a cabeça por me invadir a vida, é a monotemática razão da prosa. Se preferisse, faria em versos. Só não espere de mim métrica nem medidas, não sinto como um soneto e mal compreendo a disposição do rimário de uma décima ou o que é ou não é verso alexandrino.

Faz frio lá fora. Te espero numa cama na qual você não chega hoje, talvez amanhã ou outra data próxima, mas que também não deixa de estar deitada com a cabeça encostada no meu ombro, sorrindo sem estar acordada, sem estar aqui.

Ainda sim, deixo o quarto arrumado, guardo alguns cigarros caso você apareça e separo qualquer poema de Dylan Thomas pra ler pra você amanhã de manhã como separei a roupa que você esqueceu aqui na semana passada.

Tudo está em ordem. Na mais perfeita ordem que existe atrás da bagunça que temos acolhido como nosso próprio tipo de ordem. Saldo negativo, fatura do cartão, mas sempre dois ou três amigos dispostos a pagar cervejas e gastar horas de sono que já se fazem tão necessárias.

Então, você chega em casa. Sua casa, casa errada. Conta do seu dia, diz. Digo. Liga antes de dormir, digo. Liga. Só queria ouvir sua voz, digo. Vai dormir, vai, diz, cê tá cansado.

Dormimos. Eu aqui e você aí, mas lá, com a cabeça encostada no meu ombro, tão distante.

Talvez, você leia. Talvez, goste e sorria e me corrija a gramática de puro orgulho que não admite dizer que gostou e que sorriu.

Amo você, digo. Amo mais, diz.