O que você faz nos dias em que o sol não sai?

Caique Dumont
Aug 26, 2017 · 4 min read

O que você faz naqueles dias em que o sol não sai? Em que a sua alma acorda resfriada e seu ânimo meio cinza. Eu queria dizer que eu dou a volta por cima e transformo meu dia em um mar de alegria. Mas não é bem assim…

Imagem: Google

Amanhã é dia de uma reunião super importante para Mari. Está ansiosa. Ela irá apresentar uma proposta que poderá fazer toda a diferença na empresa. Na verdade é o seguinte… ela sonha em se tornar sócia da empresa desde a faculdade. Há cinco anos conseguiu uma vaga como estagiária. A vontade era tamanha que seis meses depois já estava contratada. Assistente de Marketing Júnior. Tantos projetos e tanta dedicação rendeu a ela, em apenas 2 anos, o cargo Coordenadora de Marketing. A Diretora do setor deixou o cargo há 2 meses e até agora ninguém ocupou a vaga. Há exatos 2 meses Mari não dorme, noite e dia planeja conseguir o cargo. Pensou, passou noites em claro, abandonou o namoro, se dedicou integralmente. Tudo pensado passou para o papel, que passou para o Word, que passou para a apresentação de Slides, que passou para as garrafas de vinho controladoras da ansiedade, que não passa.

Foi dormir cedo, amanhã é o grande dia. Banho de ervas, escalda pés com sal grosso e camomila, orações antes empoeiradas. Tudo pronto. 1h34. Boa noite. Acorda 3h11 da manhã. Vira para os 4 lados. Dorme às 3h43. Acorda às 4h25. Dorme às 4h47. Acorda às 5h12. Dorme às 5h14. Acorda às 6h33. Dorme às 6h53. Dorme. Dorme. Dorme.

Despertador indica sete horas da manhã em altos decibéis. Ela ignora. Parece esquecer do que se trata. Soneca automática. Despertador novamente. Agora 7h10. Desliga. Aguarda o alarme das 7h15. Agora não tem mais jeito. Tem que levantar. Mas não quer. Indisposta. Cansada. Não está num dia bom. Mas aquele dia é o mais aguardado dos últimos 5 anos. Tem que ser um dia bom. Sua alma acordou resfriada. O sol não saiu ali dentro. Faz frio. Tem vontade de chorar. Não quer sair de casa. Pensa em desmarcar a reunião. Entra no banho na esperança de tudo mudar. Sai do banho e nada mudou. Alma quando acorda indisposta precisa de descanso, não há o que fazer. E ela sabia disso, mas não tinha como descansar. Se arrumou. Foi difícil, forçado. Mas ela foi lá e fez o que tinha de ser feito. O uber cancelou. O taxi não apareceu. O ônibus não passou. A blusa manchou. O croissant não desceu. O leite azedou. Mas ela seguiu. Ignorando tudo que acontecia com sua pele. A alma parecia dormir enquanto ela caminhava. A empresa chegou. Ela não. Só o corpo estava ali. Subiu. Entrou na sala. Todos a aguardavam. Estavam ansiosos. Ela não. Parecia não sentir nada. Não era o seu melhor dia. Queria aquilo, como nunca quis algo na vida. Mas não queria hoje. Não naquele momento. Não tinha opção. Respeitou o que sentia. Abriu o notebook, ligou o projetor, deu bom dia a todos e começou. Tinha vontade de chorar. Sentia um aperto no peito. Queria o colo de sua mãe. Sentiu saudades do ex-namorado. Sentia o peso da responsabilidade. Tinha medo de não dar certo. Queria morrer. Queria comer. Queria ver aquilo logo acabar. Mas seguiu, fez o que tinha de fazer, aquilo que se preparou para fazer. Notaram que sua energia estava baixa. Ela concordou e continuou. Íntegra. Dilacerada, mas inteira na parte que lhe restava. Sem esconder, sem interpretar. Potente em sua dor. Uma brilhante guerrilheira de suas batalhas internas.

A reunião acabou. Eles ficaram de pensar. Mais uma vez disseram que ela estava estranha. Ela disse que não estava bem. Eles entenderam. Ela entendeu. Lamentou, mas entendeu. Mas a carne fraqueja. Foi para sua casa. Chorou copiosamente durante 3 longas canções de Etta James. Em “These Foolish Things”ela desabou. Não entendia porque justamente hoje. Porque justamente ela. Chorou mais. Viu uma garrafa de Jackie escondida ao fundo. Abriu. Acomodou 3 dedos de destilado em seu copo americano sujo de café. Já não se preocupava com aparências. Bebeu de uma vez só. Deixou o amargo tomar conta de seu peito. Foi quando uma lembrança doce veio em sua memória. Seu pai a levou ao parque. Ela chorava de medo na roda gigante. Ele a abraçava sem dizer nada. Ela chorava mais. E ele continuava a abraçá-la, com o mesmo carinho. Sem pedir para que ela parasse. Apenas aquecia sua alma enferma. O telefone faz barulho de nova mensagem. Marcos. “Gostei da sua apresentação hoje. Parabéns Diretora”. O copo cai no chão. Se transforma em vários pequenos pedaços enquanto o coração se junta…

Caique Dumont

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Caique Dumont

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Comediante, escritor e ator. Live in São Paulo/Brasil caiquenocaminho@gmail.com

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