mais um de seis minutos

Tenho tido mais medo do que leitores. Não é como se isso importasse agora, aos 22, inerte, estacionado em lugar algum. Não faz diferença. Hoje é algum dia da semana que não faço ideia qual é, à tarde, agora, umas 16:17, e poderia estar bêbado, jogado, filosofando as coisas que a lucidez diz não, pune, estropia. “Silêncio, Cairo”, ela diz, me olhando torto. “Quem é você?”, eu pergunto, atônito, pronto para partir o mundo em dois. Mas não há ninguém. É essa voz aqui dentro, parceiro. Essa voz aqui dentro da minha cabeça que a qualquer momento desse vai parar de gritar, e eu não vejo hora. Tenho tido muito medo das coisas. Tenho escutado pessoas — dessa vez, pode acreditar, reais — falando coisas que eu não diria a ninguém. Tenho pensado que talvez aquele dvd no chão, com palavras bonitas, aquele ali, bem do lado da cama, nesta bagunça, talvez ele tenha alguma resposta para me dar a essa hora do dia. É provável que tenha alguma coisa lá. Amanhã é só mais um dia. Eu sei, ué, eu sei que sim, porém essa voz escrota não para de repetir vez após vez que amanhã tudo vai continuar igual. Sei lá. De mim não sai mais nada que preste, nem mesmo as palavras — se é que elas um dia tiveram algum valor. “O que você está fazendo da vida?”, ela me pergunta, porra, acredite. E eu respondo um curto e sonoro “porra nenhuma”. É o que tem pra acompanhar o café.

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