sexta

Fazia frio. Tateou as gavetas à procura de um cigarro, a necessidade da fumaça na boca aparecia cedo, como quem não queria nada. Deu três passos para frente, nu, olhou-se no espelho que ia do chão até o teto, vertical. Observou as próprias formas, a barba que já tinha passado da hora, os pelos, a finura dos braços. Pôs uma cueca. Pensou em algo para distrair a mente, mas era cedo, cedo demais para qualquer coisa. O malte do uísque ainda passeava pela boca entre um arroto e outro, a noite anterior havia sido pesada demais para ele. “Mas que bosta”, exclamou, olhando a rua lá fora, por uma janela que dava de frente para um prédio ainda em construção. “O que há para ser feito numa sexta-feira chuvosa?”, questionou-se, ainda em transe com as memórias que o atingiam de minutos em minutos.


As roupas no chão, dispostas como se não existisse armário no quarto, eram o seu orgulho. “Isso seria uma obra de arte vista de cima”, ele dizia, sempre que parava para pensar por que não arrumava aquela bagunça. Pôs a água do café como sempre fazia, preto, sem açúcar. Puxou o filtro, pôs o pó vagabundo ali dentro, duas colheres pequenas, e encheu de água quente, fervendo, que se misturava ao pó e caía na garrafa térmica. Como sempre, fez mais do que aguentaria beber. Sentou-se na cama por um tempo, encostou o joelho direito contra o peito e apoiou a cabeça, abraçado, ficou ali fitando o vazio, recobrando a consciência. Procurou a calça da noite anterior pelo chão numa velocidade que fazia jus aos seus bons tempos nas quadras, quando jogava futebol no time da escola. Achou a droga do celular, olhou-o como se olha com desprezo. “Vamos ver os prejuízos”, pensou alto, quase que se punindo.


Não havia sequer uma mensagem. Pôs o café num copo de bar, aqueles de cerveja. Assoprou, assoprou, nunca se deu bem com quentura. Bebeu o café e logo fumou mais um cigarro, observando a rua lá fora. Era cedo, não tinha nada para a sexta feira. O cabelo bagunçado, pedaços de feltros de travesseiro enroscados na barba, olhar cansado, era assim que ele estava. Havia algo de particular naquilo tudo, pensava. Tocou o peito, sentiu as camadas de gordura que ali faziam morada, achou a cicatriz da época de moleque. Sorriu leve, como se lembrasse de coisas que há muito não batiam na sua porta. Ele atendeu como um bom anfitrião. “Fiquem mais um tempo”, ele pediu, quase que em tom de reverência. “Não, não podemos, você sabe disso”, e assim as lembranças foram sumindo na sua frente, segundo após segundo, como se fossem miragens ou coisa do tipo.


A chuva caía forte lá fora. O sol havia dado lugar àquela sensação de morte iminente, de vida nublada. Cansou-se de esperar as coisas lá fora acontecerem, resolveu cuidar da vida. Foi ao banheiro, o espelho tinha uma rachadura na transversal, e ele sequer se lembrava como conseguiu aquele trambolho defeituoso. Tirou a pouca roupa que vestia, testou a temperatura do chuveiro vagabundo que quase sempre o deixava na mão. Estava quente. Deixou a água castigar a cabeça, as costas, passou ali alguns minutos, resignado, pensando e pensando e pensando. Procurou a toalha azul, bordada com seu nome em preto, pendurada no box e saiu.


O choque térmico era inevitável. Vestiu uma cueca samba-canção jogada no chão, aquela branca com quadrados azuis, a sua preferida. Não havia mais nada a ser feito. Sentou-se frente ao notebook antigo e esculhambado, fez fé para que ligasse. A luz acendeu, finalmente, e ele até brincou sobre agradecer a Deus, fingindo acreditar em qualquer coisa que fosse. Acendeu outro cigarro, pôs do lado da boca, fitou o vazio como se procurasse dentro de si uma resposta para as coisas que o atingiam agora com tanta avidez. Pôs-se firme frente ao computador, abriu um daqueles programas de editores de texto. Pensou na aflição, nas coisas que o atormentavam, pensou na dor e nas complicações de uma vida inteira. Era cedo, ora, era cedo demais. E então começou a bater os dedos nas teclas numa velocidade impressionante.


“Há sempre um vazio aqui dentro quando não estico meus pés e não encontro os seus. Há sempre um coração estilhaçado quando penso nos bicos dos seus peitos enrijecidos de tesão na minha boca. Há sempre um vazio quando não toco seus cabelos, quando sinto o calor do teu corpo, quando não passo a minha barba pelo seu pescoço. Há sempre um vazio perene quando não te tenho aqui comigo, gemendo baixinho no meu ouvido, me pedindo para te comer, te foder mais e mais. Há sempre um vazio quando acordo cedo, numa sexta feira, sem saber por que diabos ainda estou vivo. Há sempre um vazio, um vazio grande o suficiente só para mim. Há sempre um homem solitário, com uísque no corpo, cigarro na boca e uma cicatriz no peito. Há sempre eu. Há sempre você. Há sempre coisas que jamais te direi em voz alta outra vez. Há sempre saudade na minha cama vagabunda. É que falta você aqui, comigo. ”


Leu o que havia acabado de escrever, levantou, pensou que seria absolutamente desnecessário pôr nos sites de redes sociais dos quais fazia parte. Sentiu um frio tremendo na barriga, daqueles que aparecem sempre que as coisas estão para enlouquecer. Procurou companhia na televisão, mas já estava de saco cheio de tanta notícia repetida, tanto suíte desnecessário. A barriga vazia roncava, roncava, e a cabeça estava à mil. Abriu a geladeira, havia queijo, pizza marguerita de dias atrás e umas cervejas. Optou pela cerveja. Recostou-se junto à parede da sala, bebeu no gargalo os 330 ml, tentando extrair de si mesmo qualquer coisa boa o suficiente para seguir em frente. “Hoje é sexta feira”, levantou-se como quem emerge das profundezas e continuou, como se tivesse tido a ideia da sua vida, “preciso escrever sobre qualquer desgraça agora”. Sentou-se outra vez na cadeira, negando a si mesmo o tanto que havia a ser dito. Já não era assim tão cedo, já estava na segunda garrafa de cerveja, e muitas coisas ficaram ali, em estado de espera, prontas para serem ditas. Então, ele começou outra vez.


“Olá, querida,


Desculpa aparecer assim, de repente, nunca fui muito bom em voltar atrás, e você bem sabe disso. Faz algum tempo que não nos vemos, não? Pensei que talvez essa coisa fosse arrefecer uma hora ou outra; talvez até devesse, mas é que não tenho mais ninguém para falar. Continuo o mesmo, se quer saber. Disse que não ia mais te procurar, que você merecia coisa melhor, muito melhor, e talvez eu estivesse mesmo lúcido quando disse isso. E você me falou que não, me abraçou forte, pediu que eu ficasse. Eu fui embora às pressas. Não espero que leia, sabemos que não mereço, mesmo. É que estava aqui pensando com meus botões, sentado no chão da sala, com as costas na parede, estirado, e minha mente sempre me levava até você.


Não espero que me entenda. Não espero que volte. Não espero que bata na minha porta com aquele vestido que gosto, com o cabelo preso, rindo para mim, me provocando a cada cinco segundos. Não espero que me deixe sentir o seu corpo gostoso outra vez, não espero que me queira aí nos teus braços, ou que queira ficar aqui nos meus, deitada, assistindo àqueles filmes que sempre acabo dormindo, mas que você adora. Tentei de todas as formas tirar o corpo fora disso tudo, deixar que você encontrasse alguém à sua altura, que pudesse proporcionar todas as coisas que você merece.


Mas a vida é mesmo complicada. Cá estou, sem você, sem nada. A vida é mesmo assim, não? Tacanha ao extremo. Diminuta. Pensei em ligar, me desculpe, mas seria coragem de mim para alguém como eu. Como disse, isso aqui não significa nada, não é nada, nadinha, é só uma forma de seu silêncio me punir ainda mais. Queria você, mas fraquejei. Queria sua companhia, mas fugi. Queria sua quentura, seu fervor, mas pensei demais. Agora já não sobrou nada, nem sequer vestígios daquele sorriso lindo que você me dava toda manhã. Ficamos em silêncio, no fim das contas. Já não posso reclamar do quanto sua felicidade ao acordar me irrita, não? As coisas são assim. Acabam. O tempo vai silenciando tudo…


Queria te ver. “


“Não! “, ele gritou, ”não vou levar isso adiante”. E apagou a sua cartinha sem remetente e destinatário. Deixou o corpo cair para trás, pensativo, sendo seguro pela cadeira de rodinhas já desgastadas pelo tempo. Estirou-se. Olhava para o teto branco, tentando tirar alguma resposta, achar algum norte. Levava a cerveja até a boca repetidas vezes, já cansado daquilo tudo. “Sexta-feira é sempre complicado”, disse, sorrindo, com os olhos fechados, como se lembrasse de algo bom demais para ser dito em voz alta. Apegou-se ao que tinha. Foi dali para a cama. Ficou pensando sobre o que escreveu, sobre o que te faltava, sobre o que queria. Gargalhou alto o suficiente para ser ouvido no andar de cima. O apartamento vagabundo e caindo aos pedaços era muito pequeno para os seus desejos. Decidiu que sairia à noite outra vez. Era o que restava, afinal. Não havia mais nada naquele vazio cheio de desejos impossíveis. No entanto, em dias assim, ele sempre conseguia viver um pouquinho mais, um pouquinho mais intenso, mais forte. A chuva caía forte lá fora. Era uma sexta-feira chuvosa, fria e vazia. Acontece. O tempo sempre cobra.