Carta ao meu primeiro amor

Já vão quase dez anos desde que você aconteceu na minha vida. Para mim, esquisita e ainda não adaptada com o florescimento de uma beleza notável, que até agora não recebo bem como minha; me achava desprovida de qualidades e alheia a esse mundo de arrebatamentos: e você aconteceu.

Foi meu primeiro amor. Não o primeiro namorado ou o primeiro beijo (só um ano depois eu estrearia desastradamente nesse mundo), mas foi a primeira fagulha de um sentimento que causava taquicardia, olhos brilhando e sorrisos eufóricos. Também fazia com que eu não quisesse lavar algumas roupas e jogar fora alguns objetos porque você tinha tocado neles. Eu era adolescente, afinal.

Lembro bem que gostei de você porque havia alguma coisa bonita que provocava e chamava para isso, que ia além de qualquer consideração por beleza física. Era algo mais forte, de músicas interiores em uníssono, sintonia, adoração. Um pouco também de milagre, como todo amor é de início, exatamente porque nada se sabe. E eu tive toda delicadeza e reciprocidade de que precisava para que em mim se criasse um horto de idílio.

Você sabia do meu amor, da minha vulnerabilidade, e poderia ter feito muita coisa diferente. Mas por respeito e também por amor por mim-não exatamente aquele que o meu eu adolescente esperava, você recuou com uma sutileza que para mim tornou tudo indolor como se imerso em mágica.

O que agradeço profundamente (e com um sorriso nos lábios) é que isto não foi quebrado porque você escolheu não alterar e preservar o que éramos. Meu primeiro amor não foi um abusador, e sim alguém que me respeitou e entendeu tanto que compreendeu todos os limites existentes e não ousou ultrapassá-los. Minha eterna gratidão por me mostrar uma vez o que mereço. Esse respeito pelo que eu precisava, essa entrega atenta e devota. E também por me fazer saber que não devo aceitar nada menos que isso, esse cuidado e esse carinho acontecendo apenas porque sou eu brilhando e me mostrando como sou, e isso é maravilhoso porque carrego mundos de surpresas e assombros em mim.

Hoje acumulo amores contrariados, mas a lembrança desse momento tão delicado e perfeito me sustenta para seguir em frente. Mereço a beleza, a paz e a de toda magia que ainda houver para mim nos meus amores. Se não for assim, saberei que é falso e pode ser tudo, menos o sentimento genuíno.

Com toda alegria e gratidão do mundo,

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