Um corpo feminino nunca é só um corpo
A nudez e alguns de seus símbolos

A nudez pode ter vários significados. Pode vulnerar uma pessoa tanto quanto pode libertá-la. Fiquei um tanto pasma ao me deparar com pessoas que realmente não sabem que um corpo nu pode significar algo além da sexualização e objetificação usuais. Muita gente com graduação na área de ciências humanas. Que viu antropologia e sociologia na universidade. Que já tá fazendo pós. Por isso esse texto. Vai uma Del Priore também explicando esses significados de um corpo nu. Se ainda assim não rola entender, Wikipedia, em perspectivas históricas e antropológicas.

Há algum tempo algumas moças VOLUNTARIAMENTE postaram fotos de nudez em apoio à meninas que tiveram fotos íntimas INDEVIDAMENTE compartilhadas na internet para apoiá-las. Essa nudez não é sexual, essa nudez é um protesto político. É uma nudez de solidariedade primeva. Uma nudez que permitiu às vítimas encontrarem apoio e solidariedade, demonstrando que não há nada errado em ter uma sexualidade e vivenciá-la.

E as aldeias que culturalmente expõem o corpo como um todo ou partes deles? Outra perspectiva para a simbologia da nudez. A nudez usada para torturar e ameaçar nos paus-de-arara? Mais outra. Dessa forma, eu não consigo entender como não se contextualizam as formas de exibir o corpo. Na verdade, eu entendo e acho que não passa mesmo de má-fé. Ignorância mesmo eu não consigo acreditar que seja.

Houve quem comparasse o contexto de libertação explanado acima a uma proposta que Pugliesi fez essa semana, que resumidamente era: mandar uma foto nua para uma amiga e caso houvesse ganho de peso, esta compartilharia a foto como forma de “punir” quem engordou. “Mas ela não tá brigando ninguém.” Verdade, a gente não precisa de uma musa fitness obrigando ninguém a fazer nada nessa sociedade em que uma das perversões sociais públicas (termo que se explica como uma distorção maléfica de um conceito originariamente diverso do significado sócio-cultural que lhe foi atribuído de modo primário; o exemplo mais utilizado é o nosso casamento burguês por amor, agravante de um discurso preexistente de controle social e patrimonial feminino) mais recentes é a obsessão pela magreza. Magreza essa que serve como um dos mais fortes pontos de controle sobre o corpo feminino. O corpo, de novo. Nesse ponto, meu feminismo me ajudou a superar muitas dessas armadilhas disfarçadas de “preocupações com a saúde e bem estar”.

Desvencilhar-se desse tipo de armadilha retórica que confunde para convencer é importante porque o corpo feminino é um símbolo poderoso. Tanto de opressão quanto de poder. Eu escolhi o lado do poder. Do empoderamento do meu corpo como ferramenta de combate a esse controle insano do “pode” e “não pode”: “tatuagem, só se for discreta. Gordura, só nos lugares certos, mas também não pode ser só pele e osso. Magra, mas com saúde que ninguém gosta de gente louca e obcecada, mas tem que vestir 36, viu?Cabelo curto, mas só se for feminino. Cabelo cacheado, mas não demais porque parece sujo”. CHEGA.

Apesar das pressões, dos comentários e das mulheres das revistas, houve quem dissesse que basta disso. Mas não é nem nunca será algo fácil. Algo que não desafia nossa autoestima e construção de imagem todos os dias. Além de ativistas de um movimento, nós feministas somos pessoas, e como qualquer delas, com emoções e opiniões pessoais. Mas para passar além do Bojador… há de se compreender a própria dor e a dos outros, e ajudar a desconstruir pensamentos absurdos.

Toda vez que ouço a pergunta “você é feminista?”, já vou me preparando psicologicamente para o turbilhão de fezes em forma de fala no qual serei envolvida. E para as incoerências que vou ouvir de gente que apenas não suporta uma pessoa com pensamento livre, apta a concordar e discordar mesmo de correntes do próprio feminismo (sim, são muitas, e não concordo com todas, embora ouça e respeite).

É geralmente por esse ponto que falam do FEMEN. Bem, aquilo pra mim nem é feminismo pois nem todas as mulheres podem ingressar no grupo, a menos que sejam jovens com belos seios. Isso não é feminismo (meu feminismo é de inclusão de todos os corpos), é outra coisa. É uma fetichização brutal e de mau gosto com o feminismo, movimento que liberta mulheres em todo o mundo.

Antes de ironizar uma feminista, pense em Malala, que quase morreu para que mulheres pudessem estudar. Em Marguerite Duras, escritora genial que marchou pelo aborto e fez de sua vida resistência política em todos os sentidos. Em Pagu, que fez da cultura uma voz feminina. Nas sufragistas. Nas mulheres que morreram queimadas. Nas moças de Teresina que ontem protestaram pelo direito aos próprios corpos.

A conclusão inevitável é: lutar por um corpo livre, em todos os contextos, é também lutar por uma mente livre, eis que estes não se separam.

*antecipadamente, peço desculpas por algumas imprecisões de nomenclaturas.

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