Vergonha

Tenho hábito de manter diários desde os 11 anos.

Outro dia, para rememorar um período da minha vida de que estava nostálgica, entre 2010–11, peguei um deles e comecei a ler. Descobri que pouca coisa justificava tamanha nostalgia e que aqueles eram tempos muito ruins, em que eu estava cercada de pessoas más e desagradáveis.

Então, se isso acontece na minha história pessoal, em 25 anos de vida, imaginem com um país que não tem cuidado de preservar sua memória (ou melhor, tem todo o cuidado, editando recordações minuciosamente com ajuda de veículos de imprensa). As atuais ondas nostálgicas de regimes políticos cruéis e absurdos são o reflexo de uma sociedade que, quando não ignora seus próprios horrores, curva-se diante deles: “na ditadura que era bom, porque não tinha vagabundo protestando”. Os “vagabundos” são os que não vestem verde e amarelo, que não têm metrô de graça nem PMs pacíficos para tirar selfies em seus protestos. São “minorias” lutando por alguma dignidade e que, ironicamente, são a maioria da população.

Na verdade, a ditadura civil-militar no Brasil realmente não atingiu muitos dos que pedem a sua volta. Boa parte da população brasileira da então classe média-as pessoas da sala de jantar-eram a personificação da tríade “Deus-pátria-família”, e seus filhos também. Crimes hediondos com o mais alto nível de gore (vide caso Aracelli assassinada pelos irmãos Dota, caso Ana Lídia e etc.) foram “esquecidos de ser julgados” pelas autoridades da época por terem sido cometidos por simpatizantes com o regime militar.

A memória é cuidadosamente editada, intentando apagar trechos que a muito custo vêm à tona de maneira torta (vide nossa comissão da verdade, que não puniu torturadores, mostrando-se inócua para com os crimes praticados, um arremedo de justiça que chega a se risível; mas é o que foi possível fazer quando o país tem em seu ordenamento algo ridículo como a Lei de Anistia); Pinochet, no Chile, amargou prisão domiciliar, mesmo doente e inválido. Brilhante Ustra, o sádico coronel torturador é louvado na câmara. Não há memória da dor porque essa dor nunca foi sentida, e sim celebrada por ser com os filhos dos outros, em contextos de pobreza e/ou opressão dos quais essa parcela que clama pela volta do autoritarismo nunca vivenciou.

Por não ter sofrido com a perseguição na própria pele, essa parte da classe média que se julga elite financeira e intelectual do país é saudosa dos velhos tempos. E é compreensível. Eram bons para eles, eles tinham tudo, e daí a democracia os tira isso porque uns poucos “marginais degenerados” de sua mesma posição social foram “merecidamente” perseguidos e mortos. As pressões pela abertura política só começaram a ser feitas quando a ditadura muito modestamente mordeu alguns calcanhares com poder aquisitivo e intelectual, matando, torturando e exilando alguns deles. Líderes camponeses, de sindicatos, de associações de moradores? Para esses, nunca houve verdade ou justiça possíveis.

Nesse contexto de isenções e falta de empatia surgem as abominações que louvam torturadores e ditadores. Cresce a afinidade com regimes autoritários e processos políticos duvidosos. E a formação humanística, mesmo a das escolas mais caras, beira a indigência pela total falta de perspectivas históricas e culturais acerca do próprio brasileiro como povo. Não que ela seja capaz de mudar algo nesses corações sanguinários revanchistas, sem ingenuidades, por favor, mas pelo menos os faria ter cuidado e receio ao arrotar chauvinismos dessa sorte em público. Eles teriam vergonha. E pela memória de tantos mortos, feridos e desaparecidos, a vergonha já seria bastante.

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