como crescer sem pai me fez enxergar o mundo dos homens
Essa não é uma história de como eu dei certo na vida, porque a verdade é que eu nem comecei ainda. Essa é a história da minha iniciação na vida, da minha relação com os homens e como eu aprendi, desde pequena, a enxergar os gigantes.

Meu pai, mais conhecido como Aurélio no verso do meu RG, perdeu tudo para o alcoolismo quando estava no seu auge. Tinha família, filho e uma casa para sustentar, mas o medo de sobreviver sozinho nesta selva de pedra já naquela época o deixava louco e, assim, se entregou para as doses no fim do expediente que, com o tempo, começaram a tomar toda sua rotina. Depois de perder tudo aqui em SP, sem opções, precisou voltar para o Piauí, e aquele pai orgulhoso, esposo carinhoso e dedicado já não existia mais. A cachaça o fizera esquecer até dos mínimos detalhes. No meio dessa caminhada ele começou a bater na minha mãe, no meu irmão… e até eu, ainda bebê recém-nascida, cheguei a entrar na “dança”. Foi a gota d’água. “Que me chamem do que for, mas não me chamem de mulher de malandro”, um dia me disse dona Rita, conhecida como a mulher que me trouxe a este mundo.
Determinada em criar meu irmão e eu de qualquer forma ela que, antes, não havia simpatizado a primeira vista com São Paulo, se encontrou num beco sem saída quando precisou voltar sozinha para tentar a vida na cidade grande. Desta vez, a questão não era sobre escolher onde morar mas de não ter escolha nenhuma. E assim, foi. Com uma bicicleta vendida, antes usada para conseguir parte da renda da família, para comprar só uma passagem de ida e uma mala preta enorme. Ela veio para São Paulo enquanto John e eu ficávamos na casa de uma tia no nordeste, ansiosos, com saudade, esperando as ligações aos domingos para saber quando, enfim, ela nos buscaria ou voltaria para nos ver. “Minha filha, você vai vir morar com a mamãe… você vai vir de avião com a sua tia!” foi como ela me deu a notícia que mudara a minha vida. “E o Johnzinho, mamãe?” perguntei ansiosa, já que minha cara metade e obviamente a melhor parte de mim deveria vir comigo, certo?! Ela respirou fundo tentando encontrar palavras que soassem menos duras que um simples “No momento eu só consigo trazer um de vocês”. E eu simplesmente assenti. John é mais velho oito anos, de uma personalidade peculiar, foi meu exemplo e é, até hoje, a figura paterna mais próxima que tive. Ainda que eu tivesse tios sempre atenciosos, nunca ninguém seria como ele. Meu amigo, companheiro. A pessoa que me criou, que me dava banho, de comer, me levava para a escola na garupa da bicicleta embaixo daquele sol quente de 35º e ainda se propunha em enxugar minhas lágrimas quando eu ficava triste, mesmo eu sendo grudenta ao ponto de ir assistir suas aulas quando as minhas acabavam mais cedo.
Já em São Paulo minha mãe havia se juntado com a segunda figura paterna que entrara na minha vida. Empolgada em rever minha mãe, não posso não dizer que desesperadamente eu estava ansiosa em conhecer meu “novo pai” também. Mamãe casara com um outro piauiense, aqui em São Paulo, que lhe acolheu depois de meses morando aqui e a ajudou a segurar as pontas. Lembro até hoje da cena. Chegando na rua de cima da casa onde moro até hoje, já com a minha mãe do meu lado, lembro que perguntei “Mãe, aquele ali é o meu pai?” Ela hesitou drasticamente, imagine a surpresa. “Aquele ali é o Del, minha filha, o esposo da mamãe. “Eu posso chamar ele de pai?” O Brasil queria saber, minha gente! “Você vai precisar perguntar isso à ele” e bastou isso para que eu saísse correndo, com meus quatro anos de idade, em direção a um estranho que eu nunca tinha visto na vida, sorrindo e saltando… “Oi, você é o Del?” perguntei eufórica, “Sim, sou eu! E você é a Raíza?” me retrucou ele. “Sim! Eu posso chamar você de pai?” Rindo hoje, mas de desespero, chego a conclusão que já naquela época a mini Raíza não tinha limites. Como se fosse ontem, consigo sentir minha voz estridente e meu sorriso aberto dizendo isso enquanto eu o abraçava… na ânsia de encontrar algo que eu sempre quis, ou achei que quisesse. “Acho que é um pouco cedo para isso, você não acha? […] Mas você pode me chamar de tio” E foi assim que eu aprendi, ali, que a gente tem o que a gente precisa e não o que a gente quer. A uma semana de completar meus cinco primeiros anos, eu posso dizer que tive uma das lições mais importantes de toda uma vida. Afinal de contas, a verdade é que eu não precisava de um pai. Eu já tinha um. Biologicamente falando, me diziam que ele existia. Mas o fardo desse cargo sempre esteve sob a supervisão de Johnzinho. Detalhe esse que eu só me dei conta quando comecei a escrever sobre meus sentimentos na tentativa de entender.
Os anos foram passando, e eu posso dizer que em dez anos a minha vida mudou muito. Com a vinda do meu irmão logo depois de mim, a sensação que eu tive é que a minha família estava completa. Todos os três dividiam uma casa, um teto periférico mas nosso. Comprado por minha mãe. Sozinha. Na satisfação de enfim, depois de tudo, dizer “Eu consegui”. Dona Rita, quando chegou em SP, fazia de um tudo… foi manicure, cabeleireira, teve um bar e, ainda que odiasse o álcool e tudo que, de certa forma, ele tinha acarretado nas coisas que de ruim lhe tinham acontecido, ela decidiu fazer um curso de Bar. Imagine: mulher, mãe de dois filhos, separada, sem ter terminado sequer o fundamental ll e que ainda inventa de cursar uma técnica praticada nas noites, nas baladas, na “vida”. “Vão me chamar de puta lá no nordeste” ela brincava e ria pelos cotovelos, porque se importar de verdade ela não o fazia. Mesmo sem saber ler e escrever muito bem, ela se formou como uma das primeiras da classe e conseguiu um emprego em uma das maiores casas noturnas da noite paulistana na época. Ela era puro êxtase. Trabalhava como ninguém, cheia de contatos e respeitada. Nunca deixou de voltar para casa numa manhã para fazer um after, como seus colegas adoravam fazer, porque sabia que em casa suas crias esperavam. E durante toda sua vida foi assim. Abdicando dos seus prazeres pessoais para proporcionar uma vida diferente da que ela teve para nós, seus filhos. Como uma verdadeira felina, protetora.
Hoje, tendo todas as escolhas nas minhas mãos de fazer o que eu quiser com a minha vida e da maneira que eu bem entender, consigo enxergar quão privilegiada sou. Partindo de todos os detalhes que me levaram a estar onde estou hoje, posso dizer que se eu contar minha história para um carroceiro, o primeiro a chorar é o jegue. Porque não foi fácil, nem nunca nos disseram que seria. Meu irmão, ainda com todos seus defeitos de pai ciumento, é a pessoa mais importante na minha vida. Meu alicerce. A pessoa que, em conjunto com minha mãe, na primeira oportunidade que ele teve de crescer na vida decidiu me levar junto. Pago um curso de inglês para a Raíza ou uma viagem para mim? Eu sempre fui mimada dentro das nossas necessidades. Sempre tive tudo que meu irmão não teve, até as colheres de chá que nos fazem brigar até hoje. Portanto afirmo: eu nunca precisei de um pai para saber qual seria o meu lugar no mundo.
A ausência do meu pai biológico foi o exemplo mais certeiro que eu poderia ter para me tornar essa pessoa tão cheia de si e crente nos meus ideais hoje. Não o ter por perto foi o que me sustentou a crescer sozinha, com o que eu tinha, do jeito que dava, entendendo que depender de um homem jamais seria uma opção válida. Dona Rita é meu maior exemplo de força, aquela que depois de combater um câncer por quase dez anos se mostrou guerreira, firme e de pé porque ela sempre foi do tipo que dizia “A vida é linda demais para se desistir tão fácil dela”.
Hoje sou não só feliz, como grata. Eternamente grata por cada vírgula e ponto na minha história, por cada tropeço e por cada novo degrau construído. Hoje, a minha visão de mundo e a forma como eu enxergo os homens se baseia muito em como eu absorvi cada etapa da minha vida. Decidida que eu não preciso de um homem para sobreviver, pretendo um dia formar uma família baseada na não-necessidade, no respeito, no carinho e na equidade.
E se compartilho desses pensamentos hoje, aqui e agora, é porque eu realmente sinto que nunca é tarde demais para perdoar. Nunca é tarde demais para voltar atrás. Para dizer aquilo que você sempre quis dizer ou fazer, desde que você queira, de verdade.
A vida tem essa mania de cobrar todas as coisas que fazemos aqui. E eu acredito muito nisso: que precisamos ser justos com quem somos, sobretudo com quem amamos. Então, que entreguemos a melhor parte de nós, que nos doemos e usemos como gás todas as coisas que de ruim nos aconteceram para propagar só o bem. E o amor.
O resto, bem… o resto é o resto, e como é sempre muito importante lembrar: tudo na vida acontece por uma razão, na maioria dos casos não vai ser do jeito que queremos ou esperamos, mas sim do jeito que, verdadeiramente, precisamos.
