Prioridades

Fila do check-in, 14/12. Eu, que já pratico voluntariado pelo mundo há anos, estava prestes a embarcar em uma nova aventura. Dessa vez, na Vila do Pesqueiro, Ilha de Marajó.

- Próximo! — Chamou a atendente do de check-in.

Me dirigi até ela sabendo que eu estava com a mala um pouco pesada, já que quase não couberam minhas roupas. Do que a mala estava lotada, então? Brinquedos. Passei da idade, eu sei, mas não eram para mim.

-Qual o destino? — Continuou a atendente.
-Vou para Belém, Ilha de Marajó — entregando meus documentos. 
Alguns momentos de silêncio mexendo no computador…
-Coloque a mala — apontou a atendente para a balança.
 
Deu 27kg.Quem já viajou o mundo, como eu, sabe bem que o limite é de 23kg, mas também sabe que 27kg não é nenhum absurdo passível de pena. Ela colocou a mala do lado, pensei “ufa, passou”.

-Tem que pesar a mala de mão — disse. 
Coloquei na balança e pensei “caramba, 10kg! É muito além do permitido”.

Eu já tinha um discurso pronto, uma vez que tinha até uma carta assinada atestando minha condição de voluntária em um projeto.

-Não interessa. — Ela se referia à minha carta, tentava me explicar que o peso, independentemente dela, deveria ser controlado. Mas essa resposta bateu fundo na alma. Foi como se ela dissesse que os pescadores não precisavam dessa ajuda, mas eles precisam…

Tentei argumentar. Não resolveu. A maioria do meu grupo de voluntários embarcou no voo anterior e, conversando por mensagens, descobri que eles passaram pela mesma situação e que a supervisora não havia liberado o excesso de peso (no caso deles, por serem vários, remanejaram os excessos e conseguiram despachar os brinquedos que causavam o peso extra).

Eu (e, principalmente) os passageiros atrás de mim tínhamos pressa. Meus poucos quilos extras custavam um bocado a mais e minha carta não tinha valor. Tive de tomar uma medida drástica.

-Então devolve a mala que vou tirar os brinquedos da doação e jogar fora — sim, chorei.
Não eram só brinquedos. Cada um deles foi arrecadado com um propósito — e isso doeu.

A atendente, vendo minha tristeza, ainda tentou conversar com a supervisora, que liberou apenas o excesso na mala de mão. Mas eu ainda teria que tirar 4 kg da mala para despachar.

Puxei a mala para o lado de check-in dos passageiros — com um nível de dificuldade extra, já que eu havia quebrado o dedo do pé alguns dias antes.

Pedi uma sacola. Não tinham, infelizmente.

Abri a mala e tirei um carrinho vermelho, depois um cubo mágico. Não sei dizer a reação ao meu redor, não conseguia nem olhar em volta. Aí tirei um robô, daqueles bem grandes e cheios de dobras.

Eu nunca havia visitado a Vila do Pesqueiro, mas aqueles brinquedos todos deveriam ir para lá. Essa também é uma face do voluntariado: ir sem saber exatamente o que encontrar. Nós já sabíamos que havia muitas crianças pequenas no local, naturalmente — mais de 10, de 0 a 6 anos, sem recursos. 
A outra face, importantíssima, é o que deixar de legado. Nossa força se transformaria em tetos para as famílias; nossos brinquedos, junto com a nossa atenção, em histórias que as crianças continuariam desenvolvendo após nossa volta. E por isso que a falta de qualquer um desses elementos –voluntários ou brinquedos — seria uma grande perda para o projeto.

Nesse momento, a atendente falou:
-Você não consegue colocar na mala de mão?

Entendendo que aquilo era uma tentativa de terminar logo essa tortura emocional que eu, e agora ela, estávamos passando, enfiei os brinquedos em qualquer abertura que consegui encontrar na mala de mão, joguei o robô na minha bolsa ao som de um “tá bom, tá bom”.
Ainda com vergonha, fechei minha mala e saí com aquele robô pendurado na minha bolsa, 10kg na mala de mão e uma sensação de que nosso trabalho em arrecadar doações não seria desperdiçado.

O voluntariado pode acontecer de diferentes formas, não existe receita. Vai desde doar o carrinho vermelho com o qual o filho não brinca mais até passar as férias construindo um telhado para uma comunidade menos favorecida e distante.

E, entre atrasos, desencontros e acordos, penso que cai muito bem a reflexão sobre o livro de Peter Singer, leitura obrigatória dos apaixonados por voluntariado. Nele, o professor ressalta a importância da geração atual em salvar as futura, doando seu tempo e seus dons para atender às inúmeras carências que temos hoje. O título do livro? É justamente o eu gostaria que você, leitor, pensasse: “Quanto custa uma vida?”