Gotas

Abancado àquela velha cadeira provençal, a xícara de café guarnecida de temperatura fumaçava em odores escaldantes os meus pensamentos que somente aquelas gotas descendo pela janela do meu velho escritório me espelhava as rugas e o encolher de minha pele denotando escritos nos espaços vazios que o meu cansaço era mais amigável a mim que a vontade descritiva do velho retrato de meu pai em me indagar quando eu perdi o rumo dele.

Em reminiscências, sempre foi o rumo dele. Um filho doutor, numa titulação falsa sobre a vontade que eu poderia realmente ter. Olhava para mim aqueles velhos olhos negros e dizia em sussurros como se naquela sala eu estivesse com ele. Quem sabe o rumo dele deveria ter sido o meu. Mas que rumo tomaria se nunca eu arriscasse ser o meu rumo. Entre gotas que caíam numa chuva fúnebre, gravava em minha janela aquele cinzento longínquo de onde eu via as ruas, as pessoas e seus guarda chuvas, as roupas pretas como se todas viessem de um funeral. Quem sabe cada um que morre um pouco nessa rotina inacabável, vem de um funeral diário, seu próprio. Eu lembrava de meus dias jovens e me via sem força para tornar a lembrar.

Uma xícara.

O café tenta esfriar enquanto as lembranças me vêm frescas e ao mesmo tempo penso em estar sobre verdadeiras e falsas. A idade já me é um perigo. Mas o tempo faz questão de soprar um friúme estomacal na certeza que cada uma me fará doer a mente. E me dói. Nem sempre os momentos felizes conseguem satisfazer as lembranças que tento esconder para não ter gotas desagradáveis. O tempo manipula a vida em desconforme à minha vontade. Fui rico, fui pobre. Fui plebeu e fui nobre. Fui doutor, fui senhor. Navegante e andarilho. Fui água, fogo. Fui vida e fui morte. No final sou humano. Descobri com o tempo que sempre fui humano. Às vezes racional, outras irracional. O tempo tratou de ser mais provençal que esta cadeira onde sento. Tratou de ser um abismo sem ponte. Caí em mim, esbarrei em outros, deturpei companheiros. Mas sempre, sempre eu fui um caminho errante.

Para a eternidade.

Caminhos, pedras, flores e urtigas. O tempo tem dessas. Esconde o bem, transmite o mal e me ensina a ser bom numa brincadeira de pique esconde. Me dá e eu não recebo. Entrego e ele me rejeita. Andar sobre o tempo só trouxe aprendizados em que eu percebi que enquanto não caminhei sozinho, morri um pouco mais, andei para trás. Empertigado, olho para as gotas que secam como flores murcham. Entre uma xícara de café frio e palavras quentes nessa última folha de papel, eu me vejo esquecendo o caminho e olho para trás onde nada é nítido e nada eu sinto. Olho fronte ao espelho e vejo apenas um homem sem nada, sem lembranças.

Fim.

Escrevo as últimas palavras em um último pedaço de papel onde meu tracejado não pode esconder a falta de força em minhas mãos. Olho pela janela o cinza da cidade que agora reluz um amarelo queimado como quem me dissesse “Fim”. É a corrente de toda história. É o trilho de cada trem. Cresci ao caminhar sozinho, caí ao fazer tudo sozinho. Individualizei-me entre anseios e desejos e me agrupei nos medos e temores. No fim, a história do tempo é um velho senhor que nunca lhe largou a mão e nunca o deixou caminhar sozinho. No fim o Tempo continua o Senhor de todos os destinos.

Mas, por fim, o Tempo me carrega agora, entre suas velhas pernas bambas, a um leito que somente eu sei que me caberá à eternidade.

“E jamais ousara desconfiar que o Tempo lhe roubava um pouco de vida em cada passo de seu compasso.”

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