João Alves é cego!
Cego, João Alves nascera cego.
Não via um palmo à sua frente e nem mesmo traduzia sua fronte. Era cego. Aprendeu a ler e escrever, mas era cego.
Cego
João Alves cresceu no pouco e no pouco aprendeu. Não enriqueceu, viveu a vida que qualquer Deus lhe deu. Trabalhava árduo, em sol de dia a esquentar suas costas como as chibatas os escravos.
João Alves era cego. Leu e escreveu e isso só bastou para viver. Comia e bebia o pouco que a vida deu. Mas João Alves via ao seu redor. Cego era para todos os outros que sabiam, Al de ler e escrever, contar e falar.
Cego
Cego como o burro que não sabia a decisão que tomar, diziam o seu redor. Cego foi João Alves que não viu grandeza nas mui palavras bonitas, nos mui carros a correr, nas mui roupas a vestir.
Cego seria João se morresse na cegueira que nem mesmo ele sabia de onde vinha. Cego foi o tolo que o disse que nada sabia.
Sabia, João Alves, as mandingas, a sabedoria da terra, o verde, a mata e o trabalho. Cego foi João que aprendeu a cuidar, tratar e curar e nunca dependeu de ninguém para ir e vir sem que soubesse entrar e sair.
Cego.
Cego é a humanidade que esqueceu o conhecimento de João Alves. Cego foi a diferença que matou a possibilidade de se aprender tudo que João guardou em vida e ensinou a si mesmo que o silêncio ganhou novos ares.
Cego.
Cego é a inteligência e a burrice a caminhar juntas como casal feliz. Cego é a diferença do mais ou do menos num domínio imaginário da hostilidade fútil de um ser humano.
Cego.
Cego a humanidade esqueceu que João Alves viveu sorrindo, cresceu tentando, envelheceu sabendo e morreu completo.
Cego é esquecer que conhecemos distintamente cada parte de um todo. João Alves viu mais do que poderia saber em um silêncio de sua cegueira.
