O Tempo
Nascido no ontem, suas reminiscências são triviais. Os dias percorrem e cada segundo já é um passado.
O tempo é irreversível.
A velha frase “Não adianta chorar pelo leite derramado” se faz persuasiva por o tempo ser tão passado quanto ultrapassado. Mas o tempo nasce, renasce, antropofagia-se mascarando todas as suas intenções.
O tempo é incômodo.
Atinge certeiramente o coração da vida escrevendo em linhas, tortas ou não, suas palavras magníficas e fúnebres que marcam a pele no caminhar da jornada.
É o Senhor de todos os destinos.
O tempo não escuta, não fala, não vê, não toca. O tempo age conforme sua vil vontade, transformando-se e revolucionando. Os seus passos são lentos em comparação aos nossos passos. O tempo não mede a distância entre os objetivos e a vontade de percorrer o caminho. Ele o alonga. Ele o obstacula. Ele o mata. Somente em mortes acumuladas, pode-se finalmente viver o limite inalcançável dos pretéritos objetivos.
O tempo não escuta.
O tempo sabe mesmo sem conseguir ver as palavras dos lábios traiçoeiros da vida, da comunhão entre a vontade e a desvontade.
O tempo não fala.
O tempo o faz escutar sem ao menos pronunciar balbúrdias conotações insípidas daquilo que vemos pelo caminho e cegamos-nos à vontade de nada querer.
O tempo é único. É um senhor que jamais envelhece por si só. Ao contrário. É cada vez mais jovial ao nos ensinar os caminhos por onde estar. O tempo é mais que a mudança. O tempo é a revolução da vida, a imperfeição, a perfeição e todo o ser que somos. Somos feitos de Tempo. E o tempo desabrocha, mostrando-nos a beleza que jamais veríamos por si só. É necessário sentir cada vez mais cada gota que o Tempo derrama sobre nós. Seja de dor ou não. Mas é necessário não estar caído em beira os cantos das estradas.
Faço, refaço, trespasso.
É o tempo me ensinando a caminhar.
