Palavras rasgadas
Escrevinhei sobre o papel as palavras que rasgavam-se como num ímpeto ódio de um escritor torpe, soturno, magoado, de costas ao mundo. Entre amassos de papel, fui ao lixo e os recolhi. Entreabri à minha face e só podia achar palavras ao vento, onde nem mesmo os seus significados eu poderia reencontrar. Li, reli, apaguei-as e não pude acreditar. Como A persistência da memória o tempo me escorria, a chuva lá fora batia em minha janela e eu via na transparência as gotas d’água que espelhavam minha face. Era feia, triste, diferente. Mas era eu, era um ser humano, era o fracasso e o sucesso em uma guerra que mal criava minha mente entre tantas palavras que já não cabiam dentro de mim.
Sentei-me.
Escrevi mais uma vez na velha máquina de escrever. Odiava a tecnologia. Preferia aquele jeito hermético e arcaico de colocar pra fora. Não juntei palavras, apenas as coloquei no papel uma ao lado da outra. Saíram de mim uma mente maligna e incrédula do meu próprio ser. Era mais fracasso que sucesso, mas agora seria mais sucesso que fracasso. O sucesso de estar fronte às palavras que me aprisionavam agora quebram correntes. Vou à janela e continuo a me ver espelhado naquelas gotas que não param de descer. Um temporal lá fora. É assim que sou. Um temporal lá fora que em meio ao céu nublado, fosco, sem cor, um descolorido que não me agrada, uma tangência incomum.
Sentei-me.
Esqueci a vida, as palavras e apenas sentei-me fronte às palavras. Entre elas O tempo e A morte. De qual melhores palavras eu poderia escrever senão aquelas. Não sou um ser das mais variadas, mas o ser que entorpeceu o recheio da vida de tempo e morte. O tempo que me molda, me muda, me ensina, me aproxima, me chora, me lastima. A morte que me dorme, que me leva, que me aproxima, que me tira um brilho fosco do olhar, que me mata, que me entorpece num decúbito onde nenhuma palavra a mais me aprisionaria.
Tudo cessou.
Cessou meu ser, meu olhar e eu já não sabia onde olhar, o que vislumbrar. São olhos fechados que não se abrem mais e só me liquefazem como àquelas gotas na janela. Escorria a última gota, assim como minha última na pele cheia de traços que o tempo escreveu em meu ser. Foram palavras do tempo onde aprendi a única coisa que hoje não consegui fazer.
Viver.
